Comédia uruguaia "Clever" vence Cine Ceará

O brasileiro "Maresia" encanta com atuação impecável de Julio Andrade

Neusa Barbosa, de Fortaleza
 Fortaleza – Um belo e sutil longa brasileiro, Maresia, estreia no formato do roteirista e curta-metragista Marcos Guttman, foi o ponto alto da noite de sábado (18). Embarcando em mais uma interpretação apaixonada do ator Julio Andrade, aqui interpretando dois papeis, o filme embalou os sentidos, a intuição e a inteligência do espectador que se deixou levar nas suas águas.
Adaptando o romance Barco a Seco, de Rubens Figueiredo – com a parceria dos roteiristas Melanie Dimantas e Rafael Cardoso -, Guttman consegue equilibrar o tom ambíguo da história, que explora a busca obsessiva de um perito de arte, Gaspar Dias (Julio Andrade) pelos sinais de um pintor galego, Emilio Vega (interpretado também por ele).
 
 O ator se apropria generosamente de dois personagens opostos, o introvertido Gaspar e o desvairado Vega, numa narrativa que os aproxima e confunde de maneira singular e convincente. A história evolui na imersão das duas biografias, unidas pelo aparecimento de um misterioso personagem, o velho Cabrera (Pietro Bogianchini), que teria sido amigo de infância do pintor desaparecido.
Vida, arte, concessões a padrões de sucesso, paixão, despojamento, busca de sentido e de glória, tudo isso emerge do tecido do filme, que tem na fotografia de Alexandre Ramos, na montagem de Waldir Xavier e Marília Moraes e na música original de Stefano Lentini elementos de construção coesos e imprescindíveis. O elenco de apoio nada fica a dever ao excelente conjunto, destacando-se Mariana Nunes, como a paixão do pintor, e Vera Holtz, como a dona da galeria de arte em que Gaspar trabalha.
 
Panamá e cybersexo
Já não andou tão bem o concorrente ibero-americano da noite, o longa panamenho Salsipuedes, estreia na direção do roteirista cubano Manolito Rodríguez e do produtor panamenho Ricardo Aguilar Navarro. O roteiro, também de Manolito, é incongruente e falho para conduzir a história de Andrés Pimienta (Elmis Castillo), jovem que foi mandado pela mãe para estudar nos EUA e volta para o enterro do avô, retomando contato com uma complicada história familiar e com as consequências de ter um pai foragido da prisão.
O resultado é um novelão que nem tem ritmo, nem paixão nem humor, muito menos funciona como drama familiar, retrato de geração ou de ambiente. O título refere-se ao bairro da Cidade do Panamá de onde o protagonista é originário.
Pelo menos coragem não faltou ao único curta concorrente exibido na noite, Janaina Overdrive, do cearense Mozart Freire, uma ficção científica que acompanha a rebelião de uma transciborgue contra as normas de megacorporação que domina o mundo, que a obrigariam a uma transformação radical. No elenco, o ator alagoano radicado em Fortaleza, Eusébio Zloccowick, falecido recentemente.
A noite se completou com uma homenagem à atriz Dira Paes que, comentando no dia seguinte sobre a demora da estreia do filme Encantados, da diretora Tizuka Yamasaki - cinebiografia da pajé Zeneida Lima, pronta há pelo menos dois anos: "É uma pérola guardada que precisa ser descoberta pelos distribuidores brasileiros". A atriz salientou que o filme, exibido há dois anos numa concorrida sessão no Festival do Rio, "não envelheceu". "Você só vê que o tempo passou por conta que a Carolina Oliveira (protagonista do filme) era uma menina de 14 anos na época das filmagens", garantiu. Segundo Dira, o filme ainda não foi lançado pela falta de distribuidor e de verbas para seu lançamento.

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