Comédia uruguaia "Clever" vence Cine Ceará

Documentário "Menino 23" denuncia foco pró-nazista no Estado Novo

Neusa Barbosa, de Fortaleza

Fortaleza – O racismo foi o tema da quarta noite do Cine Ceará. Tanto na mostra de curtas – com Fotograma (PE) e Índios no Poder (DF) – quanto de longas, no contundente concorrente brasileiro da competição, Menino 23, de Belisário Franca (RJ).

Apoiado numa pesquisa de doutorado do historiador Sidney Aguilar Filho, o documentário denuncia uma clandestina experiência de virtual escravização de um grupo de 50 garotos negros e órfãos, retirados em meados dos anos 1930 de um orfanato carioca (Romão Duarte), para uma fazenda no interior paulista, em Campina do Monte Alegre. O criminoso experimento de limpeza étnico-social estava enraizado numa política eugenista, que acontecia no Brasil no contexto internacional de crescimento do nazismo, que no país se expressava também pela vertente integralista.

Tijolos com a suástica, aliás, ainda hoje podem ser encontrados nas imediações da fazenda, então de propriedade da família Rocha Miranda – cujos integrantes foram procurados mas não quiseram manifestar-se no filme. De todo modo, as provas mais evidentes são mesmo os documentos do orfanato, que contêm os nomes dos garotos – todos entregues aos cuidados de um único tutor, da família Rocha Miranda – e mais ainda os relatos em primeira pessoa de dois sobreviventes, Aloísio Silva e Argemiro Santos, ambos nonagenários, e da família de um terceiro, que era chamado de “Dois”.

Ser chamado por um número – como acontecia aos prisioneiros de campos de concentração -, aliás, era comum. O próprio sr. Aloísio era o “23” que dá título ao documentário. É dele o depoimento mais dolorido sobre os tempos passados na fazenda, em que os garotos eram submetidos a uma estafante rotina diária, que incluía trabalho na roça e com animais, sem recebimento de qualquer remuneração, banhos frios, castigos físicos e nenhum contato externo. Qualquer semelhança com uma prisão, portanto, não era mera coincidência. Era uma experiência de aguda desumanização, cujos efeitos se fazem sentir até hoje nestes sobreviventes e mesmo em seus familiares.

 
  Contexto e dissimulação
Presente ao debate do filme, o historiador Sidney Aguilar conta que a primeira pista da história surgiu, justamente, quando uma de suas alunas lhe trouxe um dos tijolos com a suástica – um símbolo que aparecia também no gado da fazenda, marcado com ele, como se descobriu em filmes da época. O contato com o cineasta Belisário Franca deu-se bem depois, quando Sidney pesquisava para o seu doutorado e já havia descoberto o sr. Aloísio, na época com 89 anos, o que deu a medida da urgência de filmá-lo. ­
O cineasta relembra que, bem no início do projeto, que durou mais de quatro anos, a ­primeira medida foi filmar esses sobreviventes – o sr. Argemiro, localizado depois, também contava 89 anos. Depois disso é que foram realizadas outras pesquisas que permitiram, como o diretor pretendia, dar mais consistência e mesmo contexto à espantosa história. “Havia uma célula integralista na fazenda. Os meninos eram expostos a isto. Por isso decidimos colocar para eles a gravação do hino integralista, cuja letra ambos demonstraram logo conhecer”, contou.
A contextualização, recorrendo a imagens da época, bem como a pesquisas dando conta de que a Constituição de 1934 continha até mesmo um artigo eugenista (o de número 138) era importante, segundo o diretor, “para mostrar que aquele confinamento dos garotos não era uma ação isolada. A família responsável sentiu-se muito à vontade para fazê-lo justamente por essa mentalidade de época, que encarava aqueles órfãos negros não só como indesejáveis mas também como perigosos”.
O planejado encontro entre os sobreviventes Aloísio (que morreu depois do filme) e Argemiro acabou não acontecendo devido a dificuldades extremas de locomoção de Argemiro, que reside em Foz do Iguaçu (PR). De todo modo, a divulgação do filme – que estreia em julho – servirá para uma análise não só daquela época. “A gente, como sociedade, é muito dissimulado”, critica Belisário.
 
 Imagens que falam
Dialogou intensamente com este longa o curta pernambucano Fotograma, em que os diretores Luís Henrique Leal e Caio Zatti compõem, em apenas 9 minutos, um denso comentário sobre o racismo e a exclusão social, visível, por exemplo, na arquitetura dos prédios de classe média alta em Recife. Uma série de fotografias de negros no século XIX, bem como as fichas policiais de vários deles, retomam as cicatrizes do longo processo de escravização africana que o Brasil foi o último país do mundo a extinguir.
Numa outra chave, o documental Índios no Poder, de Rodrigo Arajeju (DF), discute a falta de representatividade política dos indígenas no Congresso Nacional, lembrando o falecido deputado Mário Juruna, até hoje solitário parlamentar indígena a atravessar a barreira da invisibilidade que tantas vezes permeia esse segmento da nação – hoje, mais do que nunca, ameaçado pela demora na demarcação de suas terras e as tentativas de mudar as leis que as regem, estimuladas pela bancada ruralista.
A noite foi encerrada pela exibição especial de outro documentário, Do Outro Lado do Atlântico, de Danielle Ellery e Márcio Câmara, que acompanha a experiência de estudantes universitários africanos, da comunidade de países falantes do português, ao virem cursar universidades no Brasil, especialmente no Ceará (em Redenção e Fortaleza). Aí também reflete-se de maneira singular sobre os choques culturais mas também aparece o racismo, expondo um retrato que os brasileiros precisam encarar de frente de uma vez por todas.

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