Letras e fotogramas

Cartografia do medo no romance A imensidão íntima dos carneiros

Por Alysson Oliveira em 12/06/2017
 
 
A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, romance de Marcelo Maluf, começa com a seguinte frase: “O medo estava no princípio de tudo”. Mas, ao longo de sua narrativa, o medo não está apenas no princípio, não. O medo é uma força que impulsiona as personagens e a trama, que transita entre o Líbano e o Brasil.
 
Não apenas pela ligação com o Líbano, mas há algo que conecta o livro de Maluf com Milton Hatoum e Raduam Nassar. Talvez esteja mais no jeito de contar uma história, num fluxo regado a som e fúria, mas também sabores e cores, e a dinastia de uma família que atravessa décadas e continentes. Uma espécie de realismo mágico permite que o Marcelo, personagem contemporâneo e narrador, acompanhe seu avô, Assaad, resgatando sua história. Os dois nunca se conheceram, o jovem nasceu em 1974, quando o avô já havia morrido.
 
Há também animais falantes, um carneiro sábio chamado Mustafa, que já foi humano e teve uma família, e, conforme diz a Assaad: “Já desejei o mundo. Vivi como os miseráveis e como os reis. E morri cercado por ladrões e inimigos. Sempre tive medo. [...] A morte pode estar em qualquer lugar, Assaad.”
 
A transição entre o tom realista e o onírico é sutil, e, ao mesmo tempo, poderosa, pois quando elementos do real já não dão mais conta de captar a realidade, a fantasia se embrenha nas fissuras e se expande. Só ela é capaz de acompanhar, por décadas e gerações, o medo que move ou estanca os personagens de Maluf, conforme o último parágrafo do primeiro capítulo: “E é da morte que todos de nossa família têm medo desde sempre. Temos o medo e por isso preservamos tanto nossas vidas a ponto de não vivermos tudo o que poderíamos ter vivido.”

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