Comédia uruguaia "Clever" vence Cine Ceará

Chico Diaz e a maturidade criativa de um ator quase diretor

Neusa Barbosa, de Fortaleza

 Fortaleza – Não foi a primeira homenagem da carreira de Chico Diaz – na realidade, a do Cine Ceará foi a segunda (a primeira foi no Guarnicê maranhense, em maio), o que não deixa de ser surpreendentemente pouco. Afinal, são 57 anos de vida, quase 40 anos de carreira, com mais de 80 créditos entre filmes, novelas, minisséries. Mesmo tarimbado assim, Chico perdeu o rumo de sua fala quando foi ovacionado de pé pela plateia do Cine São Luiz, em Fortaleza, na noite de quinta (16) – a ponto de esquecer muito do que queria falar, sobre a imagem do ator e do que se pretende com ela, inspirando-se num artigo do ex-chanceler Celso Amorim falando da imagem do Brasil. Mas não esqueceu de seu protesto contra o atual presidente interino, Michel Temer, pedindo a volta da presidenta Dilma Roussef com cartaz “Fora Temer” e camiseta com o rosto dela.
 
 Retomando o assunto da imagem no dia seguinte, em conversa com um pequeno grupo de jornalistas, Chico fala disso também, de “como perseverar com uma mídia preconceituosa, que enxerga no teu tipo apenas um cangaceiro, um bandido”. Ele conta que pensou em entrar no palco como um velhinho, de bengala, mas desistiu – ainda mais porque quem lhe entregaria o troféu da homenagem era o cineasta cearense Halder Gomes (Cine Holliúdi), um cômico de primeira, e a coisa toda podia sair do controle.
 
Estreia como diretor
Em todo caso, pensar no passado, por melhor que seja, não é a disposição do ator que, neste momento se prepara para estrear na direção de longas, levando às telas uma adaptação do romance surrealista A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, escrito em 1956 e que ele levou ao teatro como um bem-sucedido monólogo nos últimos três anos e meio.
 
 Em processo de captação de recursos e nos últimos tratamentos de roteiro (até agora, quatro), Chico já tem garantidos no elenco do filme a sogra Marieta Severo, Matheus Nachtergaele, Fabiula Nascimento, seu irmão, Enrique Diaz, sua mulher, Silvia Buarque, pensando em atores como Gilrai Coutinho, Cândido Damm e Orã Figueiredo para completar. Ele planeja acumular atuação e direção, mas admite que poderia abrir mão da última função, dependendo das condições ou exigências que se apresentem.
Ele visualiza o filme como “uma coisa meio barão de Munchausen”, impregnada de fantasia, aliviando em parte a intensa carga dramática do original, em que se inserem a dualidade razão/loucura e a questão manicomial.
 
Documentário sobre o pai
Outro projeto acalentado pelo ator é um documentário sobre seu pai, o educador paraguaio Juan Enrique Diaz Bordenave (1926-2012). Integrante do Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas da OEA, Juan Enrique percorreu diversos países da América Latina, o que explica que seus seis filhos tenham nascido fora do Brasil – o próprio Chico nasceu no México, seu irmão, Enrique, também ator e diretor, no Peru.  Mais recentemente, o pai foi integrante da Comissão Nacional de Paz e Justiça (uma espécie de Comissão da Verdade) e secretário de Educação e Comunicação do governo Fernando Lugo.
Chico está juntando documentos sobre o pai, que morreu em 2012 (“ele começou a morrer com o golpe”, lembrando a destituição branca de Lugo naquele ano), como suas cartas e 140 horas de filmes familiares. Uma figura essencial será sua mãe, a professora, tradutora e intérprete paulista Maria Cândida Rocha, de 88 anos.
 
 Botelho e Darin
Enquanto não se concretizam estes projetos, a carreira do ator continua firme. Devem chegar às telas em breve filmes estrelados por ele, como Travessia (foto), de João Gabriel, além de um curta, O galo cantou, de Daniel Calil Cançado.
Ele revela ter sido sondado pelo diretor português João Botelho, que prepara uma adaptação de A Peregrinação, de Fernando Mendes Pinto, uma epopeia aventureira, literatura de viagem. Mas ainda não sabe se dará certo.
O intérprete de tantos filmes emblemáticos do cinema brasileiro, como Baile Perfumado, Corisco e Dadá, Os Matadores, O Sonho não Acabou, Amarelo Manga e O Sol do Meio-Dia também sonha em um dia contracenar com o ator argentino Ricardo Darin (de quem adorou recentemente o trabalho em Truman, além de Um Conto Chinês) e filmar com diretores latino-americanos, como o chileno Pablo Larrain (O Clube). Talento, fôlego e energia não faltam a esse intrépido ator brasileiro que o acaso e o idealismo de seu pai fizeram nascer no México.

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