Letras e fotogramas

“Benzinho”: Que horas ele volta?

Por Alysson Oliveira em 22/08/2018
Há uma cena, ainda no começo de Benzinho, que é bastante reveladora e sintetiza toda a ideia do filme. A família está jantando amontoada na pequena mesa, da pequena cozinha, mas todos felizes, até que a torneira que pinga começa a jorrar água. A matriarca, Irene (Karine Teles, numa interpretação mais que iluminada), tenta conter a água com as mãos, enquanto o marido, Klaus (Otávio Müller), vai fechar o registro. O restante do longa é essa cena simbolicamente se repetindo: Irene tentando (às vezes conseguindo, às vezes, não) conter jorros e impulsos dela e de pessoas ao seu redor. A água também se revela um elemento importante aqui: simbolicamente, quase sempre, está ligada à maternidade, uma representação do líquido amniótico. Exatamente sobre o que é (entre tantas coisas) o longa de Gustavo Pizzi: sobre a maternidade truncada.
 
A ruptura acontece quando o filho mais velho do casal, Fernando (Konstantinos Sarris), é convidado para jogar handebol na Alemanha. Uma alegria e uma tristeza, especialmente para a mãe. Como lidar com o ninho vazio? Na verdade, não totalmente vazio, pois ainda ficam os outros três filhos – interpretados por Luan Teles e pelos gêmeos Arthur Teles Pizzi e Francisco Teles Pizzi. Há também a irmã de Irene, Sonia (Adriana Esteves, igualmente numa interpretação inspirada), separando-se do marido abusivo (César Troncoso), que se instala na casa de Irene e Klaus.
 
A casa, aliás, é também outro elemento simbólico – está, literalmente, caindo aos pedaços. Numa das primeiras cenas, ainda antes da explosão do encanamento, a fechadura emperra e, durante o filme todo, os personagens entram e saem pela janela do quarto do casal. Ao lado dessa casa onde moram todos, há uma outra, no mesmo terreno. A construção foi interrompida pela falta de dinheiro, no aguardo da possibilidade de concluir a obra. Essa é uma família com sonhos – a finalização da casa nova é o principal deles – mas que, devido a condições sociais, não consegue realizá-los.
 
Nesse sentido, o filme, sagazmente, desfaz a ideia da meritocracia. Será que a vida de Irene não é melhor porque ela não se esforça bastante? Ela e a irmã vivem vendendo marmitas, lençóis e gelinho. Ela estuda para terminar o 2o grau, será que a vida vai melhorar? Klaus tem uma papelaria, onde também vende livros usados, e quer abrir uma livraria – a maior da cidade onde moram, Petrópolis. Se a ideologia da meritocracia funcionasse, todos estariam ricos, mas não estão. Dirigido por Pizzi, a partir de um roteiro escrito por ele e Teles, o filme investiga de maneira sutil processos interrompidos, num país onde tudo parece sempre ser adiado. É a casa que não dá para reformar e desmorona aos poucos; é a construção que não dá para acabar, porque não tem dinheiro. A saída seria o abandono, como Fernando, se mudando para outro país? O filme, obviamente, não traz respostas, mas acompanha uma classe média na corda bamba que, por muito tempo, acreditou que apenas se esforçar bastava.
 
A dupla Pizzi e Teles é sagaz o bastante para jogar o peso do filme no emocional dos seus personagens, sem que, assim, percebam estruturas sociais que os prendem nesse purgatório. O retrato dos personagens, que desvenda um cotidiano de maneira quase casual, é carinhoso e os laços de afeto sobrevivem em meio ao caos. Na verdade, eles sustentam as pessoas. E elas tentam não desabar quando esses laços são esticados até o limite – especificamente quando o filho for embora para a Alemanha.
 
Benzinho é um filme de delicadezas e sentimentos – o que não quer dizer que seja piegas, pelo contrário: sua honestidade é tão brutal que chega a doer. Impossível não chorar e rir (muitas vezes ao mesmo tempo). E traz uma das cenas mais fortes, e, ao mesmo tempo, mais simples que se viu numa tela de cinema esse ano: o ato de se despir de um simples casaco nunca gerou um efeito dramático tão tocante. 

