Letras e fotogramas

"Karen", um romance noir bucólico encoberto de neblina

Por Alysson Oliveira em 10/12/2018
A cascata soturna da capa da edição brasileira de Karen é uma imagem relativamente recorrente ao longo da novela da portuguesa Ana Teresa Pereira, primeira mulher a ganhar o Prêmio Oceanos, em 2017, por essa obra. A narradora pode ou não ser a mulher que dá o título ao livro. Talvez ela não seja Karen, mas uma outra pessoa envolvida numa trama ardilosa, tanto que a certa altura, confessa “[às] vezes, tinha pesadelos, todos [moradores da aldeia vizinha] sabiam quem eu era de facto, todos faziam parte de uma conspiração.”
 
A narrativa já começa repleta de referências cinematográficas, evocando o preto-e-branco de Noites brancas, de Visconti, e o colorido extravagante em Tecnicolor de Narcisos negros, de Powel & Pressburguer. São nesses dois extremos – pendendo mais para o primeiro – que a trama irá transitar. Karen é uma personagem de noir, sua dúvida de identidade persiste. Ela supostamente sofreu uma queda durante um passeio na cascata, e foi tomada por amnésia – é quase um motivo de telenovela. Ela mora numa casa de campo com o marido, o escritor Alan (com sobrenome mas sem dinheiro), e uma governanta, Emily. Todos podem estar envolvidos num teatro fazendo a narradora acreditar que é Karen, pois, afinal, esta ao completar 25 anos (dali a poucas semanas depois do acidente) receberá uma herança.
 
A literatura noir é recorrente nas páginas de Pereira também – tanto na forma de narrar, um tanto oblíqua, mas estilisticamente trabalhada. A narradora não é nada confiável – nem para ela mesma. Seria esse um noir chic? Cornell Woolrich é citado mais de uma vez em seu pseudônimo William Irish. E a evocação das paisagens e da casa beiram o gótico:
 
“A vereda agora descia, e tornava-se mais íngreme em cada curva, havia degraus talhados na rocha, e um vago corrimão de madeira que surgia de vez em quando. O bosque estava mergulhado em si mesmo, senti-me que éramos intrusos ao atravessarmos.”
 
A protagonista se vê enredada entre a memória e a ficção, e, não menos de uma vez diz, em inglês mesmo, “Imagining... no, remenbering.” O que lhe é mais confortável? A identidade que lhe impõem de Karen ou aquela da qual supõe se lembrar? É nessa lacuna que se dá a sua jornada interior. Encontrar uma simbiose entre a mulher que fora e aquela na qual se transformou depois do casamento talvez seja sua necessidade.
 
A graça na obra está, então, na combinação entra a chamada alta literatura, a investigação psicológica à Henry James, aliada às formas consideradas mais populares, como o noir, o pulp. O resultado que Pereira mira e alcança é cinematográfico. Não apenas pelas referencias que abundam – Rebecca, de Hitchcock (a partir do romance de Du Maurier) é sorrateiramente evocado o tempo todo – mas como o enredo se apresenta. Karen é uma novela implorando para ser adaptada para o cinema. 

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança