Entrevistas

Roteirista e protagonista em “Insubordinados”, Sílvia Lourenço comenta a experiência dupla

Por Nayara Reynaud

Publicado em 18/03/15 s 19h45

por Nayara Reynaud
Chega aos cinemas a primeira parte da “Trilogia da Vida Real”, projeto de Edu Felistoque que leva os personagens da sua série policial Bipolar (2010), exibida no Canal Brasil e na Warner, para a telona. O primeiro longa é Insubordinados (2014), em que Sílvia Lourenço vive Janete, uma mulher que praticamente mora no hospital em que seu pai está internado. Para passar o tempo e superar a solidão, ela começa a escrever um livro policial, envolvendo ela mesma e os que estavam ao seu redor nas histórias de Diana, seu alter ego, e de seus colegas investigadores – os mesmos vistos no seriado. A atriz, que foi responsável pelo roteiro desse filme peculiar, conta, em entrevista ao Cineweb, como foi o processo de criação, sua experiência como roteirista e o trabalho com suas personagens.
 
Como surgiu a ideia de adaptar para o cinema os personagens da série Bipolar?
Na verdade, o Edu [Felistoque] já tinha essa ideia. Ele achava que a personagem da Diana no Bipolar rendia um filme só dela, pelas questões que ela tinha com o pai e a dificuldade apresentada de se adaptar ao universo policial. Ele falou: “mas seria um filme muito feminino e o ponto de vista seria completamente dessa personagem, e eu queria que você escrevesse porque tem que ser uma mulher” [a série foi escrita por Júlio Meloni].
 
Como foi esse processo de criação do roteiro?
Na verdade, é um trabalho de colagem, porque eu tinha que desenvolver uma dramaturgia a partir do que tinha disponível no Bipolar, em termos dramatúrgicos e cinematográficos, de material filmado. Não era simplesmente fazer um roteiro de montagem, porque eu tinha que criar os 10 dias de filmagem que a gente ia ter, para costurar com essa história já filmada. O Edu disse: “a gente tem uma locação, que é o hospital”. A maioria dos atores da série estava na produção e, a partir desse quadro, comecei a pensar nas possibilidades dramatúrgicas. Por isso, tanta cena com voz off, porque era um recurso narrativo que eu tinha a minha disposição, já que muitas cenas de diálogo não poderiam ser filmadas. Pensei: “com uma locação só, todo mundo tem que estar nesse hospital; se todo mundo está lá, ela tem que inventar essa história”. Daí que partiu a vontade que a Diana fosse um alter ego da Janete. E para mim, como atriz, seria interessante trabalhar também a Janete como uma faceta bem complementar a da Diana; de fazer uma moça mais leve e que a relação dela com o pai tivesse marcado da mesma maneira, mas com outro sentimento. Existe a angústia dele estar doente, mas a Janete tem a habilidade de lidar com aquela situação de maneira diferente da Diana. E aí acabou me interessando essa brincadeira de “quem existe?” A Diana é um aspecto real da Janete ou ela é só uma invenção ficcional? Foi a maneira que ela conseguiu lidar com o lado negro de estar com o pai ali morrendo.
 
Quais foram as outras dificuldades no processo de criação?
Uma das maiores foi trabalhar com tanta narração em off. A locução em si não é difícil de fazer, mas é muito difícil fazer sem ficar chato. Acho que a gente tentou equilibrar as cenas de ação do Bipolar com as cenas contemplativas do hospital. Você pega um filme de ação, como o Tropa de Elite (2007), tem voz off, mas é o Wagner [Moura]! O cara é o maior ator do Brasil! É interessante e, ao mesmo tempo, é até hoje um dos melhores recursos para mostrar a subjetividade do personagem. No começo, fiquei brigando com a voz off: “mas eu vou ter que fazer isso?”. Mas, no momento que vi que era a única possibilidade de colagem entre as cenas, eu relaxei: “vamos fazer isso da melhor forma”.
 
Assim como a Janete tem na Diana seu alter ego, todo autor acaba colocando algo de si dentro de sua obra. E no caso do Insubordinados, o que os personagens têm de você?
Acho que a Janete tem bem mais coisas minhas do que a Diana (risos), na medida em que eu não tenho nada a ver com o universo policial... Acho que a coisa de escrever em si; eu sou roteirista, além de ser atriz, e esse universo, para mim, é bem fascinante. Mas eu acho que tanto o ator quanto o escritor, ele é um contador de histórias essencialmente. E a Janete é uma contadora de histórias; o que ela percebe é que, se conseguir encarar a própria maneira dela viver, dramaturgicamente, a coisa fica menos pesada e um pouco mais produtiva. Acho que os atores, de uma maneira geral, têm essa vantagem sobre o resto dos seres humanos, mas, na realidade, todo mundo pode encarar a vida assim. Todo mundo, quando se distancia um pouco do seu drama pessoal, consegue perceber depois de um tempo que tem aspectos que são quase risíveis.  
 
Como a experiência de colaboração com o Luiz Bolognesi, no As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Uma História de Amor e Fúria (2013), ajudou você neste seu segundo longa como roteirista?
Eu tive muita sorte na vida: comecei a fazer Letras na USP, fui até o terceiro ano e larguei. Na época, eu fazia o Antunes Filho [o Centro de Pesquisas Teatrais – CPT, dirigido por ele] também e ele sempre pegava no meu pé nessa questão, porque eu fazia o Prêt-à-Porter, um projeto que os atores desenvolviam a dramaturgia das cenas que interpretariam. Ele curtia as minhas cenas, me deu muitos livros e falava: “por que você não escreve mais?”. E, foi logo que eu saí do Antunes, que eu conheci o Luiz e a Laís [Bodansky]. Na verdade, fiz uma participação no Bicho de Sete Cabeças (2001) que ninguém viu, porque caiu na montagem. E mesmo assim foi uma experiência super-importante para mim, porque foi a primeira vez que entrei num set de cinema, que eu vi como o Bolognesi adaptou aquela história. Aí, em 2004, fiz o teste, e passei, para fazer o Contra Todos (2004), do Roberto Moreira, que era um filme autoral que me dava muita liberdade de interferência como atriz. E depois que eu terminei, o Roberto me chamou para escrever o argumento do próximo filme dele Quanto Dura o Amor? (2009). Mas entre um e outro, fiz essas colaborações para o Luiz, que sabia que eu gostava muito de escrever e me chamou para fazer a pesquisa para esses roteiros. E foi um grande privilégio, porque o Luiz é um roteirista sensacional e estar no dia-a-dia, entender como é o desenvolvimento dessa pesquisa e do quanto de trabalho existe por trás de um roteiro. Você tem que ganhar tanto repertório para transformar aquilo em algo criativo e que tenha uma abordagem mais autêntica, verdadeira. Para o As Melhores Coisas, dá-lhe conversar com adolescentes e escrever sobre isso. E escrever não tem outro jeito: você tem que ler muito e escrever muito para conseguir sair do lugar.
 
E agora você trabalha com isso?
Eu continuo trabalhando na produtora do Roberto Moreira, chamada Coração da Selva. Faço parte do núcleo de desenvolvimento de conteúdo. É um trabalho que eu faço questão de manter, pois me garante o exercício da “roteirista”. Esse núcleo tem série e longas de que eu não posso falar nada agora. Mas eu te digo que têm séries sendo desenvolvidas que são super- interessantes. Uma delas a gente já escreveu, já filmou e vai para o ar em agosto; chama O Extraordinário Condomínio Jaqueline. Não posso falar em que emissora vai para o ar, mas eu já te digo que é uma comédia. As pessoas vão me ver atuando e escrevendo humor, finalmente, já que eu sou a sofredora do cinema nacional (risos).
 
E dá para conciliar outros projetos agora com a gravação da novela Sete Vidas?
Conciliar dá só com o roteiro, porque onde eu vou, meu computador vai comigo. Este daqui [divulgação do filme] é o último evento que eu vou fazer antes da novela começar de vez; devo começar a gravar em maio, por aí. Tem quem consiga fazer peça e novela junto, mas é muito difícil. Há momentos na vida que a gente tem que fazer uma coisa de cada vez. Essa é a vantagem do roteiro.
 
Qual a diferença de interpretar uma personagem que você mesma escreveu?
O difícil de interpretar o que eu mesma escrevi é não ficar me criticando e conseguir manter a abertura para o novo, que significa o ator que vai jogar comigo. Porque uma coisa é a cena escrita, outra é quando os atores pegam essa cena e transformam em vida. Não digo que ele vai mudar o que está escrito. Só a maneira dele falar já dá uma tridimensionalidade, de uma maneira que, muitas vezes, a gente não vislumbrou quando escreveu. Por outro lado, quando é um texto de outra pessoa, a trajetória é inversa: é me apropriar de algo que não fui eu que escrevi e esse é o desafio da maioria dos atores. Acho que uma coisa ajuda muito a outra. Depois que eu comecei a escrever, a minha atuação melhorou. Eu não saberia escrever da mesma maneira se eu não fosse atriz.
 
Como foi a reação do público com Insubordinados na Mostra de SP e o que você espera agora no circuito comercial?
A reação das pessoas foi muito boa, ficaram bem comovidos com a situação da personagem. Acho que é um filme despretensioso, delicado. É uma história com que muita gente pode se identificar, porque fala de encontrar alternativas quando a gente está num momento de vida que parece sem saída. Um momento de morte, de transição, de solidão, de impotência, em que você sente que a sua capacidade de ação real está limitada. Todo mundo passa por isso de uma maneira ou de outra, em algum momento da vida, e acho que essas são as situações que a gente percebe que tem mais recursos do que imagina.















Nayara Reynaud

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