“Dora” e a modernização conservadora

Por Alysson Oliveira em 16/08/2018
No último parágrafo de Dora sem véu, novo romance de Ronaldo Correia de Brito, mencionam-se um Iphone e um MacBook, duas lembranças da tecnologia de ponta diante do que se leu nas mais de 200 páginas anteriores do livro. A expressão “modernização conservadora” aparece uma vez ao longo da narrativa, e parece ser a chave de compreensão dessa história sobre uma socióloga em busca de sua avó que, por conta de um conselho do Padre Cícero, migrou para o Acre.
 
A avó é a Dora do título. A protagonista-narradora é Francisca, socióloga que viaja de caminhão, ao lado do marido, para Juazeiro, tentando recuperar a história da avó, uma dívida que contraiu com o pai, no leito de morte, que lhe contou como abandonou a mãe e três irmãos mais novos, indo para Recife tentar a vida, aos 12 anos. Esse foi um segredo que guardou a vida toda – um peso que o consumiu e transferiu para a filha.
 
As pessoas que passam de pai para filha, de marido para mulher, de homem para mulher são uma das questões centrais. O peso do patriarcado que não só draga mulheres, mas também as mata, é a força gravitacional que prende todas as personagens femininas aqui – sejam elas Francisca, Dora, ou jovem Daiane, que sobreviveu a um aborto e, agora forçada pela mãe, paga promessa vestida de noiva. Logo no inicio do romance, a protagonista trava um diálogo com a mãe da garota, quando ainda estão no caminhão rumo a Juazeiro, sobre o poder que as mulheres deve(riam) ter sobre seus corpos, o que inclui o direito de abortar. É um diálogo repleto de boas intenções, mas literariamente forçado dentro do livro, mais para fazer um argumento e, por isso, soa antinatural. Esse é, no entanto, o único senão dentro da narrativa, que logo encontra seu eixo.
 
Correia de Brito, que é médico, tem um olhar especial para os dramas humanos – tanto os físicos e emocionais, como os sociais. Há um capítulo que se passa num hospital, quando um personagem resgata sua temporada numa enfermaria, relatando diversos dramas, que é tocante em sua composição e forte em seu efeito. As doenças físicas, lembra o livro, estão, muitas vezes, ligadas a mazelas sociais, e só pioram com o descaso com a saúde pública. Ao contrário do diálogo sobre o direito ao aborto, aqui a crítica e denúncia sociais são feitas de maneira sutil e eficiente.
 
Ainda no plano da investigação social, o autor resgata uma história pouco conhecida – ou lembrada – os “campos de concentração”, mais conhecidos como “currais do governo”, no nordeste brasileiro, no século passado. Pobres, obviamente, em sua maioria migrantes, eram colocados num lugar fechado distante da visão dos ricos. Mais um sintoma da modernização conservadora, que dá a chance de modernização de maneira bastante desigual.
 
A visita de Francisca a Juazeiro prova, no entanto, que, como diria Roberto Schwarz, o tempo passou e não passou. Os paralelos entre os currais humanos e a peregrinação abarrotada de gente não são poucos. Dessa maneira, o livro investiga estruturas de poder que permanecem e se fortalecem com o tempo, à medida em que podem ser mantidas de maneiras sutis e ainda mais eficientes. Não passa batido também como essas estruturas podem se repetir de maneiras um tanto homólogas na periferia do capitalismo. “De tempos em tempos, as expressões "extermínio em massa" e "genocídio" reaparecem, como no caso de Alepo. Nos confrontos de brancos e negros nos Estados Unidos, na década de 60, alguém identificou uma tentativa de extermínio”, comenta um personagem.
 
A estrutura, no entanto, que permanece com mais força ao longo da história e da narrativa é a da dominação sobre as mulheres. Francisca, mais do que as outras, consegue, não sem muito esforço, uma certa ascensão social – ao contrário de todas as outras mulheres. “Por que matam mulheres em Pernambuco? Por que matam mulheres no mundo? Quem estabeleceu esse sacrifício?”, pergunta-se a narradora. Dora é um fantasma que persegue sua neta – mas, mais do que uma manifestação pessoal, é uma manifestação social, o retrato de mulheres quase sempre abandonadas pelos pais dos filhos que tentam levar uma vida digna à margem da margem.
 
Correia de Brito, que tem em sua bibliografia o potente Galileia, é um escritor que encontra poesia na dura aridez da vida do nordestino. Sua obra investiga as relações de classe na região, mostrando uma elite extremamente rica diante de uma vasta camada de pobres. Dora sem véu descortina os véus da herança escravocrata e colonial – o que já é um grande feito. 

