Entrevistas

Vivendo no limite

Por Alysson Oliveira

Publicado em 30/07/19 às 17h17

Grace Passô, como Selma, em cena de "No coração do mundo" (Foto: Leonardo Feliciano/Divulgação)

A atriz Grace Passô passa uma imagem tão forte e marcante na tela, que, vendo-a em No coração do mundo, tem-se a impressão de que ela faz cinema há muitos anos. Na verdade, a veterana do teatro, que também é dramaturga e diretora, começou no cinema há pouco – e logo em seu primeiro longa como protagonista, Praça Paris, de 2017, foi premiada no Festival do Rio.
 
“Eu conheci o cineasta Ricardo Alves Jr. quando trabalhamos juntos no teatro, e conversava muito sobre cinema com ele. Depois acabei fazendo uma participação em seu longa, Elon não acredita na morte”, conta em entrevista ao Cineweb.
 
Foi na produtora mineira Filmes de Plástico que a atriz acabou se encontrando, realizando na casa dois longas, Temporada, disponível na Netflix, e No coração do mundo, que estreia nos cinemas em agosto. “Existe uma semelhança grande entre o que eles e eu acreditamos sobre a arte. O pensamento da linguagem artística deles é muito vibrante. Isso expandiu minha vontade de fazer cinema”.
 
No coração do mundo foi rodado antes de Temporada, mas está sendo lançado depois. Aqui, Passô interpreta Selma, uma mulher vivendo no limite, que toma uma atitude radical – ao contrário de Juliana, do filme anterior, uma funcionária pública que visitava casas na periferia para eliminar focos de dengue. “Em comum, eu vejo que elas têm a força. São duas mulheres que dão conta de muitas coisas ao mesmo tempo. E, para mim, isso tem a ver com o matriarcado brasileiro, com mulheres que se multiplicam em funções sociais. Isso está na base da nossa sociedade”.
 
A atriz ressalta que essas personagens são mulheres que representam muito para a sociedade e “são retratadas na perspectiva poética da dimensão do que é ser mulher, o que não quer dizer uma visão romantizada disso”. Passô lembra que esse elemento é uma recorrência nas produções da Filmes de Plástico e que, quando chegou a No coração do mundo, encontrou um roteiro muito sólido: “As histórias já estavam prontas, eu já sabia muito sobre a Selma”.
 
Envolvida em diversos projetos, entre eles duas séries, Passô admite que também pensa em escrever e dirigir para o cinema. Recentemente, trabalhou numa transcriação de sua peça Vaga carne, que dirigiu para o cinema com Ricardo Alves Jr. “Não é a peça filmada, é pensar o texto do teatro a partir dos elementos do cinema”. O filme teve sua primeira sessão no Festival de Tiradentes, em janeiro último. Mas vem mais por aí: “Tenho escrito roteiros de cinema inéditos, mas ainda são ideias que estou amadurecendo”.
 
 
Um filme sobre o Brasil de hoje
 
Maurílio Martins e Gabriel Martins, roteiristas e diretores de "No coração do mundo" (Crédito: Isabela Martins/Divulgação)

Em seu primeiro longa, No coração do mundo, os diretores Gabriel Martins e Maurílio Martins investigam como a crise econômica ressoa na periferia, mais especificamente na periferia deles, o Jardim Laguna, em Contagem (MG). A première mundial do filme foi no Festival de Roterdã, no começo do ano, na competição principal, e o público europeu se interessou muito sobre como o longa reflete o momento político do Brasil. “A maioria das perguntas deles eram sobre isso. O filme representa um momento de dificuldades e, mesmo sendo rodado entre 2016 e 2017, fala muito do Brasil de hoje”, define Gabriel.
 

No coração do mundo surge como uma espécie de prequel para o curta da dupla, Contagem, de 2010, com elementos também de outro filme de Gabriel, Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides, de 2011. “Os personagens foram retrabalhados, e stendemos os seus universos”, conta o diretor.
 
O longa foi rodado em Contagem, no próprio bairro onde os diretores cresceram e moram. “A sala onde Selma trabalha fazendo fotos de estudantes é na escola onde estudei”, aponta Maurílio, orgulhoso. A praça, onda acontece a primeira cena do longa, fica em frente à casa dele. Por essas e por outras é que a região, nas palavras dos diretores, “abraçou o filme”. Até a empresa de ônibus local adotou o filme, colocando em seus coletivos os cartazes do longa.
 
O pôster, aliás, é praticamente uma obra de arte. Assinado pelo paraibano Vito Quintans, a arte remete aos blaxploitations dos anos de 1970. “Era uma obsessão nossa”, diverte-se Gabriel, “algo que lembrasse outra época, e trouxesse uma familiaridade a quem é da região, e isso está na imagem do ônibus tão em destaque. Inclusive com o número da linha”. 















Alysson Oliveira

Outras notícias