Festival de Brasília 2015

Walter Carvalho desvenda a paixão da arte em "Um Filme de Cinema"

Neusa Barbosa, de Brasília

 Rendeu duas horas e meia de prolífico debate o filme de abertura, o documentário Um Filme de Cinema, de Walter Carvalho – que não está em competição (teve sua première em abril, na competição brasileira do Festival É Tudo Verdade). A competição começa nesta noite de quarta (16), com o longa A Família Dionti, de Alan Minhas (RJ), e os curtas Command Action, de João Paulo Miranda Maria (SP), e À Parte do Inferno, de Raul Arthuso (SP).
 
Foi um ótimo abre-alas para o 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em que o evento mais antigo do país, criado pelo visionário Paulo Emílio Salles Gomes, confirmou sua vocação para abrigar discussões inteligentes. Credenciais para isso não faltam, certamente, nem a Walter Carvalho, nem aos seus inúmeros entrevistados no documentário, diretores de cinema dos quatro cantos do mundo, falando sobre suas ferramentas e ideias para enfrentar aquilo que chamam de métier, mas é também paixão, obsessão, sacerdócio, vocação e muito mais.
 
Carvalho destacou que sua intenção, ao realizar Um Filme de Cinema, foi essa mesmo, fazer um “convite ao pensamento, à construção de um raciocínio. Não teve a pretensão de ser um filme de escola, nem de ser didático”.
Para ele, o recurso a usar ruínas como cenário (de um antigo cinema no sertão paraibano), ou de alinhar imagens de um projetor abandonado sendo destruído por marimbondos, e mesmo a entrevista de um ator, o italiano Salvatore Cascio (o garotinho de Cinema Paradiso), para falar do encanto do cinema, afastam o filme do didatismo. Para ele, tudo isso “é mais uma forma de tangenciar a questão de que o cinema, de alguma forma, não acaba”.
 
Carvalho também acredita que seu documentário é um “filme de época”, no sentido de atravessar tecnologias diversas do longo período em que foi feito, 14 anos. Por isso, veem-se imagens a partir do 35 mm, 16mm, VHS e outros formatos. Essa variedade não incomoda aquele que é, com bastante razão, considerado um dos maiores diretores de fotografia do país, que faz uma declaração até surpreendente, por ser quem é: “Não jogo no time da tecnologia, e sim da linguagem. A técnica não pode atrapalhar a minha concepção conceitual. Quero que as pessoas pensem no que está acontecendo dentro do plano e do filme”.
 
Escolhas e cortes
 
O diretor assinalou que, como em outros trabalhos seus, procurou fazer “um diálogo entre pessoas que nunca se viram”, caso também de Janela da Alma, em que o tema era o olhar.  No processo de montagem, que foi, como o próprio filme, entrecortado pelos próprios outros trabalhos de Carvalho – que, nesses 14 anos, trabalhou em cerca de 30 outros filmes –, ficaram de fora alguns personagens ouvidos, ou parte do que eles disseram “A entrevista com Bela Tárr durou três horas. No filme ficaram apenas uns 20 minutos”, assinalou.
 
A uma jornalista que observou que havia apenas uma única entrevistada no filme – a cineasta argentina Lucrécia Martel -, Carvalho respondeu que outras mulheres haviam sido entrevistadas, mas ficaram de fora pelas mesmas razões que outros cineastas homens ficaram: por não caberem dentro da estrutura seguida pelo filme. Também houve casos de impossibilidade de obter algumas entrevistas pretendidas, caso da belga Agnès Varda e, pela terceira vez na vida de Walter Carvalho, do suíço Jean-Luc Godard.
 
Convidado a uma exibição no BAFICI (Festival de Cinema Independente de Buenos Aires), Um Filme de Cinema deverá ser lançado em breve em salas de cinema. Seu produtor, Marcelo Ludwig Maia, lamentou, no entanto, que no circuito brasileiro, mesmo tratando-se de um país tão grande, não mais do que cerca de 30 salas comportem a exibição de um filme como este. “Obviamente, vamos para a televisão também”, afirmou Ludwig.

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