“O animal cordial”: A hora da esfola

Por Alysson Oliveira em 07/08/2018
Há uma frase bastante famosa do crítico e professor Antonio Candido na qual ele comenta a tal cordialidade brasileira: “quando a Europa diz ‘mata’ o Brasil diz ‘esfola’”. Talvez a roteirista e diretora Gabriela Amaral Almeida não tivesse essa colocação em mente quando criou seu O animal cordial (talvez ela nem conheça a frase) mas é impossível não pensar como seu longa de estreia reverbera isso.
 
A premissa do filme é bastante simples e, por isso mesmo, repleta de possibilidades: restaurante de relativo luxo (mas em crise financeira) é tomado por uma dupla de ladrões pouco antes de fechar num dia de pouco movimento. A situação se torna ainda mais tensa quando se arma um jogo de disputa de pequenos e grandes poderes. A maneira como diretor arma seus personagens e a situação poderia facilmente cair numa caricatura de pessoas e da situação do Brasil contemporâneo, mas ela, segurando o longa com pulso firme, desvia de praticamente todas as armadilhas que arma para si e seu filme.
 
A primeira dessas armadilhas é um retrato de classe que O animal cordial desenha. Seus personagens poderiam ser única e exclusivamente representantes de estratos sociais. O dono Inácio (Murilo Benício) é a pequena burguesia com a corda no pescoço, mas mantendo a pose – espera que uma tal matéria que sairá numa revista trará mais movimento. Um casal (Jiddu Pinheiro e Camila Morgado) representa a elite, escolhendo vinho francês e prato chique, e esnobando a pronúncia da garçonete (Luciana Paes). Por fim, a esfera da esfola mesmo, além da garçonete, o chef (Irandhir Santos) e a sua dupla de ajudantes (Thais Aguiar e Eduardo Gomes). Por fim, um cliente misterioso (Ernani Moraes), que, a certa altura, representará o poder institucionalizado que fica, literalmente, de mãos atadas.
 
Se há tudo isso no filme, Gabriela não cai nos clichês fácies que cada uma dessas figuras poderia estampar – especialmente porque dota cada um de nuances, e o pior deles vêm à tona quando o restaurante é invadido pelos dois ladrões (Humberto Carrão e Diego Avelino). O que se sucede, então, são diferentes níveis e maneiras de opressão. A madame (Morgado) que é ridicularizada pelo namorado (Pinheiro) não pensa duas vezes antes de ridicularizar a garçonete, que também faz fofoca “das pessoas da cozinha” para o patrão, por quem parece ter uma paixão platônica. Aliança de classe seria uma saída para derrotar os bandidos – mas quem está disposto a ceder? Nem que seja o mínimo da dignidade que ainda resta. Ninguém – especialmente como confiar em alguém que já o hostilizou?
 
A dinâmica que se estabelece é a da negociação de poderes – e sempre pode mais quem tem uma arma na mão. Os ladrões tem, e o patrão também. A sedução também pode ser uma arma, mas o sexo, aqui, não tem nada de romântico ou biológico – é disputa de poder mesmo. A cena é impressionante e, obviamente propositalmente, desconfortável. O que se vê na tela é quase um ritual no qual alguém tenta tomar o poder do outro por vias físicas.
 
Até onde vai a cordialidade do brasileiro? Não muito longe, como bem sabemos. Todo mundo surta nesse filme, exceto o chef, que funciona como um centro de consciência onde tudo gravita. Ele tem consciência de classe e de gênero – talvez consciência até demais, por isso é, de certa forma, o personagem mais contido do filme. Cabe a ele dizer: “não faz isso”, tentando recobrar a razão dos personagens um a um. Ele não é o ponto mais forte do filme, e, nem sempre funciona, mas a interpretação do sempre-inspirado Irandhir Santos contorna boa parte dos problemas.
 
Premiada como curtametragista, a diretora não se acanha aqui com o uso do sangue. Mas o sangue que escorre e suja a quase tudo e todos em O animal cordial não é o mesmo, por exemplo, de, digamos, Pulp Fiction ou Jogos Mortais. Não tem nada de pop, é um sangue de uma cisão social de um país consumido por esta. É curioso que andem chamando o filme de terror, quando está mais para um drama ou mesmo uma comédia (de humor negro) satírica, na qual o objeto da sátira é o atual estado da sociedade brasileira. Só jorrando sangue pra resolver mesmo? Ou nem assim?
 
Visceral, como tantos outros adjetivos, é uma palavra que perdeu sua força. Tudo hoje é forte, visceral. Mas O animal cordial é visceral – se não de uma forma, de outra. Gabriela não tem pudores em mostrar entranhas sejam dos seres humanos, de animais ou da sociedade – sejam entranhas reais ou metafóricas.

Um filme chamado ‘Wanda’

Por Alysson Oliveira em 05/08/2018
O ano era 1970, a Segunda Onda do feminismo era, entre tantas coisas, uma luta contra a domesticidade da mulher. O Pessoal é politico, de Carol Hanish, havia sido publicado no ano anterior. Em Wanda, único longa que a atriz Barbara Loden escreveu e dirigiu, um cinema de guerrilha, e, ao mostrar a vida pessoal de uma mulher solitária e sem opções, é também relevantemente político.
 
Loden, que era uma atriz relativamente famosa na Broadway e em Hollywood, era casada com Elia Kazan, na época, e esteve no Clamor do Sexo, como a irmã o personagem de Warren Beatty. Mas ela estava cansada dos papeis de bombshell ou femme fatale, e queria interpretar uma mulher de verdade. A solução foi fazer o seu próprio filme. O resultado é um clássico feminista, que, ao lado de Jeanne Dielmann (feito alguns anos mais tarde) reina absoluto como o grande filme do gênero.
 
Wanda (Loden) é uma mulher solitária que vive num estado de depressão numa região mineira onde todos trabalham nas minas, sem qualquer outra opção. Ela é casada e tem dois filhos, mas não tem vontade de tirar os bobs do cabelo ou sair do sofá. Seu marido pede divórcio, ela aceita. Quando ele alega que ela é negligente com os filhos, ela não contesta; quando o juiz da a guarda das crianças ao marido, ela não faz nada.
 
Rodado em 16mm, com uma fotografia granulada de Nicholas T. Proferes, que também assina a montagem, mais do que um filme sobre a alienação involuntária de uma mulher no pós-Guerra, Wanda é um filme sobre uma pessoa que tenta se libertar das amarras que lhe foram impostas. Mas, como ela nunca teve qualquer experiência de vida, acaba se envolvendo com as pessoas erradas. Na verdade, “pessoas erradas” é uma questão de ponto de vista, pois para ela, o ladrão Norman Dennis (Michael Higgins) é qualquer coisa menos errado. Ela é incapaz de perceber o quão abusivo o sujeito é.
 
O cinema de Loden se aproxima do naturalismo de Cassavetes de Sombras e um registro desesperadamente contido de uma vida que se nulifica toda vez que tenta se libertar. É melancolia de ponta a ponta, representada com intensidade por Loden, tanto como diretora como quanto na frente da câmera. Marguerite Duras chamou o filme de “um milagre”, e disse perceber “uma continuidade distante e permanente entre Barbara Loden e Wanda”.
 
Wanda, apesar de premiado no Festival de Veneza de 1970, foi discretamente ignorado nos EUA – em no restante do mundo – mas acaba de ser relançado lá em cópia restaurada. No Brasil, está disponível em DVD da Lume Filmes. Não existem muitas menções ao filme ao longo dos quase 50 anos que se passaram. Rachel Kushner cita-o de maneira breve em seu romance The Flamethrowers [Os lança-chamas, no Brasil], mas isso é virtualmente tudo, embora, nos últimos anos o filme tenha começado a ganhar um reconhecimento.
 
Talvez, como diz o site da Criterion Films: “O público americano não estava preparado para Wanda, quando estreou.” Não é de se estranhar mesmo. O filme explora como o Sonho americano é negado sistematicamente às mulheres. Se ele é uma grande mentira, ao menos os homens, podiam a viver. As mulheres nem isso. O estudo de personagem que domina a primeira parte do filme – desde a Pensilvânia rural até a protagonista viver uma vida de pequenos roubos com Dennis (em que ela vê, algum propósito na vida – ao contrário de seu marido) – é cru e certeiro.
 
Ao final, Wanda questiona sobre as possibilidades que essa mulher tem ou teria em sua vida. A aventura com o ladrão, que culmina num desfecho sangrento, mudou sua vida? Existe alguma chance de transformação na vida dela? Ou estará fadada à Pensilvânia melancólica, barrenta e granulada onde sempre morou? Loden, sagazmente, não dá respostas, mas o olhar vazio de sua personagem numa imagem que persiste nos créditos finais abre possibilidades: um vazio que a tudo domina ou um vazio pronto para ser preenchido novamente?   

