Letras e fotogramas

A perda da inocência

Por Alysson Oliveira em 03/07/2017


¿Quién puede matar a un niño?, pergunta o título original de OS MENINOS, do espanhol Narciso Ibáñez Serrador, e o filme não enrola para dar a resposta. O longa começa com imagens de arquivos históricos de momentos como holocausto nazista, guerra indo-paquistanês, guerra do Vietnã etc, e estampando a tela com o número de crianças mortas em cada um desses eventos. São imagens em preto e branco devastadoras, enquanto, ao fundo, um desafinado coral de crianças canta uma cantiga ingênua que, se não é a canção de ninar de O Bebê de Rosemary, é bem parecida.

Ibáñez Serrador, adaptando o romance de Juan José Plans, cria um conto gótico solar (olha o paradoxo!) numa ilha ibérica onde as crianças mataram praticamente todos os adultos. Do que se trata? Vingança de classe? Anos de descaso e opressão com a vida infantil criou uma espécie de consciência de classe neles que se uniram para revidar e salvar suas vidas? Um casal de ingleses – Tom (Lewis Fiander) e Evelyn (Prunella Ransome, que, em certa medida, lembra Mia Farrow – vai visitar a ilha, onde ele morou por algum tempo anos atrás. Eles encontram um cenário desolador – mas nem se dão conta disso, acham que todo mundo está do outro lado da ilha, em alguma fiesta. ¡Santa ingenuidad!

O calor é constante e opressor, mas logo encontram refúgio, num bar onde a assadeira giratória de frango está ligada e rodando há tempos, e os frangos torrados. O que está acontecendo nessa ilha? O que acontece quando o ícone da ingenuidade perde a sua inocência? O filme sagazmente poupa de mostrar o que e como aconteceu. Quando chegamos à ilha, com os ingleses, a matança já está acontecendo.

O filme, lançado num DVD com imagem excelente pela Versátil – no pack de Terror 3 -, é, obviamente, desconfortável – e não teria como ser diferente, sendo tão explícito como é. Talvez por isso não seja tão conhecido. Crianças com armas, crianças ao lado de um mulher morta e nua, crianças matando... não é o tipo de tema que costuma passar na televisão. O desconforto é ainda maior porque não há nenhuma “desculpa” sobrenatural – como uma possessão demoníaca – para explicar o comportamento dos niños e niñas. A violência e maldade são mostradas da forma mais naturalista possível.

Lançado em meados dos anos de 1970, Os Meninos é um questionamento sobre a erupção da violência. E também sobre a inerência do mal – trazendo aquele velho questionamento o ser humano pode nascer “do bem ou mal” ou a sociedade o corrompe? Dado o prólogo do filme, a história terá um papel fundamental para moldar essa subjetividade. Ibáñez Serrador não divide as pessoas em exclusivamente boas ou más, porém destaca as nuances que se esmaecem diante de momentos de horror histórico/social.



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