Palma de Ouro vai para o Japão precário de Hirokazu Kore-eda

Palma de Ouro vai para o Japão precário de Hirokazu Kore-eda

Neusa Barbosa, de Cannes
 Cannes – No final, deu Japão. O delicado, mas também intenso drama Une affaire de famille/Shoplifters, de Hirokazu Kore-eda levou a Palma de Ouro. Seu concorrente direto, o fortíssimo BlacKkKlansman, do norte-americano Spike Lee, passou raspando, levando o segundo prêmio mais importante, o Grande Prêmio do Júri.
 
No final, foi um bom resultado esse do júri presidido pela atriz Cate Blanchett. Os dois filmes, cada um a seu modo, no seu estilo e universo, dialogam com o intenso mal-estar que atravessa o mundo todo. Mesmo o mundo dito desenvolvido, civilizado. Afinal, o filme de Kore-eda – que concorre neste festival pela sétima vez, com um Prêmio de Júri em 2013 por Pais e Filhos -retrata uma família japonesa que vive nos extremos da sobrevivência, à margem da assistência do Estado ou de quem quer que seja, entregue à própria sorte, com crianças que não existem no radar dos serviços sociais, não vão à escola, não têm assistência de saúde, assim como as crianças do filme da libanesa Nadine Labaki, Capharnaüm, que levou o Prêmio do Júri.
 
Os prêmios de atuação também contemplaram filmes que tomam o pulso da vulnerabilidade de pessoas comuns – caso do italiano Marcello Fonte, protagonista de Dogman, de Matteo Garrone, vivendo um desprotegido dono de uma pequena pet shop que não tem como defender-se de um valentão criminoso; e também de Samal Yeslyamova, a desesperada protagonista do drama russo Ayka, de Sergey Dvortsevoy, que mostra a situação de uma mulher perseguida por agiotas.
 
Jafar Panahi, o diretor iraniano detido em seu país, que não pode viajar para participar de festivais, também foi lembrado com o prêmio de roteiro (que foi dividido com a italiana Alice Rohrwacher e seu Lazzaro Felice), por seu belo drama Trois Visages – um roteiro que Panahi assinou com Nader Saeivar e acompanha a saga de três mulheres pelo interior iraniano, fronteira com a Turquia, expondo problemas de desigualdade de gênero, conservadorismo e luta por independência pessoal, todos temas caros à filmografia do diretor.  O agradecimento de Panahi foi lido no palco da salle Debussy pela filha dele.
 
Já o importante prêmio de direção ficou para o polonês Pawel Pawlikowski pelo drama Cold War – um trabalho em branco e preto, acompanhando as idas e vindas do romance de um casal, formado pela cantora Zula (Joanna Kulig) e o pianista Wiktor (Tomasz Kot), que é atravessado pelos desacertos do regime comunista da Polônia nos anos 1950 e 1960.
 
Um único reparo pode ser feito à decisão deste júri – não precisava, mesmo, essa Palma de Ouro especial inventada para o veterano Jean-Luc Godard e seu Le Livre d’Image, uma repetição do que ele tem feito desde sempre, particularmente Filme Socialismo (2010) e Adeus à Linguagem (que lhe deu o Prêmio do Júri aqui em 2014). Parece que é obrigação premiar Godard toda vez que ele realiza um filme, ainda que ele nem mesmo se disponha a vir ao festival.
 
Talvez algum prêmio especial pudesse ter sido dado a concorrentes de qualidade que saíram de mãos vazias, como o russo Leto, de Kirill Serebrennikov ou o denso turco Ahat Agaci, de Nuri Bilge Ceylan.
 
O prêmio Caméra d’Or, que é decidido por outro júri, foi dado ao sueco Girl, de Lukas Dhont, da seleção do Un Certain Regard e também venceu o prêmio Fipresci para esta seção.

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