Letras e fotogramas

Feliz aniversário, Mr. Eastwood

Por Alysson Oliveira em 31/05/2010
 
O grande Clint Eastwood chega hoje aos gloriosos 80 anos, com um vigor de uns 30 – como bem sabemos. Ator, diretor, produtor, compositor e gênio do cinema, ele é mais uma entidade do que um ser humano. Ele já dirigiu meia dúzia de clássicos por aí: Os imperdoáveis, Bird, Sobre meninos e lobos, Menina de ouro, o díptico A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, Gran Torino – só para ficar nos mais recentes. Atuar, ele atuou em mais de 60 – e, claro, os mais notórios são os westerns spaguetti, o mais famoso, e talvez o melhor, é Três homens em conflito.
 
Não consigo escolher um único filme dele. Acho que os que citei no primeiro parágrafo disputam o posto de meu favorito. Está bem, se tivesse de escolher um ficaria com Os imperdoáveis, seguido de perto por Sobre Meninos e Lobos.
 
Em sua obra, Eastwood fez uma radiográfica, sempre melancólica, da sociedade norte-americana em transformação – não necessariamente para melhor.
 
Ainda para esse ano (quem sabe no Festival de Veneza, em setembro) ele promete Hereafter – um suspense sobrenatural com Matt Damon e Bryce Dallas Howard. E para 2012, está previsto Hoover, uma biografia do polêmico diretor do FBI J. Edgar Hoover. Leonardo Di Caprio deve fazer o biografado.

Nelson Xavier, o Chico Xavier relutante

Por Alysson Oliveira em 25/03/2010
 
Mesmo relutante, o ator Nelson Xavier vai interpretar o médium Chico Xavier novamente. Desta vez será em As mães de Chico, longa que começa a ser rodado no próximo mês. O ator me disse numa entrevista que não queria aceitar o papel, pois tinha medo de ficar rotulado. “Mas como é apenas uma participação, não é o papel principal, e é outra fase da vida do Chico [que não é mostrada em Chico Xavier], quando ele estava mais velho, resolvi aceitar”. O filme acompanha três mães que recebem mensagens de seus filhos mortos.
 
A partir do próximo dia 2, quando o médium completaria 100 anos, Nelson poderá ser visto em cinemas de todo Brasil na sua primeira incursão como Chico Xavier, no filme homônimo de Daniel Filho, que teve sua pré-estreia na última terça, na cidade de Paulínia, onde estão os estúdios onde parte do filme foi rodada.
 
A entrevista na íntegra com mais detalhes sobre o trabalho de Nelson, e como interpretar Chico mudou a vida dele, você lê em breve.  

Essa nossa juventude

Por Alysson Oliveira em 25/03/2010
 
Em 2005, a cineasta Laís Bodanzki dirigiu no teatro Essa nossa juventude. O texto, do norte-americano Kenneth Lonergan, trazia em cena um trio de jovens prestes a ingressar na vida adulta. No próximo mês, a diretora lança seu terceiro longa, As melhores coisas do mundo – que poderia muito bem pegar emprestado o título da peça de Lonergan. (Além de trazer no elenco, em dois papéis coadjuvantes, Gustavo Machado e Paulo Vilhena, que também estavam na peça.)
 
Uma das primeiras coisas que chamam a atenção em As melhores coisas do mundo é como o filme mostra jovens de verdade – em oposição à ‘jovens das novelas e programas de televisão’. Ou seja, adolescentes como aqueles que a gente vê nas portas das escolas, nos metrôs, pelas ruas. Mas também não é só. Laís conta com um elenco estreante que dá um verdadeiro show – especialmente o protagonista Francisco Miguez, e a atriz que interpreta sua melhor amiga, Gabriela Rocha.
 
