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Cannes decola em ritmo hispânico na competição e na Quinzena dos Realizadores

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes – Depois de um início de festival incomum, com a sessão inaugural, mesmo para a imprensa, deslocada para a noite de terça (8)– e a imprensa toda, dentro da sala Debussy, obrigada a assistir por um telão à xaroposa cerimônia de gala, que se passava na sala ao lado -, finalmente decolou a competição do 71º festival, com um filme de abertura que, como nem sempre acontece, está também na luta pela Palma de Ouro, o drama Todos lo saben, produção filmada na Espanha, com os astros Javier Bardem e Penélope Cruz, ao lado do argentino Ricardo Darín, dirigida pelo iraniano Asghar Farhadi.
 
A primeira observação a ser feita sobre mais este drama familiar de Farhadi é como ele atravessou bem o deslocamento de país e mesmo de língua – o filme é inteiramente falado em espanhol – sem perder sua assinatura dramática, compondo seu universo habitual mesmo nestas condições. A cada passo do roteiro, também de autoria de Farhadi, sua marca é plenamente reconhecível – e todos que conhecemos seus premiados filmes anteriores, Procurando Elly (2009), A Separação (2011) e O Apartamento (2016) sabemos o quanto ele não acredita em famílias felizes, e, seguindo Leon Tolstoi, cada uma seja infeliz à sua maneira.
 
O núcleo da trama é a volta da espanhola Laura (Penélope Cruz) à sua terra natal, ela que vive há anos na Argentina, para o casamento da irmã (Inma Cuesta). O marido, Alejandro (Ricardo Darín), ficou em casa e ela trouxe apenas os dois filhos. Ali, ela reencontra também Paco (Javier Bardem), um antigo amor, agora casado com Bea (Bárbara Lennie), mas que segue amigo da família. Compondo admiravelmente o caloroso ambiente espanhol, sintonizado no comportamento mais extrovertido e explosivo dos latinos, Farhadi desata os três momentos de sua história: o primeiro, de festa, caliente, em torno da festa de casamento, regada a dança, comida, bebida; uma situação dramática, deflagrada por um sequestro na família, que expõe uma série de segredos mal-escondidos desta pequena comunidade; e uma terceira parte, em que se procura resolver o impasse, com um custo alto e desproporcional entre os envolvidos.
 
É um prazer observar a mão segura do diretor iraniano na condução desta história intensamente melodramática - com alguns detalhes muito próximos do novelão, mas não mais do que a maioria dos filmes do bom e velho Pedro Almodóvar, dos quais é possível lembrar pelas presenças de Javier (que com ele trabalhou em Carne Trêmula) e Penélope (que com ele fez Tudo sobre minha mãe, Abraços Partidos e Volver). Evidentemente, o estilo de Farhadi é outro, mais contido e com outras intenções. Mas é certamente o tipo de filme de que a maioria do público irá gostar, talvez mais do que os críticos. De todo modo, Todos lo Saben ofereceu uma abertura forte, com um concorrente de respeito aos prêmios que serão decididos pelo júri presidido pela atriz Cate Blanchett.
 
Colômbia na Quinzena
Sintonizando na atmosfera hispano-falante deste início de festival, a Quinzena dos Realizadores, que realiza sua 50ª. edição, mostra paralela que nasceu sob o signo da rebelião deflagrada por 1968, abriu seus trabalhos hoje (9) com uma produção colombiana, Pájaros de Verano, dirigida pelo veterano Ciro Guerra (O Abraço da Serpente) e a produtora estreante como codiretora Cristina Gallego. Embora, é verdade, a maior parte do filme seja falada em idiomas nativos.
 
Em mais um drama fortemente impregnado da realidade indígena, Guerra e Gallego reconstituem, em ficção, dramáticos acontecimentos verídicos, ocorridos na comunidade Wayuu, na região de Guajira, entre as décadas de 1960 e 1980.
 
O enredo reproduz a drástica destruição da cultura e dos valores indígenas quando a comunidade é colocada diante da chance de ganhar muito dinheiro com o tráfico de maconha. Tudo começa nos anos 1960, quando jovens norte-americanos, enviados por seu governo dentro das atividades pseudo-educacionais/assistenciais, declaradamente anticomunistas, dos Peace Corps, começam a criar a demanda pela droga. Isto leva que indígenas, que plantavam café, mudem o cultivo para a erva, acumulando muito dinheiro, mas também introduzindo armas e violência dentro de relações antes regidas pelas tradições.
 
Dividido em cinco capítulos, o filme retrata esse processo de nascimento dos carteis de drogas, que tanto ensanguentou a Colômbia, com riqueza de detalhes, contando com o trabalho de atores indígenas. O que se depreende deste drama fortíssimo é a violência do choque cultural, sem descuidar de imprimir a marca de um cineasta que não se afasta da consciência de que a humanidade é uma só, vulnerável e sujeita à alta voltagem da ambição e das emoções mais primitivas. Outra abertura forte e promissora.

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