"A sociedade do espetáculo": O tempo que passou e não passou

Por Alysson Oliveira em 20/07/2018
Publicado há pouco mais de meio século, A sociedade do espetáculo, de Guy Debord (com tradução de Estela dos Santos Abreu, pela editora Contracampo) continua tão relevante e incisivo quanto quando foi lançado. A questão é que tudo aquilo que o pensador teorizou em seu livro foi elevado à nível exponencial nas últimas décadas do século XX, e hoje é escancarada e assustadoramente o mundo em que vivemos.
 
O livro chega a nós, do século XXI, entre algo profético e alarmista. As constatações e comentários de Debord chegam a assustar. Parafraseando a abertura de O capital, ele conclui o primeiro parágrafo com: “Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. De 1967 para cá, isso só pirou, numa sociedade globalizada que tem a internet como mediadora de relações entre todos os cantos do mundo. É o espetáculo atingindo níveis assustadores.
 
Em menos de 150 páginas, Debord transita desde a espetacularização da vida até a materialização da ideologia de maneira clara na sociedade, investigando entre isso modos de produção alternativos ao capitalismo – com suas qualidades e limitações –, a total cooptação do tempo e da história pelo capital, e saindo com uma ótima definição de ideologia: “A ideologia é a base do pensamento de uma sociedade de classes, no curso conflitante da história. Os fatos ideológicos nunca foram simples quimera, mas a consciência deformada da realidade[.]” Debord também não poupa a Velha Esquerda (“O fim sangrento das ilusões democráticas do movimento operário fez do mundo inteiro uma Rússia.”) e parte da Nova Esquerda.
 
Ler esse livro é tanto um exercício para se abrir os olhos como também uma acumulação de melancolias e figuração de frustrações – especialmente quando nos damos conta de que nessas cinco décadas muito pouco (ou quase nada) mudou, estruturalmente, e todas as tentativas de resistência ou busca de novos caminhos foram podadas ou fracassaram. Em uma nota de 1978, sobre seu texto “Cultura e Política 1964-1969” (escrito entre 1969 e 1970), Roberto Schwarz termina dizendo: “O leitor verá que o tempo passou e não passou.” Impossível ler A sociedade do espetáculo, e não se lembrar disso. 

O romance Oeste, de Carys Davies

Por Alysson Oliveira em 18/07/2018
Muito antes dos Pet Shop Boys cantarem Go West, acontecia a expansão para o oeste dos Estados Unidos que é um momento tão marcante na história da então jovem nação que rendeu livros e filmes, resultando num gênero chamado Western – perene na literatura e cinema. A inglesa Carys Davies parte da estrutura de um Western regular para contar uma história que transita entre a comédia e a tragédia anunciada, entre o terno e o assustador.
 
O romance é fino, pouco mais de 100 páginas, mas a profundidade emocional e histórica que autora alcança é gigantesca. Os protagonistas são um viúvo inglês e sua filha de 10 anos de idade. Na Pennsylvania de 1815, ele a deixa com a tia e ruma para o oeste em busca de um animal gigante, cuja carcaça foi encontrada Kentucky, lugar que reserva territórios inexplorados que guardam possíveis riquezas além de outros animais de porte gigantesco.
 
A garota, Bess, tem certeza de que seu pai, Cy Bellmann, irá voltar bem sucedido; a irmã dele, Julie, tem certeza de que a expedição será um fracasso, e ele nem voltará. A narrativa transita, então, entre esses dois pontos de vista e personagens: pai e filha. Aquele que vai, e aquela que fica, e as transformações sofridas pelos os cenários que ambos ocupam. O explorador ganha a companhia de um nativo, chamado pelo nome de Old Woman from a Distance, mas a comunicação é praticamente inexistente – nenhum fala a língua do outro.
 
O tempo passa e Bess amadurece de maneira um tanto forçada. A tia é negligente – passa mais tempo na igreja –, e um vizinho mais velho faz investidas na menina. Bellmann manda cartas para a filha, por meio de outros viajantes que encontra pelo caminho, e cada uma das mensagens se perde de maneira diferente. Ela nunca sabe onde ele está, nem se está vivo.
 
Davies escreve com precisão. Seu livro é curto, e nenhuma palavra é usada em vão. É como se houvesse a urgência da expansão, da viagem, do descobrimento. A trama começa de maneira abrupta, mas em poucos parágrafos é impossível não estar imerso na prosa poética da autora.
 
Ao fazer a cartografia da viagem de Bellmann, Oeste investiga também a cartografia emocional e mental de seus personagens – aqueles que partem e os que ficam, cada um com suas aflições pessoais e pelos outros. O desenho psicológico, especialmente do viúvo e sua filha, é rico em detalhes, assim como o de Old Woman, cuja percepção de mundo começa a se moldar a partir de um novo elemento que consome sua identidade, pela qual ela forçosamente luta.
 
Enquanto Bellmann viaja, os nativos também são forçadamente deslocados de seus territórios – expulsos na medida em que o homem branco avança levando seu modo de vida. Davies investiga o alto preço da civilização – diante das vantagens pouco numerosas, no caso. O espírito americano, com seu individualismo meritocrático, o Excepcionalismo Americano, impõe um modo de vida que acarreta na destruição de outras culturas. Nesse sentido, a autora, ao falar do passado, joga uma luz no presente, um momento em que esse expansionismo adquire escalas globais. 

Com armas sonolentas, romance de Carola Saavedra

Por Alysson Oliveira em 28/06/2018
O quinto romance de Carola Saavedra começa de forma assertiva: “Sempre lhe pareceu que havia uma dissonância entre o que deseja e o que realmente queria.” Isso se refere a uma das protagonistas do livro, a atriz Anna Marianni, mas poderia ser a qualquer figura que habita Com armas sonolentas. As personagens (e a maioria são mulheres) estão presas numa fissura entre o que desejam de verdade e o que querem (o que talvez seja melhor para elas). Conseguir o que quer pode, paradoxalmente, não ser algo bom.
 
As pessoas dizem para Anna que ela é talentosa, mas falta-lhe sorte. Trabalha numa loja chique de roupas, faz pequenas participações em peças pequenas, e até uma ponta num filme (“a próxima Cacilda Becker”, diz seu agente e amigo). A sorte lhe sorri quando consegue entrar numa festa elegante de um festival de cinema no Rio, e conhece um cineasta alemão, com quem, pouco tempo depois está se casando e mudando apara a Alemanha, apesar de desconhecer o idioma. Na Europa, as frustrações se acumulam, até que uma maternidade inesperada é a gota d’água para a vida de Anna desabar.
 
Maternidade é o tema que atravessa a narrativa, e une as personagens num fio delicado de encontros e desencontros. A segunda parte é narrada do por Maike, jovem alemã, que no primeiro dia de faculdade decide repentinamente que irá estudar português. Ela não é feliz em sua vida burguesa, repleta de conforto e amor (um tanto frio e metódico) dos pais. A terceira personagem-central não tem nome, é uma moça de 14 anos que é mandada para o Rio de Janeiro pela mãe para ser empregada de uma família de classe-média em Copacabana.
 
Na medida em que as tramas avançam, não é muito difícil perceber o que unem essas mulheres. O suspense não é o propósito aqui, mas o que interessa a Saavedra é a investigação da causalidade e casualidade que aproximam e afastam as pessoas. Conforme o livro progride também, um forte elemento místico começa vir à tona. Nada soa gratuito, e dentro da lógica interna, tudo faz sentido. Alguns momentos, mais perto do final, lembram David Lynch. É preciso embarcar no delírio de Com armas sonolentas. Mas vale o esforço.
 
Na obra da escritora, o não pertencimento e laços inesperados são recorrentes. Desde seu romance de estreia, Toda Terça, até chegar aqui – que traz uma autora com maturidade e sofisticação. Outra elemento importante na obra de Saavedra: o registro como composição de uma memória. Mas, esta, é claro, é uma narrativa, e como tal é uma construção – seja consciente ou inconscientemente, escolhas são feitas, e coisas (às vezes importantes) são deixadas de fora. Aqui, um personagem compõe um livro – na verdade reescreve um outro que encontro. É um lance sutil de metaficção que não deixa passar batido o sobrenome que a escritora compartilha com Miguel de Cervantes (Saavedra).
 
