Entrevistas

“De quem é o sutiã?” e o poder do cinema além dos diálogos

Por Alysson Oliveira

Publicado em 18/02/20 às 17h38

Ia Shugliashvili, em cena de "De quem é o sutiã?" 
 
O cenário da comédia De quem é o sutiã? é inusitado: uma vila no Azerbaijão onde os trilhos dos trens passam tão perto das casas que também servem de ruas. Mas isso não é invenção do diretor do longa, o alemão Veit Helmer, na foto abaixo. O lugar existe e ele conta que, inclusive, os moradores o chamam de “Xangai”, embora não tenha nada a ver com a China. “O lugar me inspirou a escrever a história de um homem que, ao fim do dia de trabalho, devolve aos proprietários os objetos que ficaram presos ao trem. Mas, prestes a se aposentar, encontra um sutiã. E a trama é sua jornada em busca da dona da peça”, disse em entrevista ao Cineweb.
 
Ele conta que a escolha do Azerbaijão foi porque é um lugar que o fascina. “Fica no limite entre a Ásia e a Europa, onde era a antiga Estrada da Seda. Poucos turistas vão lá. Achei que era o cenário perfeito para a minha história. De maneira alguma eu quis fazer um filme sobre o país, mas me serviu de inspiração com suas paisagens e arquitetura.”
 
Fora a locação inusitada, De quem é o sutiã? tem outra peculiaridade: é um filme sem diálogos; apenas alguns sons eventuais são emitidos pelos personagens. Helmer conta que seu primeiro longa, Tuvalu (2002), também não trazia falas. “Era algo que eu queria repetir há quase vinte anos. Cinema é uma arte que conta histórias por meio de imagens, mas não significa eliminar os diálogos, pois o sentido da história pode se perder. Filmes sem falas precisam ser muito bem concebidos. E o roteiro [escrito por ele e Leonie Geisinger] consumiu bastante tempo, foi muito lapidado.”
 

 O som e a fotografia

A ideia, no entanto, nunca foi de a de fazer um filme mudo: “Eu amo o som”, diz ele. “Sou odiado pelos desenhistas de som, porque ouço os 240 canais de áudio antes de começar o processo de mixagem.” Antes disso, porém, ele passou dez dias gravando apenas os mais diversos sons para poder usar ao longo do filme. “Todo o som que eu uso significa alguma coisa.”
 
O longa reúne em seu elenco e equipe pessoas dos mais diversos países. O diretor é alemão; o ator principal, Miki Manojlovic, iugoslavo; e ainda conta, entre outros, com a espanhola Paz Vega, o francês Dennis Lavant, a russa Chulpan Khamatova, a romena Maia Morgenstern, a georgiana Ia Shugliashvili, e a búlgara Irmena Chichikova. No set, inglês era a língua principal de comunicação, mas para o garoto, Ismail Quluzade, Helmer conta que usava uma forma peculiar de comunicação. “Como ele não fala nenhuma das línguas que eu falo, eu mostrava como queria que ele atuasse e ele fazia do seu próprio jeito.”
 
Outra elemento particular em De quem é o sutiã? é a fotografia, assinada pelo também alemão Felix Leiberg, caracterizada por um colorido esmaecido com um aspecto de filme antigo. Helmer conta que seria impossível filmar usando equipamento analógico naquela região do Arzebaijão. Por isso, filmou em digital, “mas pediu a um artista visual que fizesse arranhões e ‘sujasse’ a imagem, para que parecesse com um tesouro encontrado num baú.”
 
O resultado final de De quem é o sutiã? é uma espécie de colaboração coletiva. Helmer inventou o básico da história, um maquinista em busca da dona da peça de roupa, e deixou o restante nas mãos de suas colegas de trabalho. “Geisinger criou as personagens femininas, trouxe toda a densidade a elas. Mas também cada uma das atrizes teve sua participação, inventando gestos e ações não-verbais que acabaram entrando na versão final. Geralmente, eu deixo o elenco muito livre no primeiro take, não me imponho. Só a partir dos takes seguintes é que começo a dar instruções, mas sempre digo que ‘menos é mais’, porque muito é visível aos olhos no cinema.”
 
Fotos: Divulgação















Alysson Oliveira

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