Festival de Brasília 2015

Vaias para Cláudio Assis, aplausos para "Big Jato"

Neusa Barbosa, de Brasília

 Big Jato, de Cláudio Assis, era um dos filmes mais esperados deste festival – e, pela primeira vez na carreira do premiado diretor pernambucano, inclusive aqui, não apenas por motivos cinematográficos. Ainda se aguardavam repercussões das acusações de machismo, depois de um debate do filme de Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?, há poucas semanas, no Recife, onde o diretor e o colega, Lírio Ferreira, impediram o andamento normal do evento.
Por isso mesmo, a enorme equipe de Big Jato, em que se incluem os atores Matheus Nachtergaele e Marcélia Cartaxo, o escritor e jornalista Xico Sá e o produtor Marcelo Ludwig Maia, já subiram ao palco do Cine Brasília preparados para enfrentar vaias, que vieram em massa, impedindo Cláudio Assis de falar. Sua voz, mais de uma vez, foi sufocada pelos gritos de “machista!”, vindo de vários cantos da sala. Xico Sá, inclusive, apoiou a atitude: “Viva a vaia!”. Mas os apupos não paravam, ensurdecedores. Então, Matheus Nachtergaele, abraçando os jovens atores do elenco, estreando na tela, pediu para “abrir as asas” sobre eles, celebrando sua entrada na grande família do cinema. A ternura de Matheus, afinal, acalmou os ânimos e o filme, belo, emocionante, pode ocupar o território que lhe era devido.
 De várias formas, Big Jato, adaptado de livro de Xico Sá, à primeira vista não é bem o filme que se espera de Cláudio Assis, a julgar por contundentes obras anteriores, como Amarelo Manga ou Baixio das Bestas. É mais amoroso e mais delicado, embora vários de seus temas preferenciais estejam lá – inclusive o machismo, retratado nas sequências que mostram um bordel, onde o caminhoneiro Xico (Matheus Nachtergaele) trava um diálogo decisivamente misógino com o filho adolescente, Xiquinho (Rafael Nicácio), instruindo-o sobre como “não se deve ouvir” as mulheres, até porque não se pode mesmo entendê-las. Estas e outras situações envolvendo as mulheres, no entanto, são apresentadas por um viés crítico a essa mentalidade primitiva e dura de superar.
 
Parente de Miguilim
Big Jato trata do ritual de amadurecimento de Xiquinho, menino de óculos grossos – talvez parente sentimental do Miguilim, de Guimarães Rosa – que quer ser poeta numa realidade pobre, na cidadezinha de Peixe de Pedra. No dia a dia, ele é o auxiliar do pai, que conduz um caminhão desentupidor de fossas, o Big Jato. A atividade vale ao menino o apelido de “zé merdinha” na escola, denotando não só bullying, como preconceito de classe, outro tema da história.
Bruto, ignorante e bêbado, o pai quer de todo modo que o menino largue da poesia e se dedique a coisas mais pragmáticas, como a matemática, que interessa ao seu irmão mais velho, George (Vertin Moura). Mas, na seara artística, Xiquinho tem um inspirador no tio paterno, Nelson (também interpretado por Matheus), um radialista transgressor naquele ambiente, que jura que os Beatles foram antecedidos em sua inovação pop por um obscuro grupo roqueiro local, os Betos – o que fornece alguns dos momentos mais impagáveis do filme. Essa dualidade de influências, entre Xico pai e Nelson, fornece a matriz masculina que disputa o coração e a mente de Xico menino – uma interpretação muito convincente do novato Rafael Nicácio, um garoto lírico que toda a merda do mundo é incapaz de conspurcar.
 A matriz feminina é da mãe, interpretada como sempre com muita personalidade por Marcélia Cartaxo, que é uma mulher raivosa do marido bêbado que finalmente sai de sua sombra. No início, ela apenas reclama e padece os abusos do marido contra ela e os filhos, de maneira furiosa mas impotente. Mas paulatinamente, dedicando-se a um trabalho com perfumes (ironia com a atividade suja e fedorenta dele), ela amplia sua independência, o seu arco e posição. Ao marido machista, também se encontra uma via de transformação, que não é redentora, maniqueísta, mas humanista, cabível neste universo retratado de maneira absolutamente apaixonante e bela. Big Jato é um grande filme e isso é mérito também de Cláudio Assis.
 
Curtas
Foi uma noite de ótimos curtas, como o mineiro Quintal, de André Novais Oliveira, passando pela crônica social, a ficção científica e o nonsense mais inspirado, para retratar experiências de um casal maduro, vivido, mais uma vez na obra do diretor, por seus pais. O filme teve sua première mundial na Quinzena dos Realizadores de Cannes e já vem circulando e sendo premiado em festivais, como o recente Cine Ceará.
O outro curta, documentário brasiliense, Afonso é uma Brazza, de Naji Sidki e James Gama, recupera a incrível figura e parte da obra do bombeiro-cineasta Afonso Brazza, um autodidata e batalhador do cinema alternativo, que conseguiu na marra produzir e dirigir, também interpretar, oito filmes de ação e aventura em Brasília. Brazza, que aprendeu o que sabia sobre cinema na Boca do Lixo paulistana, também realizou o sonho de sua vida ao casar-se com a atriz Claudete Joubert em 1991 e que, a partir dali, tornou-se a musa de seus filmes, até a morte dele, em 2003.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança