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Saga russa roqueira de Serebrennikov sacode a competição em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes – Com apenas três concorrentes exibidos, no terceiro dia do festival, ainda não dá para concluir quais as tendências definidoras da edição 2018. Mas já dá para cravar que pelo menos uma parte dos títulos procuram sintonizar no que é, afinal, a mágica que leva o público ao cinema, a receita que todo diretor/produtor persegue.
 
Isso é o que se pode imaginar, por exemplo, a partir do filme de abertura, o melodrama Todos lo Saben, do iraniano Asghar Farhadi, e também dos dois concorrentes exibidos depois, o egípcio Yomeddine, do estreante A.B. Shawky, feito sob medidas para arrancar lágrimas, no melhor estilo Bollywood da África do norte, e a enérgica cinebio roqueira Leto, do diretor russo Kirill Serebrennikov, um dos cineastas aprisionados em seu país, acusado de fraude financeira, e impedido de comparecer ao festival. Apesar de o diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaud, ter solicitado formalmente ao presidente Vladimir Putin a presença de Serebrennikov, a resposta protocolar de Putin foi que “o judiciário russo é independente e ele não poderia interferir”. Seria cômico se não fosse trágico. Mas, afinal, a exarcebação do lawfare contra os inimigos políticos está longe de ser uma exclusividade russa.
 
Rock anos 1980
Se o diretor não pode vir, seu vibrante Leto (literalmente, “o verão”), filmado num belíssimo branco e preto (fotografia de Vladislav Opeliants) ocupou com muita personalidade a imensa tela do Grand Thêátre Lumière na manhã desta quinta (10), colocando boa parte do público, maioria de jornalistas, batendo pés no chão e mãos nos braços das poltronas para acompanhar a batida de Mike (Roman Bylk), Victor (Teo Yoo) e sua turma.
 
Em Leningrado, nos anos 1980, esses dois foram protagonistas de uma onda roqueira local, que se nutria na veia com as maiores influências do rock ocidental – Lou Reed, The Clash, Bob Dylan, T-Rex, Joy Division, Blondie, tudo valia. Nascido em 1955, Mike era uma espécie de estrela do clube local, seguido por uma legião de fãs. Ao seu lado, sempre a mulher e musa Natasha (Irina Starshenbaum) – em cujas memórias, aliás, o filme é inspirado. E o próprio Mike apadrinha o novato Victor, mais lírico e seu admirador, e que termina compondo um triângulo amoroso (platônico?) com Natasha.
 
Muito bem-filmado, cheio de licenças poéticas – como os diversos momentos do “não aconteceu assim, mas poderia ter sido”, em clipes que incorporam diversos efeitos visuais, num trem, num ônibus, etc. -, Leto desenha diversos outros personagens secundários com personalidade, os amigos, parceiros, fãs, colaboradores dos roqueiros, o que contribui para que o filme componha uma espécie de retrato de geração – assim como fez, 18 anos atrás, o chinês Jia Zhang-ke em seu sublime Plataforma, embora se tratem de filmes muito diferentes.  
 
Essa liberdade de reimaginar, visualmente, passagens de uma história calcada em fatos reais afasta o trabalho de Serebrennikov de uma proposta muito documental, sintonizando mais na liberdade sensorial, sensual, de atitude e pensamento que caracteriza a própria juventude. Antes de mais nada, Leto é sobre isso, sobre esse curto e intenso verão que é o estado de ser jovem, trazendo para as plateias fora da Rússia uma também aguda crítica à repressão e burocracia da era soviética. O que, certamente, cai sob medida para comentar a atual onda repressivo-conservadora que envenena o mundo todo.
 
Lepra e abandono
Egípcio de 32 anos, nascido no Cairo, filho de uma austríaca e formado em Cinema em Nova York, A. B. Shawky delineia um mundo com total empatia pelos deserdados da sorte ao retratar no drama Yomeddine a saga de um leproso curado, mas coberto das marcas da doença, Beshay (Rady Gamal), e um garoto órfão, “Obama” (Ahmed Abdelhafiz), que ele coloca sob sua proteção. O núcleo da história está na viagem pelo Egito, empreendida pelos dois e um burrinho, rumo ao sul, onde Beshay sonha reencontrar sua família, que o abandonou, ainda na infância, num leprosário.
 
O enredo explora habilmente a ignorância e o preconceito que cercam a hanseníase – que, no Egito, especialmente nas áreas rurais, é vista não só como contagiosa como maldita, por causa de uma afirmação do profeta Maomé. Nisto e em tudo o mais, portanto, o filme não foge às fórmulas emotivas, evidenciando os sofrimentos tanto de Beshay quanto do menino nessa jornada cercada de incompreensão, crueldade e algumas soluções quase mágicas.
 
Enfim, se há qualidades no filme, elas decorrem de sua capacidade documental de captar a dureza das condições de vida de uma parte da população egípcia. Um bom momento é quando os dois personagens chegam à ruína de um monumento milenar, especulando se pode ou não ser uma das famosas pirâmides. Há que se relevar essas fragilidades, no entanto, porque se trata de um trabalho de principiante.
 
Mulheres do Quênia
Na seção paralela Un Certain Regard, o ponto alto da quarta (9) foi a produção queniana Rafiki (“amiga”), da diretora Wanuri Kahiu – o primeiro filme do Quênia a ser selecionado em Cannes e proibido em seu país por apresentar uma “visão muito positiva” do lesbianismo.
 
Na história, duas garotas de Nairóbi, Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), são filhas de dois candidatos de uma eleição, o pai da primeira, comerciante, o da segunda, rico empresário. Só essa rivalidade entre os pais já seria um problema para uma amizade simples e isso se complica quando elas se apaixonam – tornando-se alvo de violência e pivôs de um escândalo na comunidade.
 
O potencial dramático deste segundo trabalho da diretora é contrabalançado por uma visível intenção de injetar uma dose de colorido e juventude neste retrato , inclusive nos figurinos e na música.  De todo modo, as duas protagonistas são carismáticas e sustentam a história. Ao seu redor, os personagens secundários, como seus pais, a fofoqueira local, sua filha e um pastor ultra-moralista e performático não escapam de uma certa fórmula, mas reforçam o recado que se quis dar. Em termos de sensualidade, o filme é tão pudico que é difícil imaginar que pode ofender alguém.

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