Festival de Brasília 2015

"Fome" potencializa discussão sobre visibilidade social e fronteira entre gêneros

Neusa Barbosa, de Brasília

 Feita, alegadamente, com inacreditáveis R$ 15.000,00, sem recursos de editais, a ficção Fome, de Cristiano Burlan, bateu no Festival de Brasília como uma obra destinada a provocar discussões infinitas sobre forma, conteúdo, gênero, realidade, invenção e toda a gama de assuntos que percorre esta produção paulista, concorrente da seção principal.
Pela quarta vez, o crítico e teórico cinematográfico Jean-Claude Bernardet entra num filme de Burlan, na pele de ator – interpretando um ex-professor universitário de cinema que virou morador de rua em São Paulo por opção. Certamente, a persona real de Jean-Claude impregna cada plano de Fome. A biografia de Jean-Claude nunca é inteiramente deixada de lado e isso é proposital – senão o filme não dedicaria uma tão longa sequência a uma discussão do protagonista com um ex-aluno que o reconheceu (o crítico Francis Vogner), em que se trata de temas caros ao teórico, sobre o valor da atividade intelectual e do próprio cinema.
Esta cena foi uma das várias em que a improvisação (não havia diálogos definidos antes) foi desencadeada a partir do atrito entre a realização do filme e a própria história de Jean-Claude. E esta é uma das marcas da experimentalidade do filme, que atira em várias direções e se fragmenta em muitas intenções.
 
 À procura de respostas
O próprio Burlan, no debate desta tarde, admitiu que não tem todas as respostas para as muitas questões que sua obra coloca – e na qual ele assume uma precariedade de meios de realização que por vezes o incomoda.
Uma dessas questões, colocada pelo também cineasta Marcelo Pedroso no debate, é o “conflito de registros”. Segundo Pedroso, dá-se “visibilidade e historicidade” à figura de Jean-Claude, que interpreta um morador de rua, mas o mesmo não se estende aos sem-teto reais que o filme entrevista, que entram mas saem dele, já que a ideia nunca foi realizar um documentário estrito sobre eles.
Esta é uma das muitas questões, inclusive éticas, que Fome, saudavelmente até, levanta. Outra diz respeito à crítica ao posicionamento “burguês” diante dos moradores de rua, em sequências como uma que mostra um casal saindo de um restaurante e tentando dar o resto de seu jantar ao morador representado por Jean-Claude. Há uma ideia, por trás dessa e de outras cenas, de que a “caridade” seja um mal, servindo apenas para apaziguar consciências diante da miséria e da exclusão das pessoas de rua. Mas esse posicionamento político não é tão elaborado – e a própria cena do casal é uma das mais problemáticas do filme.
 
 Nada, aliás, pretendeu ser tão elaborado. Segundo o realizador, não houve um roteiro escrito, o filme nascendo de seis meses de discussões envolvendo os atores, que incluem também Ana Carolina Marinho, Henrique Zanoni (visto em Hamlet, do mesmo diretor), Juão Nin, Gustavo Canovas, Adriana Guerra e Rodrigo Sanches.
Fome traduz, sem dúvida, uma grande busca de Burlan e, dentro dela, registra momentos de grande beleza – como as cenas que mostram Jean-Claude carregando um outro morador de rua, seu amigo, dentro do carrinho de supermercado detonado onde carrega seus poucos pertences; em outra onde canta uma canção em francês e conversa com Ana Carolina numa praça; numa outra em que ele dança em câmera lenta; e, talvez a mais bonita, quando caminha lado a lado com um cantor pelo Minhocão vazio na madrugada. A cena final também é impactante. Jean-Claude definiu-a como “impactante” e, dentro da sua curta carreira de ator, afirmou que seu trabalho de que mais gosta.
 
Curtas
Foi uma noite de bons curtas, como o forte Tarântula, em que o diretor Aly Muritiba (PR) exercitou com perícia e rigor a composição de uma história noir, envolvendo duas irmãs (Giuly Biancato e a personagem interpretada pelas gêmeas Luma e Malu Zanetti) numa crise gerada pela chegada de um novo namorado para a mãe (Ana Clara Fisher), abalando a imobilidade de um lar rigidamente cristão e fechado sobre si mesmo.
Já o curta mineiro Rapsódia sobre o homem negro, de Gabriel Martins, entrelaça registros realistas e formas míticas inspiradas no candomblé para resgatar uma história de violência sócio-racial, envolvendo a morte de um de dois irmãos negros (Sérgio Pererê e Carlos Francisco), no cenário da violência policial diante de ocupações de terrenos em Belo Horizonte.

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