Entrevistas

“Fim de Festa” e o retrato da ressaca do Brasil contemporâneo

Por Alysson Oliveira

Publicado em 28/04/20 às 14h58

 Hermila Guedes e Irandhir Santos em cena de "Fim de Festa"
 
 
Antes mesmo de começar a entrevista, o ator pernambucano Irandhir Santos avisa: “Estou de chinelo porque machuquei as unhas dos meus pés durante o carnaval. Queria minhas unhas de volta”. Ele conta que sua paixão pela festa vem desde os 10 anos de idade quando o pai o levou para Olinda. “Ele foi um grande incentivador, e me mostrou que aquela multidão toda não ia me machucar. Todo mudo estava ali pelo mesmo motivo, para brincar. Desde então, eu nunca parei. Vou todo ano, e fico os quatro dias.” O que é bastante irônico já que seu personagem em Fim de Festa, o investigador de polícia Breno, numa das primeiras falas do longa diz estar velho demais para o Carnaval.
 
Escrito e dirigido por Hilton Lacerda, o longa, premiado no Festival do Rio, começa numa quarta-feira de cinzas, quando o protagonista volta às pressas para Recife a fim de investigar o assassinato de uma turista francesa. O filme começou a ser escrito em 2013, e foi rodado em 2018, e, assim, mesmo que de maneira não planejada, acompanhou transformações drásticas pelas quais o país passou. “É um filme sobre ressaca. Sobre o fim de um período de festa, quando a realidade crua bate à porta”, conta Irandhir. “É quase um paralelo com o que a gente vive no Brasil atualmente. Traz o fim de um período bom, e agora a gente parece não acreditar que aquilo acabou.”
 
Lacerda, em seu segundo longa de ficção como diretor, concorda. “Tudo aconteceu muito rapidamente na história do país. Quando comecei a trabalhar em Fim de Festa vivíamos uma coisa, agora, no lançamento, é algo completamente diferente.” O roteiro foi livremente inspirado num crime, e traz alguns elementos do gênero policial. “Para mim, filme de gênero traz questões muito específicas que estão na superfície que você enxerga, mas isso serve de isca para capturar o espectador para algo mais profundo.” Ou seja, seu filme está atrelado aos longas de investigação policial, mas subverte a cartilha, colocando ali entre um depoimento e outro uma profunda crise emocional e profissional de seu protagonista, além da crise social do país. É também, um filme sobre uma sociedade em transformação – ou que tenta sufocar esta.
 
Há um grupo de jovens hospedados no apartamento de Breno, colegas de seu filho, Breno Jr (Gustavo Patriota), que pregam o amor livre, e querem aproveitar os últimos dias de Carnaval, mesmo que a festa já tenha acabado. Para Irandir, ter esses e essas colegas estreantes é um estímulo em cena. “Todos têm um frescor, e não tem medo do erro. Não tem os vícios de atores mais experientes, pois não receiam se arriscar. Para mim, é empolgante ter essas pessoas com quem contracenar, eles me deixam livres de amarras”.
 
Ele destaca em especial as cenas com Patriota, nas quais os diálogos entre pai e filho os papeis parecem se inverter. “Há poucas cenas em que estamos apenas ele e eu, mas elas são densas, transmitem toda um ternura, e o personagem dele parece ser muito mais maduro do que o meu, ele que acaba me dando conselhos.”
 
Lacerda (na foto ao lado), que é um roteirista experiente (tem em seu currículo filmes como Febre do Rato, A Festa da Menina Morta e Capitães da Areia), conta que o acúmulo de funções coloca boa parte da responsabilidade em cima do profissional. “Se o filme dá errado, quando tem um roteirista e diretor diferentes, é possível um jogar a culpa no outro. Aqui, não tenho como fugir”, brinca. Sua primeira direção solo, Tatuagem, trazia também Irandhir no papel central, como um artista provocador que se envolve com um jovem militar. Aqui, seu personagem é completamente oposto. “O Breno é um contraponto. O outro era muito expressivo, aqui, é o oposto, um sujeito travado, cansado”, explica o ator.
 
Atualmente, ele também pode ser visto na novela Amor de Mãe, na qual interpreta o vilão Álvaro. “Eu sempre fiz muito cinema e teatro, mas a televisão tem me trazido coisas diferentes. É uma resposta mais imediata, a relação com o público é mais direta. Ao mesmo tempo, estou vendo a teledramaturgia mudando. As novela estão diferentes, mais ágeis, mais curtas. E, aqui, faço um personagem completamente diferente daquilo em que acredito. É um desafio”.
 
Fotos: Victor Jucá/Divulgação















Alysson Oliveira

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