Entrevistas

Diretor de “O Duelo” destaca o embate de José Wilker e Joaquim de Almeida

Por Nayara Reynaud

Publicado em 19/03/15 s 16h52

por Nayara Reynaud
Quando era garoto, o cineasta Marcos Jorge leu toda a obra de Jorge Amado (1912-2001) e, quis o destino que, décadas depois, lhe surgisse a oportunidade de fazer uma adaptação de um dos romances do escritor. O diretor de O Duelo (2015) confessa que, ao ser convidado para assumir o filme, não conseguia se recordar da trama de Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso, até reler o texto do imortal autor baiano. “Eu me lembrei de quando eu era menino lendo o livro”.
 
Ele enxergou em A Completa Verdade Sobre As Discutidas Aventuras Do Comandante Vasco Moscoso De Aragão, Capitão De Longo Curso – nome com o qual o romance foi publicado originalmente em 1961, dentro do volume Os Velhos Marinheiros, junto com a novela A morte e a morte de Quincas Berro D’Água –, o enorme potencial “de contar uma história de fantasia”, algo não muito usual no cinema nacional.
 
Por isso, aceitou o convite e pediu à Total Filmes e à Warner, produtora e distribuidora do longa, respectivamente, que pudesse reescrever o roteiro que eles detinham, escrito pelo norte-americano Frank Pierson (1925-2012), que tem no currículo os scripts de Um Dia de Cão (1975) e Acima de Qualquer Suspeita (1990). De acordo com Jorge, o texto escrito pelo roteirista nos anos 1970 era distante da obra e “foi adaptado com mão pesada”. Assim, Marcos enfrentou o desafio de destrinchar o intrincado romance de Amado, com seus três níveis diferentes de narrativa, tendo ainda a dificuldade de encaixar isso dentro das necessidades de produção, para simplificar sem perder o essencial, “até porque o âmago da história é o duelo entre o Vasco Moscoso de Aragão e o Chico Pacheco”.
 
Os protagonistas foram interpretados, respectivamente, pelo português Joaquim de Almeida e por José Wilker, falecido em abril do ano passado. No último caso, o diretor afirma que, diferente dos outros papéis, sempre pensou no ator em seu casting. Para Claudia Raia, que também integra o elenco como Carol, “esse filme é uma homenagem muito bonita ao Zé Wilker” por causa de desempenho dele neste trabalho, elogio compartilhado por Tainá Müller, que dá vida à Dorothy na produção.
 
Para o famoso capitão de longo curso Vasco, Jorge esclareceu que desejava ter um ator que causasse no público brasileiro o mesmo estranhamento do personagem. Por isso, após uma lista de possibilidades, o artista português – de quem Raia diz ter observado a linguagem mais econômica no set – revelou–se a melhor escolha para ocupar o outro lado desse embate. “O duelo também se dá no filme entre dois atores muito diferentes entre si: o Joaquim é um ator extremamente técnico, de cinema (...); o Wilker era o contrário, um ator extremamente instintivo”, compara o cineasta, ressaltando a força de ambos.
 
Por outro lado, Tainá, assim como Claudia, comenta que, além do fato de ser uma adaptação de um livro de Jorge Amado, trabalhar com Marcos Jorge foi uma das razões que a fez entrar no projeto, pois havia gostado muito do Estômago (2007), o primeiro e mais famoso filme do diretor, que se encantou com o teste feito por ela.
 
Müller ainda ressalta a importância do elenco e as nuances do papel nessa escolha, já que em um momento ela era uma mulher casada infeliz e em outro uma prostituta. “Para mim era um desafio fazer uma personagem que eu tinha que construir muito através do corpo, porque o foco não está nos diálogos; ela não fala praticamente no filme”, relembra a intérprete, para quem a sua função é uma “escolha monastérica”. Raia também ressalta esse aspecto em seu papel. “São três fases diferentes (...), cada hora por um olhar, por um personagem diferente”, explica a atriz.
As colegas de elenco ainda elogiam o tratamento dado pela produção em não regionalizar ou datar a história em um local ou período específico. Segundo o cineasta, a ideia era mostrar um “Jorge Amado universal” e “criar uma época para o filme”, em um passado recente, mas não muito bem definido, que conferisse este ar atemporal.
 
As duas também frisam a experiência nova de trabalhar com o fundo verde, o famoso chroma-key, utilizado em cerca de 160, 170 cenas da produção. “É um filme em que um cenário entra no outro e [tem] milhões de efeitos especiais, coisa que nunca foi feita no Brasil”, destaca Claudia, que declarou não conseguir fazer mais cinema por questões de agenda, já que o cronograma dos longas aqui são alterados constantemente.
 
Marcos Jorge, que deve estrear ainda neste ano seu próximo trabalho, a comédia dramática com suspense Mundo Cão, com Lázaro Ramos e Adriana Esteves no elenco, afirmou que quis levar o texto de Jorge Amado às últimas consequências, usando recursos visuais que traduzissem em imagens o “como se vivessem” usado pelo autor para descrever a sensação de quem ouvia as histórias do capitão Vasco. “A dificuldade de encontrar a verdade é a essência do livro e essa confusão visual eu também queria no filme”, alega o diretor, explicando o uso dos efeitos especiais que se destacam em O Duelo.
 
Foto: Davi de Almeida/Divulgação















Nayara Reynaud

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