Entrevistas

Nelson Pereira dos Santos disseca crise política em “Brasília 18%”

Por Neusa Barbosa

Publicado em 20/04/06 às 15h24

Depois de dez anos dedicado a documentários como Raízes do Brasil, o cineasta Nelson Pereira dos Santos volta à ficção com Brasília 18%. Este que é o 18º filme de sua carreira chega às telas em estréia nacional no dia 21 de abril – aniversário de Brasília - sem precisar de apresentações. O enredo é o que o título sugere: uma trama sobre mentiras e corrupção ambientada na capital da República. O protagonista é um médico legista (Carlos Alberto Riccelli) que vem dos EUA fazer a autópsia de um corpo que pode pertencer a uma assessora parlamentar desaparecida.

Embora o tema tenha semelhanças com alguns dos escândalos envolvendo o atual governo, o cineasta esclarece, em entrevista exclusiva no Hotel Caesar Business, em São Paulo, que sua fonte de inspiração veio de uma administração anterior, a de Fernando Collor de Mello. “Eu estava em Brasília em 1993, terminando meu filme A Terceira Margem do Rio. Eu morava em frente à Casa da Dinda, onde vivia o Collor. Então, olhando aquele movimento de entra e sai de gente, ouvindo as histórias dos ‘anões do orçamento’, fui pensando em criar uma história sobre Brasília como centro do poder, Brasília da corte, dos interesses privados interferindo nas jogadas políticas”, conta.

A crise política no governo do PT, na verdade, entrou na vida do cineasta pouco antes que começasse a filmar, levando-o a sentir necessidade de atualizar o roteiro de Brasília 18%- cujo número se refere ao baixo índice de umidade da capital do País. Uma dessas atualizações foi na profissão do maior corrupto da história: “Originalmente, era um empreiteiro. No final, ficou sendo o homem da publicidade”.

Ao mesmo tempo, Nelson preocupou-se em não tornar-se parcial com essa atualização. “O que há de novo nesta crise é que a esquerda que pela primeira vez vai ao poder pratica exatamente o que os antigos donos do poder praticaram, não todos, mas boa parte. Mas acho que consegui recuar o olhar do meu filme de forma que não restrinjo a corrupção a nenhum partido. A corrupção na minha história não é nem da esquerda nem da direita, é do poder. A corrupção não tem ideologia”, afirma.

No último dia 5 de abril, houve uma pré-estréia num cinema de Brasília, à qual inúmeros congressistas foram convidados. Segundo o cineasta, “poucos apareceram. O único ministro que compareceu foi o Ciro Gomes, que elogiou discretamente o filme e saiu. Houve um outro grupo de políticos que ficou meio trincado”. Uma das reclamações feitas por alguns políticos a Nelson foi a de que ele se limitou aos escândalos do Legislativo, deixando de fora o Executivo e o Judiciário. Ele se defende com ironia: “Não tenho a obrigação de contar todos os escândalos que aconteceram. Esta é a minha história”.

Uma curiosidade em Brasília 18% é que os nomes de quase todos os personagens vêm de grandes escritores, como Olavo Bilac, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Rui Barbosa e Augusto dos Anjos. Trata-se de uma outra ironia: “São grandes nomes do passado para pequenas pessoas do presente. É uma coisa contraditória, chocante, mas que dá um lampejo sobre a decadência que está acontecendo no Brasil hoje”, explica.

Tom Jobim, ABL e Castro Alves
Terminando o lançamento de Brasília 18%, Nelson segue para Nova York, onde a partir do dia 28 o filme estará na competição do Festival de Tribeca. Logo depois, prepara-se para a produção de mais um documentário, este sobre Tom Jobim, que já tem roteiro pronto e captação iniciada.

Em julho, Nelson Pereira toma posse de sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, a primeira vez na história da ABL que se admite um cineasta. Uma incrível coincidência quis que a cadeira atribuída a Nelson fosse a que tem como patrono o poeta Castro Alves. “Há 20 anos sonho fazer um filme sobre ele. Ele está me chamando”, brinca.

Este filme sobre Castro Alves, que ele quer a todo custo fazer, será uma ficção sobre o ano de 1868, que o poeta baiano, então com 21 anos, passou em São Paulo. Ele veio de Recife, onde estudava Direito com Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, trocando a escola da capital pernambucana pela Faculdade do Largo de São Francisco. Até hoje, não se sabe o porquê dessa mudança, o que ficou ainda mais difícil depois que a irmã de Castro Alves queimou as cartas do poeta – acredita-se que por motivos moralistas.

Além de tudo, o ano de 1868 também foi de grande importância política, como destaca o cineasta. Foi aí que o imperador Pedro II fez grande uso do chamado Poder Moderador – “que era o AI-5 da época”, compara Nelson – por causa da Guerra do Paraguai. Foi nesse ano também que Castro Alves escreveu o famoso poema Navio Negreiro.
















Neusa Barbosa

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