Entrevistas

Lírio Ferreira continua discussão sobre cinema e geografia em “Sangue Azul”

Por Nayara Reynaud

Publicado em 03/06/15 s 19h55

Por Nayara Reynaud
 
“A minha geração está chegando em uma maturidade em que o cinema está passando por uma transformação, e nada mais natural, no meu caso, do que falar sobre isso: contar uma história de amor, mas falar de cinema”. Esta é a constatação de Lírio Ferreira (com o ator Daniel Oliveira, à esquerda), cineasta pernambucano que retorna à ficção em Sangue Azul (2014), após dois documentários musicais realizados posteriormente ao seu primeiro voo solo, Árido Movie (2006).
 
Seu desejo de falar sobre o tema é visível na sua escolha em colocar o ilusionista interpretado por Paulo César Peréio para abrir o filme e o sábio vivido por Ruy Guerra para fechar, já que os considera “dois totens” da sétima arte. No entanto, a intenção se traduz mais na própria concepção da trama e no processo de produção. “É uma metáfora, a partir do momento que a gente está contando uma história de um circo que está chegando a uma ilha, que tem todo um relacionamento com as pessoas dali, um deslumbramento, depois uma disputa de espaço, um confrontamento, uma explosão de amor... A mesma coisa era com a gente”, compara.
 
Se a metalinguagem está sempre presente na filmografia do diretor, o mesmo pode se dizer sobre a importância do ambiente. “Se você vir os outros filmes que eu fiz, a relação com a geografia e os personagens sempre foi muito forte. Foi assim no Baile Perfumado [sua estreia em codireção com Paulo Caldas, em 1995], com aquele cânion do rio São Francisco, e no Árido..., com o vale do Catimbau”. Por isso, usa agora todas as características do arquipélago de Fernando de Noronha, além da Lenda do Pecado, não como pano de fundo, mas como personagem nesta história sobre “uma ilha que se move [o circo] dentro de uma ilha que não se move”.
 
A ideia inicial dele era ensaiar dois meses antes para então chegar à ilha, mas os planos mudaram e todos foram a Noronha: a produção, a primeira inteiramente rodada no arquipélago, ficou lá por um trimestre, com cinco meses de gravação. “Vou antecipar lá e fazer um supletivo de ilha”, relembra Lírio, que junto ao elenco e à equipe, entrou na rotina do local, se exercitando, ensaiando, indo à praia e ao forró à noite, para viver essa Noronha, a fim de que isso refletisse na tela, nos personagens, etc.
 
No entanto, ficar tanto tempo ilhado poderia trazer problemas, muito além dos custos de produção. “Quando eu pensei em fazer um filme lá, um amigo meu me disse: ’Vou te dar um conselho: quando vier para cá, você traz seu elenco, sua equipe e não se esqueça de trazer uma psicóloga, porque as pessoas piram aqui. As pessoas dizem que é um paraíso, mas com 10 dias o cara sai nu pela praia, quebra tudo, quer sair porque é água para tudo quanto é lado’”, recorda o cineasta que, no final das contas, não precisou de ajuda psicológica para nenhum membro da equipe sofrendo com “neuronha”, a neura de quem se sente preso na ilha.
 
Preparação insular
“Na verdade, eu estou me preparando para o Sangue Azul desde pequeno, sem saber”, brinca Daniel de Oliveira. Na pele do protagonista Zolah (nome artístico de Pedro), o Homem-Bala do circo, ele elenca as memórias de suas idas aos circos que eram montados regularmente perto de sua casa – e onde ainda leva seus filhos – como base para seu personagem. Como a preparação física era importante, o ator, que já luta jiu-jitsu e krav maga, resolveu praticar acrobacias de solo, voltadas para o ambiente circense.
 
Ferreira chegou a montar e desmontar o circo, levando pessoas do ramo, para saber como filmar a sequência inicial, da chegada da trupe. “Tem imagem embaixo do mar. Aí, eu fiz curso de mergulho; a equipe de fotografia fez; Daniel, Carol [Caroline Abras, a Raquel, irmã do protagonista]...”, explica o diretor.
 
Oliveira conta que, na ânsia de ir de barco para a ilha, igual ao seu personagem, conhecera o Wartinho (Walter Calmon) no porto e, apesar de não conseguir embarcar por vários motivos, criou uma amizade com o camarada que o colocou em uma pousada em Olinda e o apresentou aos seus amigos e familiares, de onde o ator começou a tirar o sotaque para o seu Zolah. Da mesma maneira, foi de peito aberto para se aproximar dos nativos em Noronha, indo “comer galinha na panela” para quebrar o gelo com a chegada da produção e do elenco de atores famosos.
 
Tudo isso o ajudou na composição de seu personagem. “É um processo igual ao da vida, em que a gente não tem certeza das coisas Eu estava aberto a tudo ali naquela ilha: aos papos com o Lírio, com os outros atores, às pessoas dali, pois cada um que chega na sua frente te modifica de uma certa forma”, afirma o ator, que está em outra estreia da semana, Romance Policial (2014), um thriller no Atacama, e em outro filme em cartaz, A Estrada 47 (2013), sobre pracinhas da II Guerra Mundial na Itália. Segundo ele, com cenários e tramas bem diferentes, eles só têm em comum a sua presença, assim como seu próximo longa, Órfãos de Eldorado (2015), adaptação do livro de Milton Hatoum que tem a Amazônia como palco e foi exibida no Festival de Tiradentes deste ano.
 
Por sua vez, Lírio planeja uma continuação, “ou uma extensão, ou uma contemplação, ou uma digressão” de Árido Movie. Ao voltar, dez anos depois à mesma região, ele sentiu que aquela história continuava aberta, por conta das obras de transposição do rio São Francisco, a questão da água e as transformações locais, com várias pessoas de outros estados chegando por lá. Misto de documentário e ficção, com alguns personagens do anterior, ele pretende tirar o projeto Acqua Movie do papel no próximo ano. Enquanto isso, o cineasta só se preocupa que não haja tempo suficiente para o público conhecer, especialmente pelo boca-boca, e ver Sangue Azul em um período de tantas estreias. “Por isso, que eu peço que as pessoas assistam logo na primeira semana”, convoca o diretor.
 
Foto: Aline Arruda/Divulgação















Nayara Reynaud

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