Letras e fotogramas

Clamor do Sexo, mais de meio século depois

Por Alysson Oliveira em 13/03/2017
Ainda nos primeiros minutos de SPLENDOR IN THE GRASS [no Brasil, Clamor do Sexo (!!!)], Bud Stamper (Warren Beatty, em seu primeiro trabalho no cinema) e Deanie (Natalie Wood, indicada ao Oscar por esse filme) estão se beijando na sala da casa dela, quando ele a empurra para o chão, deixando-a ajoelhada diante dele, e diz que será sua escrava. “Era apenas uma brincadeira”, ele explica, quando ela desesperada, está jogada no chão chorando. “Para mim, não é uma brincadeira”, explica.
 
Essa cena talvez sintetize todo o drama do casal: a visão que cada um deles tem sobre o amor. Há também uma tensão de classe escancarada. O pai dele (Pat Hingle) não se importa que o filho namore a filha do quitandeiro, mas ela não é uma moça para casar. Ele é um magnata do petróleo, e o ano é 1928, e sabemos que em breve as coisas mudarão.
 
Dirigido por Elia Kazan, a partir do roteiro de William Inge, o filme é um melodrama sobre a decepção de um amor jovem, mas também sobre um tensão de classe e a posição da mulher. Há dois tipos de personagem femininas aqui: pra casar (Deanie) e a “liberada” (pros padrões dos anos de 1920), na figura de Ginny (Barbara Loden), irmã de Bud, que o pai prende em casa, porque se envolveu com um com um homem casado, entre outras coisas. Há também as mães, e as amigas de escola de Deanie – uma delas interpretada pela grande Sandy Dennis em começo de carreira – que também vai se encaixar nos dois polos.
 
O fato de que Deanie simplesmente enlouquece quando Bud a abandona – a bem da verdade, quando ela tenta se matar ele quer se casar com ela, mas o pai do rapaz tira isso da cabeça dele – é também sintomático. O que faria uma mulher naquela época sem um homem ao seu lado? A “loucura” da personagem, sua paixão desenfreada, seu desespero parecem mais do que apenas amor – são o desespero de uma mulher condenada à solidão numa época em que isso era sinônimo de fracasso.
 
Sofrer por amor, no cinema, geralmente acaba em algo patético – talvez porque na vida real também o seja, embora haja uma certa dignidade – e poucos filme são capazes de lidar com isso com tanta verdade como Splendor in the grass. As duas grandes cenas de “ataque dos nervos” da personagem de Natalie Wood são dolorosas de se ver. Resumem em si, quase que de forma inconsciente, o medo do que o futuro lhe reserva sem Bud ao seu lado. E o futuro não é nada animador. Depois desses dois episódios, uma internação numa clínica de repouso, até achar o marido ideal. Mas o que é mais tocante são a dor e a melancolia que a acompanharão para sempre.
 
O que talvez evitasse tudo isso é se Bud e Deanie se jogassem de vez um nos braços do outro, e vivessem esse amor em toda plenitude – o que incluiria aplacar o clamor do sexo que eles sentem. Mas são os anos de 1920. O filme, de 1961, no entanto, advoga pelo amor livre que seria o clamor de sua década. Ainda pensando em anos, curiosamente, o ataque emocional da personagem praticamente coincide com a quebra da bolsa em 1929, transformando a metade final do longa em um paralelo entra a derrocada de um país, e a destruição psíquica da qual a personagem jamais se recuperará.

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