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Cine Ceará inicia com filmes de família e protestos contra Temer

Neusa Barbosa, de Fortaleza

 Fortaleza – O 26º Cine Ceará começou nesta quinta (16) sob o signo da política. Cartazes de “Fora Temer” pulularam na no Cine São Luiz, sede do evento, nas mãos de boa parte do público participante – entre eles, muitos jovens. Também surgiu um deles nas mãos do ator Chico Díaz, homenageado desta edição, que em sua fala destacou: “Quero a minha presidenta de volta”.
Encerrando seu discurso de agradecimento da homenagem, abriu a camisa, mostrando uma camiseta com o rosto de Dilma Roussef estampado.
Foi ovacionado.Antes dele, o secretário da cultura do estado, Fabiano dos Santos Piúba, tinha exibido seu “Fora Temer” no palco.

 Avós de todos os lugares
Na tela, o tema dominante foi o das avós, oferecendo a linha condutora tanto do curta quanto do longa concorrentes da noite inaugural.
Prata da casa, o curta cearense Abissal, de Arthur Leite – vencedor do Festival É Tudo Verdade deste ano – esmiúça, em 17 alentados minutos, os segredos e contradições da história amorosa da avó do cineasta, pontuada por dois relacionamentos e o desaparecimento destes dois homens da vida familiar, com um humor todo particular – especialmente em função da figura carismática desta protagonista.
O curta, na verdade, foi o resultado imprevisto de uma pesquisa iniciada pelo diretor e sua produtora, Barbara Cariry, para uma minissérie ficcional abordando um reencontro deste casal de avó – projeto que continua de pé, em fase de captação de recursos. Mas a pesquisa ficara em suspenso, diante da sistemática recusa da avó de falar sobre o assunto, até que um dia, inesperadamente, ela decidiu falar, exigindo que fosse naquela semana. A urgência parece, inclusive, ter alimentado a verdade do curta, que se organiza em torno de uma personagem certamente especial.
Outro subproduto desta peculiar história familiar está na base do projeto de longa de estreia de Arthur Leite, que planeja ir ao encontro deste avô desaparecido – que, se vivo, teria em torno de 95 anos – e de seus filhos.
 
 Clã basco
Falado no idioma dos bascos, o euskeda, o longa da noite, o drama Avó (Amama), de Asier Altuna Iza, explora numa chave de realismo fantástico o atavismo das relações familiares em torno da posse de uma casa rural – que é sempre atribuída a apenas um dos filhos de cada geração. Além disso, cada um dos novos nascidos no clã ganha uma árvore, que é plantada e posteriormente tem seu tronco pintado de uma cor. Branco é a cor dos preguiçosos, preto, a dos rebeldes e maus, como Amaia (Iraia Elias), a jovem desta mais recente geração.
Envolvida em pintura e fotografia, que tira inspiração em suas relações familiares, Amaia não se encaixa neste mundo de regras rígidas, machistas, num suceder imutável de comportamentos não raro violentos – uma atitude que a coloca em confronto com o pai, Tomás (Kandido Uranga). A avó (Amparo Badiola), por sua vez, é uma silenciosa testemunha deste suceder inelutável de avós que, como se diz no filme, vem desde o neolítico.
Impressiona a densidade do filme, que registra a estreia em longas do diretor e também desta atriz, Iraia Elias, que vem do teatro (este é, por enquanto, seu único filme). Atualmente, ela reside em Buenos Aires, estudando com uma bolsa de teatro. Por sua estreia cinematográfica, ela acabou indicada como revelação feminina no mais importante prêmio espanhol, o Goya, no ano passado.
Presente no debate do filme, Iraia contou que Avó reflete sobremaneira a vivência do diretor, que viveu até os 18 anos num “caseiro”, o tipo de propriedade rural e familiar representado na história. Assim, muitas imagens foram colhidas de sua própria experiência, embora ele esteja longe de limitar-se a um registro semidocumental. Algumas das sequências visualmente mais fortes do filme, como a pintura e manipulação das árvores, são invenções ficcionais.
Outro detalhe visualmente muito forte na narrativa, as fotos da personagem Amaia, foram produzidas pelo diretor de fotografia, Javier Aguirre Erauso, o diretor de arte, Mikel Serrano, além do próprio cineasta. Fora sua beleza estética, elas são um elemento dramático importante, como destacou a atriz, “por quebrarem a ligação entre o velho e o novo, mas também reuni-los de uma outra forma”.
Além da fotografia de Aguirre Erauso, a montagem de Laurent Dufreche, aliadas à música intoxicante de Javi P3z e Mursego, sem contar o excelente elenco, garantem ao filme basco, falado em seu idioma próprio (como ocorreu no ano passado no Cine Ceará, com outro drama, Flores) uma potência que persiste nas retinas e na imaginação por longo tempo após terminada a exibição.
Uma curiosidade é que dois atores que interpretam pai e filho, Kandido Uranga (o personagem Tomás) e Manu Uranga (Gaizka) são realmente pai e filho. Já Amparo Badiola (a avó) e Klara Badiola (sua nora) não são parentes. Como contou Iraia, a impressionante Amparo foi vista na rua pelo diretor e seu olhar impactante foi o que o levou a contratá-la para o filme, em que ela não diz uma palavra, mas justamente com esses olhos, consegue dizer tudo o que é preciso.
 
Fotos de Chico Diaz: Arlindo Bezerra

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