O roteiro, assinado por Luis Bolognesi – parceiro na vida e de trabalho de Laís – é inspirado numa série de livros de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. É interessante, como as coisas acontecem na escola onde os personagens estudam. Todos, mais cedo ou mais tarde, são vítimas de zombaria dos colegas, ou, como os americanos chamam, o bullying. Uma aluna é zombada porque acham que ela é homossexual. Mais tarde, uma foto de outra menina seminua é enviada de celular a celular. E por aí vai. Nem o protagonista, Mano, passa incólume.
 
Os personagens de As melhores coisas do mundo descobrem – como todo mundo – a duras penas que crescer é um processo complicado e, não poucas vezes, até doloroso. Mas talvez é nisso que reside a beleza da vida, em sofrer, cair, dar a volta por cima, sair do problema fortalecido e tocar em frente.
 
As melhores coisas do mundo tem previsão de estreia para 16 de abril, mas antes disso abrirá o Festival de Melhores Filmes do Ano, no CineSESC, numa sessão para convidados. Tomara que seja um filme que leva muita discussão sobre a nossa juventude, tanto para dentro das escolas como para as famílias.

Uma Aventura de meio século

Por Alysson Oliveira em 04/03/2010
 
Quando exibido no 13º Festival de Cannes, em 1960, A Aventura, de Michelangelo Antonioni, recebeu gargalhadas e vaias na sessão de gala. Diz a lenda que a atriz Monica Vitti saiu antes do filme acabar aos prantos, amparada pelo diretor. Pouco importa, pois alguns dias depois, o longa recebeu o segundo prêmio mais importante do evento – perdendo apenas para seu conterrâneo A doce vida, que também completa 50 anos.
 
Ao longo desse meio século, o filme ganhou notoriedade e fama. A crítica norte-americana Pauline Kael o escolheu como o melhor filme de 1961, e a revista inglesa Sight and Sound o colocou, em 1962, como o segundo filme mais importante da história do cinema – ficando atrás apenas de Cidadão Kane. A aventura ficou na lista dos 10 melhores filmes da publicação por três décadas.
 
A premiação em Cannes e a nacionalidade não são, na verdade, as únicas coisas em comum entre A Aventura e A doce vida. Para o crítico norte-americano Roger Ebert, o filme de Antonioni é ‘o outro lado da moeda’. Os diretores retratam ‘personagens em buscas vãs pelo prazer e terminam ao amanhecer com o vazio e alma pesada’.
 
A aventura é o típico filme em que ‘nada acontece’ – o que quer dizer que tudo acontece nas entrelinhas, naquilo que não se vê, não se fala. Começa com o desaparecimento de uma personagem, Anna (Lea Massari), que parece padecer com o tédio da existência. É rica e namora Sandro (Gabriele Ferzetti), mas está cansada dessa vidinha rica e vazia. Durante um passeio de iate com amigos tão ricos e vazios quanto ela, Anna desaparece.
 
Simples assim, ela some e não deixa nenhum sinal. Por algum tempo a narrativa gira em torno da busca de Anna. Eles andam pela ilha onde ela desapareceu. Sandro conta com a ajuda de Claudia (Monica). Até o pai de Anna é trazido para a ilha, e ele parece, aliás, bastante bravo por ter sido tirado de suas obrigações por conta de um incidente tão banal quanto o desaparecimento da filha.
 
Anna jamais será encontrada, e os personagens são obrigados a tocar em frente suas vidas – tanto que Sandro e Claudia acabam se envolvendo um com o outro. Por conta disso, há sempre uma tensão no ar, tanto sexual, quanto um medo de que a desaparecida retorne e retome o seu lugar, acabando com o romance entre os dois personagens.
 
Apesar do envolvimento amoroso, Sandro e Claudia buscam algo mais do que amor. Aliás, amor deve ser a última coisa que passa pela cabeça deles. Como Anna, eles são personagens à beira do abismo, prestes a desaparecer, deixar de existir, tamanha é a nulidade de suas vidas e o desespero por algum tipo de conexão com outras pessoas. É isso que os une, não o amor.
 
A Aventura inaugura uma série informal de Antonioni conhecida como a Trilogia da Incomunicabilidade, que conta também com A noite (1961) e O eclipse (1962). Melhor do que ninguém, Monica Vitti encarnou as mulheres ‘antonionimente’ alienadas, desconectadas de suas vidas, do seu momento, em busca de algo que as faça perceber porque estão vivas. Ela voltaria a fazer algo parecido em outro filme do diretor, O Deserto Vermelho (1964).
 
Meio século se passou e A Aventura ainda continua um enigma tão fascinante quanto perpétuo. Os tempos mudaram, as indagações existenciais e existencialistas também são outras – mas há algo que jamais será superado: o grande cinema de Antonioni. Há coisas que não necessitam de tradução ou explicações, como o trabalho do diretor nesse longa. Sua composição nos planos, a tensão das imagens (numa das melhores cenas, uma Claudia assustada é devorada por olhares assustadores de um bando de homens), a bela fotografia em preto e branco de Aldo Scavarda, enfim, é tudo aquilo que se espera do cinema – não apenas contar uma história, mas transformar essa história num arrebatamento visual.
 
PS – No ano passado, o Festival de Cannes utilizou uma imagem bastante famosa do filme em seu pôster oficial. O resultado ficou muito bonito.

A Educação de Nick Hornby

Por Alysson Oliveira em 11/02/2010
Nick Hornby deve ser um sujeito legal. A julgar pelas fotos dele que se encontra no Google, entrevistas no youtube e por seus livros deve ser legal tê-lo como amigo. Ele tem 50 e poucos anos, uma dúzia de livros publicados, que se tornaram referência pop, e só agora escreveu um roteiro para o cinema – embora seus romances tenham rendido bons filmes, como Alta Fidelidade.
 
Educação é o primeiro roteiro de Nick (ele parece ser um sujeito tão legal que talvez não se incomode de ser tratado pelo primeiro nome) e já lhe rendeu indicações ao Oscar e BAFTA, entre outros prêmios. O roteiro é baseado no livro de memórias da jornalista inglesa Lynn Barber (que nessa matéria no jornal inglês The Guardian conta um pouco sobre a experiência retratada no filme).
 
Uma das coisas que mais me chama a atenção no filme é como Educação consegue ser feminista sem ser panfletário. Não é um ‘filme de mensagem’ e ainda assim mostra como uma garota pode tropeçar, cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. O filme parece falar muito honestamente do universo feminino. O mais curioso é que o roteiro foi escrito por um homem – que parece entender bem a alma feminina. A maioria dos livros de Hornby é sobre o universo masculino – mas meu preferido, Como Ser Legal, é narrado por uma mulher (aliás, quando alguém vai levar esse livro para o cinema??).
 
A outra coisa que é uma grata surpresa em Educação é a atriz Carey Mulligan, que já havia feito pequenos papéis em outros filmes, como Inimigos Públicos, e foi uma das irmãs Bennet, na adaptação de Orgulho e Preconceito. Agora, como protagonista, ela é o corpo e a alma do filme. Dez anos mais velha do que sua personagem, ela é capaz de, ainda assim, transmitir todo o vigor e o frescor das descobertas pelas quais Jenny passa. Aliás, pensando bem, Carey seria a escolha mais acertada para a protagonista de Como ser legal, no cinema.

Retrato de uma sobrevivente quando jovem

Por Alysson Oliveira em 08/02/2010
PRECIOSA, de Sapphire, Editora Record, 192pg, R$29,90
 
“Quero falar que sô alguém. Quero falar isso no metrô, na TV; no cinema, ALTO. Vejo as caras cor de rosa de terno olhando por cima da minha cabeça. Vejo eu desaparecer nos olhos deles, nas prova deles. Falo alto, mas mesmo assim eu não existo.” É esse o desespero da personagem central do romance “Preciosa” (, escrito pela poetisa Sapphire e publicado nos Estados Unidos em meados da década de 1990, que acaba ser lançado no Brasil, pegando carona na estreia do filme homônimo que entra em cartaz no país na próxima sexta-feira.
 
Claireece Precious Jones tem 16 anos, é obesa, mal sabe ler e escrever, tem uma filha pequena e está em sua segunda gravidez – ambas frutos do abuso de seu próprio pai. A mãe, ao invés de proteger a filha, a culpa por ter ‘roubado o seu homem’, e também se aproveita sexualmente da filha. É um retrato doloroso que compõe o romance – até o momento que entra em cena uma professora de uma escola alternativa. A mestra atende pelo poético nome de Blue Rain, e muda a vida de Precious, a ensina a ler, escrever, mas, acima de tudo, a ter amor próprio.
 
Não é à toa que a história de superação dessa personagem afro-americana chamou a atenção de Oprah Winfrey que é uma das coprodutoras do filme. Não por acaso, a história de Precious soa como ‘um caso da vida real’, que a apresentadora levaria ao seu programa para mostrar como a jovem superou todas as adversidades e sobreviveu a uma história de abusos mais variados.
 
O romance de Sapphire parece uma combinação entre “O apanhador em campo de centeio”, de J. D. Salinger, e “A cor púrpura”, de Alice Walker. Mas é, em sua essência, uma história de triunfo, de uma personagem que vence a todas as adversidades. Às vezes, rápido demais, aliás. Numa página, Precious luta para aprender a ler, soletrando as palavras, letra por letra, poucas páginas depois, ela já lê “A cor púrpura” com certa habilidade.
 
Um painel de sofrimento, degradação e superação humana é composto pelas colegas de Precious na escola –as únicas pessoas, ao lado, da Srta Rain que parecem ter algum sentimento positivo pela garota. São histórias tão difíceis quanto a da própria protagonista-narradora. Numa espécie de apêndice ao final do livro, aparecem os relatos dessas personagens. Contadas juntas, essas histórias mais parecem uma das sessões de grupos de ajuda dos quais Precious participou, enfraquecendo, assim, o relato central ao fazer uma verdadeira galeria de possíveis horrores.
 
Tudo o que Precious parece querer é ter um lugar no mundo. “Pra mim isso não é nada novo. Sempre teve alguma coisa errada com as prova. As prova dá uma ideia de que eu não tenho cérebro. As prova dá uma ideia de que eu e minha mãe, minha família inteira, que a gente somos mais do que idiota, a gente somos invisíveis”. A jornada da personagem, em busca de um lugar no mundo, inclui, no entanto, primeiramente, aceitar a si mesma. Em seus delírios, uma fuga da realidade cruel, a protagonista se imagina branca, magra, linda e amada. No entanto, essa fantasia jamais se concretizará, e o primeiro passo para uma vida melhor é ela amar a si mesma como ela é.
 
O que há de melhor em “Preciosa” é a voz narrativa do livro, muito bem traduzida, alias, por Alves Calado. Precious não mede palavras e diz praticamente tudo o que pensa, na forma como pensa. Por isso, muitas vezes, sua narração é um jorro contínuo e desgovernado, pontuado por muitos palavrões. É interessante, à medida em que ela adquire mais educação, suas ideias ficam mais organizadas, assim como sua linguagem.
 
Sapphire sabe muito bem como manipular e comover – nem sempre na medida e na hora certa, no entanto. Às vezes, a emoção que vem de “Preciosa” soa real e original, por isso mesmo autentica. Em outros momentos, a história da personagem mais parece alguém que procura a ajuda de um programa de televisão para melhorar de vida. Em seus melhores momentos, porém, o romance é capaz de transcender o papel e atingir a vida. “Meu neném é um neném bonito. Não amo ele. Ele é o neném de um estrupador. Mas tudo bem, a Srta Rain diz que a gente é uma nação de crianças estrupada que o negro dos Estados Unidos de hoje é o produto do estrupo.”

O mundo dá muitas voltas

Por Alysson Oliveira em 03/02/2010
No ano passado, saiu nos Estados Unidos o romance Let the great world spin [algo como ‘Que o grande mundo gire’], que tem como ponto de partida para as diversas tramas o dia 24 de agosto de 1974, quando o francês Philippe Petit andou sobre um fio esticado entre as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, que na época não estava nem pronto. A saga do rapaz já foi tema do premiado documentário O Equilibrista – disponível em DVD -, mas, aqui, é apenas o começo e o elo de ligação de diversas histórias criadas pelo irlandês Colum McCann.
 
O livro recebeu um dos principais prêmios literários nos Estados Unidos em 2009, o National Book Award, e é uma das apostas para o Prêmio Pulitzer, na categoria ficção, que será anunciado em abril. A tradução está prometida para ser lançada no Brasil ainda esse ano, pela editora Record. O escritor mora nos Estados Unidos e, mesmo com a ação situada há mais de duas décadas, há em sua trama uma forte ressonância dos atentados de 11 de setembro de 2001.
 
Como bem disse um crítico no jornal The New York Times, o feito de Petit em Let the great world spin é ‘mais uma marca cultural e um conceito literário’ dentro do romance do que a razão de ser do livro, ou mesmo da narrativa. O que realmente interessa a McCann são as vidas das pessoas que estão lá embaixo olhando para os passos calculados do equilibrista a mais de 100 andares de altura.
 
As conexões entre os personagens são sutis. Um grupo de mulheres cujos filhos morreram no Vietnã se reúnem para superar a sua dor. Uma delas viu o equilibrista, e ele se torna um dos assuntos da reunião. Outras pessoas, por exemplo, estão ligadas a esse grupo, sem necessariamente, ter qualquer relação com o feito de Petit. Enfim, o autor explora uma teia humana ligada por fios muito finos da emoção e do sentimento.
 
Muita gente saúda Let the great world spin como o Fogueira das Vaidades do século XXI. Mas, ao invés do cinismo do livro de Tom Wolfe, um clássico sobre a Nova York da década de 1980, esse romance traz um conforto, um sinal de esperança. O olhar estrangeiro do escritor também permite observar a cidade sem qualquer laço nostálgico ou sentimentalóide.
 
O título, como é explicado numa nota, vem de um poema de Alfred, Lord Tennyson, chamado “Locksley Hall” que, por sua vez, foi influenciado pelo “Mu’allaqt”, uma série de poemas árabes. Assim, como seu próprio romance, o título escolhido por McCann mostra uma teia de relações que convergem as mais diversas culturas, os mais diversos períodos.
 
 J. J. Abrams (Lost, Star Trek) já comprou os direitos para a adaptação para o cinema, mas seria melhor se ele apenas produzisse, afinal, seu trabalho até agora não mostra uma sensibilidade condizente com a história. Gostaria muito de alguém do calibre de, digamos, Ang Lee ou quem sabe, Lee Daniels, um nome quente depois do sucesso de Preciosa. Tenho até umas sugestões para o elenco: Meryl Streep (que receberá sua enésima indicação ao Oscar) ou Julianne Moore, para o papel de uma mulher rica cujo filho morreu no Vietnã, Robert De Niro, como o marido dela, Mo’nique, como outra mãe que chora a perda do filho na guerra, Edwad Norton, como o irlandês irmão de um padre que ajuda prostitutas do Bronx, e Amy Adams faria uma moça que se envolve num acidente de carro e conhece o irmão do padre.

Já não será possível saber mais sobre Holden Caufield

Por Alysson Oliveira em 28/01/2010
“Se você realmente quer saber, a primeira coisa que você quer saber é onde eu nasci.”, Assim começa a saga de Holden Caulfield, o depressivo protagonista de “O Apanhador em Campo de Centeio”. Agora, não será possível saber mais sobre o rapaz – ao menos pela fonte oficial. Morreu hoje o seu criador, o norte-americano J. D. Salinger (Jerome David Salinger), aos 91 anos de idade - completados no último dia 1o. Segundo comunicado oficial divulgado pela Associated Press, ele morreu de causas naturais.
 