Se há estranhamentos lynchianos, porém, uma outra força cinematográfica é muito mais presente aqui, para mim. Trata-se de Pedro Almodóvar – não o Almodóvar dos anos 80 e 90, louco, colorido, cínico; mas o Almodóvar dos últimos filmes, melancólico e profundo esmiuçando relações entre mães e filhas (penso mesmo em Volver e Julieta). Saavedra pergunta qual o papel da mulher no presente – na verdade, em diversos presentes. E nessa investigação a classe social e a raça são fatores que pesam. Isso resulta numa obra de profundo questionamento sobre o presente e os avanços e conquista das mulheres nas últimas décadas.
 
O título ver de um verso da sor Juana Inês de la Cruz, religiosa e poeta mexicano-espanhola, também considerada uma das primeiras feministas do continente. O verso “com as armas sonolentas” (do poema “Primeiro sueño”, de 1692) parece traduzir uma ideia de despertar, de um momento de início de luta – as armas ainda estão sonolentas, mas a guerra só está começando. E esse pode ser o destino das personagens aqui: lutar suas próprias guerras - mesmo que não desejem, nem queiram. Não há escapatória. 

Romance "Nix" investiga passado e presente dos EUA

Por Alysson Oliveira em 01/06/2018

Não é preciso muito das quase 700 páginas de Nix, do estreante Nathan Hill, para perceber que se trata de um grande romance – não só pela quantidade de páginas. Há de tudo entre uma capa e outra – desde protestos políticos (fortes e outros tolos), vício em realidade virtual, mercado editorial até chegar em consumismo. É claro que entre uma coisa e outra o autor joga umas obviedades, mas ele faz isso com tanta graça e humor que é difícil não fingir que é novidade.

Nix são, segundo o romance, no folclore Nórdico espíritos que tomam formas distintas e perseguem pessoas por toda a vida. Também são qualquer coisa que você tenha amado e um dia desaparece partindo seu coração. Há os dois tipos na narrativa – ao menos imaginados pelos personagens.

O livro começa com um pequeno incidente que ganha grandes proporções. Uma senhora, veterana dos anos de 1960 (como saberemos depois), joga uma bola de papel na cabeça de um governador, e candidato a candidato à presidência dos EUA. O gesto – talvez pessoal – ganha tons políticos e um grande processo é instaurado, e seu passado destrocado na mídia: ex-hippie, presa por prostituição, e mãe que abandonou o filho em 1988. Este agora é um professor universitário frustrado, que passa horas jogando na internet, e tem mais amigos virtuais do que reais. No trabalho enfrenta a perseguição de uma aluna, que tenta reverter o caso quando ela é acusada de plágio, acusando o professor de abuso emocional.

Hill tem a habilidade de construir dois momentos históricos com tintas precisas, e fazer um trajeto de como os ideias dos anos de 1960 se transformaram nisso em que vivemos. Seu percurso é seguro, carregado na ideia do pop, mas extremamente político – especialmente quando evoca os protestos de Chicago daquela época (também presentes no them, de Joyce Carol Oates, entre outros). Nesse sentindo, The Hill é um romance histórico, sobre a história já concluída (o passado) e aquela que está acontecendo (o presente). O presente é o de 2011, do Occupy Wall Street (há uma cena excelentemente cômica envolvendo um protesto).

Quando Faye reaparece na vida de seu filho, Samuel Andresen-Anderson, ele não há vê há mais de duas décadas, e está sendo cobrado por seu editor por um romance, pelo qual foi pago (comprou uma casa com dinheiro), e até hoje não entregou o livro. Para não perder todo o pouco que tem, ele aceita fazer uma biografia da mãe (o editor avisa, só precisa escrever ¼ o restante já está pronto por uma equipe de ghostwriters, e deverá ser lançado antes da campanha presidencial, para ajudar ao governador), na qual deverá expor toda a “verdade” sobre sua mãe – em outras palavras, destruí-la, porque nada vende mais do que lavagem de roupa suja.

The Nix dá tempo o suficiente para construir o presente e os passados (a infância de Samuel e a juventude de Faye) , e também seus personagens – desde a dupla de mãe e filho, até coadjuvantes, como o colega de Samuel viciado em um jogo virtual que há tempos não sai de casa, e isso tem um desenrolar catastrófico e cômico quando ele decide parar.

A contraposição entre dois momentos do passado (final dos anos de 1960 e dos anos de 1980 e presente) acompanha o movimento da história e a forma como essa interfere na vida das personagens e as molda. Hill desponta como um escritor a se prestar atenção dono de um talento ímpar, e para quem sempre está a procura do Grande Romance Americano, Nix é mais um forte candidato.

