Entrevistas

Elia Suleiman e o humor que critica o estado do mundo

Por Alysson Oliveira

Publicado em 17/12/19 às 11h09

Roteirista, diretor e ator Elia Suleiman, em cena de  O paraíso deve ser aqui (Crédito: Divulgação) 
 
 
Pessoalmente, o cineasta palestino Elia Suleiman é parecido com o personagem que interpreta em O paraíso deve ser aqui – o que não é nenhuma surpresa, uma vez que ele confessa inspirar-se em si mesmo para criar essa figura observadora, como o seu próprio cinema. “Posso dizer que a única referência sou eu mesmo. Eu sou do jeito que o personagem é, e isso vem dos meus pais, que eram muito carinhosos e donos de um humor bastante peculiar”, disse em entrevista ao Cineweb, durante a Mostra de Cinema em São Paulo, em outubro passado, da qual participou com dois longas, O paraíso deve ser aqui (2019) e Intervenção Divina (2002), ambos premiados em Cannes, além de ter recebido o Prêmio Humanidade no festival em S. Paulo.
 
O paraíso deve ser aqui é um filme sobre o estado do mundo, sobre as políticas de identidade que fragmentam as pessoas. Composto por episódios, são sempre protagonizados por Suleiman, como uma figura que praticamente não fala e viaja da Palestina para a França. “Eu não acredito em interpretação. Eu sou daquele jeito e o personagem é observador.”
 
É, de certa forma, um filme político, sobre as questões identitárias do presente. “Não gosto quando a mensagem política é explícita, não tem efeito. Se você acha que vai ensinar alguma coisa alguém, você está fadado ao fracasso. O segredo do sucesso é compartilhar. E o filme não acaba quando termina, ele continua com o público, que pode criar suas próprias histórias.” O diretor destaca que também é um filme sobre a forma como o mundo está resistindo e tentou dar um tom de esperança ao longa, especialmente na cena final, com jovens. “Eu não sabia como terminar o longa, até que me contaram sobre um bar palestino para gays e lésbicas. Eu não sabia que esse lugar existia. E quando fui lá descobri onde estavam os jovens, que não têm afiliações com partidos ou estruturas de poder. A sensação de ser palestinos é mais universal, e não sobre a Palestina no mapa. É uma nova forma de resistência. E eu acho que as pessoas que estão no poder devem mesmo se preocupar com esses jovens, pois são eles que mudarão o mundo.”
 
Suleiman aponta que este é um filme sobre o estado de exceção que o mundo vive atualmente, em que o poder está por todo lado, na figura dos policiais, ou até de pesticidas, caso não se viva nas cidades grandes. “Nas gerações passadas, até nos piores momentos havia um lugar onde se esconder. Hoje isso não existe, as estruturas de poder tomaram todos os lugares. Vivemos num momento muito frágil.”
 
A crítica ao estado das coisas aparece de maneira bastante incisiva e cínica até, especialmente numa cena em Paris, quando uma equipe de paramédico e assistente-social alimenta um morador de rua. Eles perguntam o que ele quer comer, como ele se sente, se precisa de mais algo e avisam que voltarão mais tarde para fazer tudo isso novamente. É um momento engraçado até do filme, mas que revela a herança da sociedade burguesa repleta de boa vontade de ajudar, sem resolver de fato as situações. Suleiman revela que percebeu algo parecido com produtores franceses quando fez seus primeiros filmes. Essas pessoas o acusavam de a obra não ser “suficientemente palestina.” “Essas pessoas acham que conhecem seu país melhor do que você. O discurso do pós-colonialismo, atualmente, não evaporou, mas assumiu outros contornos e usa uma máscara.”
 
No longa, uma cena marcante envolve o personagem tentando escrever no computador e um passarinho. Ele conta que é inspirado numa história real, quando sua mulher, a cantora lírica libanesa Yasmine Hamdan, resgatou uma ave que caiu do ninho e a levou para casa. “Como ela viaja muito, acabei sendo obrigado a me tornar a babá do passarinho. Eu sabia que tinha de estar no filme. Muita gente lia o roteiro, e era resistente à cena, que seria muito cara para fazer e, para eles, não fazia muito sentido estar ali.” Para ele, isso é uma conquista. Suleiman conta que gosta de ter cenas que não tenham um significado, estão ali apenas por estar. “Com os policiais é fácil entender o que significam, mas esse passarinho, o que faz lá? O que representa? Eu gosto disso de ter algo que não uma identificação de onde veio. Há uma euforia quando consigo fazer isso.”
 
Para conectar os diversos episódios da narrativa de O paraíso deve ser aqui, ele conta usar algo chamado “montagem subliminar”. “Não me importo com continuidade, é feito com sentimento. Se você acreditar na capacidade de seu público e for sincero, haverá uma comunicação. Há filmes que insultam o seu público quando explicam tudo, tratam os espectadores como se fossem um grupo de ignorantes. Eu vejo o cinema ao contrário.” Quando perguntado se é isso que os filmes de super-heróis fazem, ele responde: “O que são filmes de super-heróis? Eu não vejo, sei que existem, há propaganda para todo lado, mas não é o tipo de cinema que me interessa. É como restaurante: se você me chamar para ir ao McDonalds, eu vou dizer não. Quero comida de verdade!”.















Alysson Oliveira

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