Holden pode ser o personagem mais conhecido do autor – que publicou apenas quatro livros, sendo “Apanhador”, seu único romance – mas a galeria de criações inesquecíveis é vasta. Basta pensar nos irmãos Franny e Zooey (e o sua inigualável prece, “Senhor Jesus, tenha pena de nós”), ou toda a família Glass, cujos membros aparecem em diversos contos, entre eles a obra-prima “Um dia perfeito para o peixe banana”, primeiro conto do “Nove Estórias”.
 
A última publicação de Salinger foi em 19 de junho de 1965, um conto na New Yorker, chamado “Hapworth 16, 1924”. Desde então, ele se tornou a celebridade literária mais reclusa do mundo, e pouco se sabe sobre a vida dele nesses mais de 40 anos. No ano passado, o escritor se envolveu numa polêmica quando seu agente entrou na justiça norte-americana tentando impedir a publicação nos Estados Unidos de uma sequência não-autorizada de “Apanhador”, escrita pelo sueco Fredrik Colting, que publicou sob o pseudônimo de John David California.
 
Durante sua vida, Salinger protegeu de todas as formas possíveis seus escritos e autorizou pouquíssimas adaptações para o cinema. Segundo o jornal The New York Times, até Steven Spielberg tentou comprar os diretos de “Apanhador”, mas foi em vão. Resta agora saber se a pessoa que herdar os direitos de sua obra irá manter essas restrições do escritor ou se vendará os direitos de adaptação para o primeiro que aparecer.
 
Ainda assim, alguns filmes, embora não sejam baseados nos trabalhos do escritor, são claramente influenciados pelo seu universo. Um deles é “Os Excêntricos Tenenbaums”, de Wes Anderson, sobre uma família intelectualmente brilhante, mas cheia de problemas emocionais – nada muito diferente da criação de Salinger, a família Glass. Ele, aliás, prometia um longo romance – por longo entenda-se mais de mil páginas – sobre esse clã. Não publicou, no entanto. Ou, como aconteceu com Nabokov há pouco – cujo inacabado “Laura – Morrer é divertido” foi publicado no ano passado – alguém pode encontrar um manuscrito inacabado e decide capitalizar em cima.

10 coisas que aprendi com a versão brasileira de High School Musical

Por Alysson Oliveira em 22/01/2010
Canta, canta, minha gente...
 
Assisti a High School Musical: O Desafio numa sessão para a imprensa hoje e aprendi algumas coisas com o filme:
 
- Wanessa Camargo estudou na High School Brasil. Depois de formada, quando não está cantando, ela usa seu tempo livre (que não é pouco) para dar conselhos pedagógicos, musicais e sentimentais aos alunos da instituição.
 
- Sempre é bom andar por aí com roupas da manga bufante. Nunca se sabe quando te chamarão para substituir a Julieta na pecinha da escola.
 
- Se você é uma atriz com mais de vinte anos, por mais que se esforce, faça caras e poses de ingênua, jamais conseguirá se passar por uma personagem de 16 anos. Já se você é um ator de 18 anos, interpretando um personagem de 17, cercado por outros atores na faixa dos vinte, você vai parecer, no mínimo, deslocado.
 
- Os alunos da High School Brasil são os únicos do mundo que vão felizes e serelepemente saltitando e cantando para o primeiro dia de aula.
 
- Há apenas dois professores na High School Brasil. Nenhum deles, no entanto, dá aula. Mas um único aluno tem que fazer prova de matemática.
 
- Se você é uma patricinha má, seu figurino invariavelmente deve ser cor-de-rosa e também deve incluir um 'look' inspirado em Sula Miranda – com direito a chapéu e tudo.
 
- Ex-atores globais, como a cigana Dara, que andam sumidos da televisão, matriculam seus filhos na High School Brasil.
 
- Se o seu namorado a deixou esperando na porta do cinema, para matar o tempo vá à loja de roupas que patrocina o filme e fique parada na porta. Quem sabe ele aparece.
 
- O protagonista do filme só usa camisetas com gola em formato V. Porém, essas não são nada boas para microfones de lapela. Dá para notar toda vez que ele está usando um.
 
- Todos os alunos de High School Brasil têm o mesmo nome dos atores que os interpretam. Deve ser para não causar confusão. Ou para confundir as fãs mesmo.
 
A lição mais vailosa, no entanto, foi: a teoria da relatividade. Perto de High School Musical – O desafio, Nine parece até um filme de Fellini.

De algum lugar, Fellini deve estar dando gargalhadas

Por Alysson Oliveira em 21/01/2010
Guido - 8 e meio
Guido... o verdadeiro, não aceite imitações, especialmente as musicais
 
De algum lugar, o grande Federico Fellini deve estar rindo, ou melhor, gargalhando, com mais uma tentativa (em vão) de emularem seu estilo, de ‘adaptarem’ a sua obra. O filme em questão é Nine (o título vai em inglês mesmo, o distribuidor não quis traduzir, talvez para evitar alguma confusão com a animação 9 – A salvação, lançada em cinemas no ano passado e já em DVD). Dirigido por Rob Marshall, coreógrafo que virou diretor com o premiado musical Chicago, o novo longa adapta (na falta de palavra melhor)  8 ½ - uma das maiores obras da carreira de Fellini, cheia de grandes obras.
 
Nine era, originalmente, um musical da Brodway, montado no começo dos anos de 1980 e remontado há alguns anos. Na versão original do palco, o protagonista, o cineasta Guido Contini era vivido por Raul Julia, o Gomez da série de filmes A Família Adams. O verdadeiro Guido (cujo sobrenome era Anselmi) foi imortalizado por Marcello Mastroianni. Nem entro no mérito se 8 ½ era biográfico ou não – até porque devia haver muito de Fellini no personagem, sim – mas é um dos melhores filmes sobre cineastas, ou então, sobre crise criativa e pessoal. Aqui, Guido é interpretado por Daniel Day-Lewis com um sotaque italiano pra lá de esquisito.
 
Nine deve estrear no Brasil na próxima semana e os produtores – especialmente a dupla de irmãos Harvey e Bob Weinstein – esperam/acreditam que o filme será um dos finalistas do Oscar nas principais categorias. É bem provável que concorra ao prêmio principal, afinal a tal Academia resolveu que a partir desse ano dez (!) títulos concorram ao prêmio de melhor filme. Como se em um ano Hollywood fosse capaz de produzir 10 filmes que merecessem algum prêmio, enfim...
 
Quando vi Nine ontem na sala de projeção no escritório da Sony não consegui gostar muito do filme – na verdade, exceto por Marion Cotillard, nada mais vale a pena. As músicas me irritaram.O engraçado é que hoje, ouvindo a trilha no computador, eu passei a gostar um pouco mais delas – ainda assim as acho muito fracas. É impossível comentar, no entanto, as coreografias. Marshall, sabe-se lá porquê, não deixa um plano durar mais do que 5 segundos. Eu fico me perguntando, pra que tanto trabalho em bolar coreografias, ensaiar, montar cenários, figurinos e rodar as tomadas se vai ser praticamente impossível ver qualquer coisa direito. Acho que Marshall já havia feito algo similar no premiado Chicago, mas lá, pelo menos, a história era carregada de um cinismo que aqui não há.
 
Marshall pode até tentar, mas nunca chegará perto do talento do coreógrafo e cineasta Bob Fosse- um dos criadores de Chicago e diretor de filmes como Cabaré. Esse, sim, foi capaz de adaptar para o cinema um musical baseado em Fellini (Charity, Meu Amor, baseado em Noites de Cabíria). Mas ele era um cara realmente talentoso – basta dar uma olhada em All That Jazz (disponível em DVD), um dos poucos musicais a ganhar uma Palma de Ouro em Cannes, além de outros prêmios, como Oscar de Melhor Filme.