“A livraria”: Tentando quebrar o círculo de poder com os livros

Por Alysson Oliveira em 01/03/2018
Florence Green é uma viúva que, no final dos anos de 1950, resolve abrir uma livraria numa pequena cidade costeira da Inglaterra, chamada Hardborough. Para isso, compra um velho casarão decrépito e supostamente assombrado, reformando-o um pouco, e abre sua loja. Penelope Fitzgerald compõe a história de sua protagonista e sua aventura de maneira melancólica, com uma prosa econômica (sem ser telegráfica) que remete ao estilo de uma literatura inglesa antiga.
 
É na economia da descrição de personagens e ação que a autora encontra a força de seu A livraria. É como se a história de Florence fosse tão contida que não demandasse muitas palavras, o que não quer dizer que o romance seja contido. Fitzgerald cria um mundo a partir do microcosmos da vila – ou aquilo que Raymond Williams chama de “comunidade cognoscível”.
 
Florence é a estrangeira ali, mudou-se há cerca de uma década, depois da morte do marido, e com experiência em uma livraria grande. Seu propósito, no entanto, bate de frente com uma mulher rica local, Violet Gamart, que pretendia convencer a prefeitura a abrir um Centro de Artes no casarão. O embate entre as duas é discreto e construído sob uma tensão escondida em falsas gentilezas.
 
Publicado originalmente em 1978, A livraria ressoa especialmente hoje, num momento de obscurantismo ideológico e caça às bruxas, quando a cultura tem se tornado cada vez mais alvo de censura. Os habitantes de Hardborough não liam porque não havia uma livraria (ou biblioteca) na cidade, ou porque não liam não tinha uma livraria lá? Florence ousa quebrar esse círculo vicioso que compõe parte da ignorância que garante a manutenção do poder. O preço, no entanto, pode ser alto.
 
O romance foi adaptado para o cinema pela espanhola Isabel Coixet e ganhou diversos prêmios Goya, entre eles, melhor filme, diretor e roteiro adaptado.

O grande épico russo

Por Alysson Oliveira em 02/01/2018
Poucos filmes realmente merecem levar o adjetivo épico – uma palavra tão banalizada no presente. Talvez, entrem na lista O nascimento de uma nação, ... E o vento levou, Ben-hur, Spartacus, Doutor Jivago, e, aquele a que Roger Ebert chamou de “o épico definitivo de todos os tempos”, a versão russa de Guerra e Paz, de Sergey Bondarchuk. Foi preciso um filme de mais de 7 horas – dividido em 4 partes, e pode ser visto como uma série – para captar toda a grandiosidade do romance de Liev Tolstói. O filme foi está disponível em DVD no Brasil.
 
Com orçamento e tempo (foi rodado ao longo de 7 anos), Bondarchuk faz uma obra fiel ao espírito de Tosltói, mas mais do que isso: fiel ao espírito russo do século XIX, que, embora as pessoas, é claro, não soubessem estavam com os dias contados. O diretor - que assina o roteiro com Vasiliy Solovyov – mais do que transitar entre a Guerra e a Paz (campos de batalha x intrigas amorosas em salão de baile) transita entre o pessoal e o político, o movimento da história que invade a vida das pessoas – é bem verdade que essas pessoas aqui são representantes de uma aristocracia, mas, ainda assim...
 
O próprio Bondarchuk assume o personagem mais complexo e complicado aqui, Pierre Bezukhov, um sujeito sem nada de especial, praticamente um covarde que por conta de circunstancias adquire um senso de nobreza de espírito que não se esperava dele. Lyudmila Saveleva é Natasha Rostova, provavelmente a personagem mais graciosamente irritante da literatura, e Vyacheslav Tikhonov, o Princípe Andrei Bolkonsky. Cada uma dessas figuras está ao centro das partes do filme – sendo que um dos segmentos é devotado ao ano de 1812, com a invasão de Napoleão à Rússia.
 
E, num filme tão marcado por personagens masculinos fortes e cenas de guerra imponentes, os mais belos momentos são protagonizados por Lyudmila – que tem formação de bailarina, e não de atriz, e as duas cenas, envolvem de certa forma, a dança. A primeira é sua entrada num grande baile, Natasha não mais que uma adolescente de olhos arregalados e encantada com todas as possibilidades (e erros, especialmente) que a vida tem a lhe oferecer. A segunda, numa hospedaria bastante rudimentar, onde ela faz uma dança folclórica.