Palma de Ouro vai para o Japão precário de Hirokazu Kore-eda

Crianças em perigo impressionam na reta final da competição pela Palma

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes - Faltando somente um concorrente à Palma de Ouro – o turco Ahat Agaci (Le Poirier Sauvage/The Wild Pear Tree), atração desta noite de sexta (18) -, é hora de encerrar as análises, até porque a premiação sai amanhã. Alguns dos últimos concorrentes, os filmes da libanesa Nadine Labaki (Capharnaüm) e do russo Sergey Dvortsevoy (Ayka), especialmente, dilaceraram corações e sensibilidades com seus retratos dolorosos da situação social em várias geografias, com efeitos devastadores sobre a infância. Numa outra chave, o concorrente francês à Palma Un Couteau Dans Le Coeur, de Yann González, uma história ambientada na indústria pornô de cinema, mostrou-se mais uma dispensável viagem no vazio.
 
Na seção Un Certain Regard, uma boa notícia para o Brasil: recebeu hoje (18) o prêmio especial do júri a coprodução luso-brasileira Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, do português João Salaviza e a brasileira Renée Nader Messora, filmada numa aldeia Krahô no Tocantins. Os outros filmes desta que é a principal seção paralela do festival foram: o Prêmio Un Certain Regard para o iraniano Gräns (Border), de Ali Abbasi; melhor roteiro para o francês Sofia, da diretora Meryem Benm’Brek; melhor interpretação, Victor Polster, de Girl, de Lukas Dhont (Bélgica); e melhor direção para Sergey Loznitsa, por Donbass (Ucrânia).
 
Crianças em perigo
Embora foquem o estado social precário do mundo em seus respectivos países, Capharnaüm e Ayka exibem notáveis diferenças de tom. Enquanto o filme de Nadine Labaki não economiza na dramaticidade, atirando para vários lados para abranger diversos assuntos e se torna mais pungente devido ao caráter semidocumental, o drama de Dvortsevoy (conhecido por Tulpan) fecha o foco numa única personagem-título (Samal Yesyamova) vivendo uma jornada infernal ao longo de vários dias.
 
Boa parte dos dois filmes se passa nas ruas, no caso de Capharnaüm, as de Beirute, o cenário da impressionante jornada de um menino de 12 anos, Zain (Zain Alrafeea). Explorado por seus pais, dois lúmpens, ele simplesmente não tem existência civil – devido aos custos, ele nunca foi registrado, o que o mantém fora da escola e dos serviços de saúde. Para ajudar a sobrevivência da família, ele trabalha em várias coisas, o que não impede que seja maltratado. Sua obsessão é tentar proteger a irmã (Cedra Izam), que os pais querem entregar ao comerciante que é patrão do menino assim que a garota, aos 11 anos, tem a primeira menstruação.
 
A jornada de Zain o levará longe da família, sendo incorporado ao núcleo formado por uma imigrante africana ilegal (Yordanos Shifera) e seu filho pequeno, Yonas (Treasure Bankole). Juntos, Zain e Yonas protagonizam algumas das sequências mais angustiantes do filme, que ilustram a total exposição deles a um mundo dos adultos incapazes de protegê-los.
 
Honesto e contundente como é, em seus princípios, o filme de Nadine peca por um excesso de boas intenções, além de querer contemplar assuntos demais, embora seja justo observar que representa um notável crescimento da diretora. Outro pecado é colocar na boca do pequeno Zain um discurso, que representa o pensamento da diretora, que não convence, porque não cabe no universo dele. Fica difícil aceitar que Zain, vivendo como vive, procure a justiça para acionar os pais por “tê-lo trazido ao mundo”. Enfim, Capharnaüm peca por este excesso no melodrama e no discurso, mas acerta quando deixa seus pequenos protagonistas viverem em cena situações que experimentaram de verdade, como fica evidente.
 
Perdida na neve
Ayka, um filme doloroso, exasperante mesmo, porque os espectadores são levados a compartilhar o calvário da protagonista, se resolve bem melhor, cinematograficamente. O russo Dvortsevoy condensa em 1h40 sem sobras o dilema dessa imigrante quirguiz em Moscou, que acaba de dar à luz, como se vê na primeira sequência. Ela, no entanto, não tem a menor condição de acolher seu bebê. Saiu de seu povoado depois de endividar-se com a máfia local para abrir um pequeno ateliê de costura. Agora, sua autorização de trabalho venceu e ela não consegue juntar o dinheiro para resgatar a dívida. Sua irmã, que ficou para trás, está em perigo.
 
O filme russo soma-se assim, a diversos concorrentes da Palma de Ouro que tomaram o pulso de um mundo intensamente disfuncional, como visto em outros candidatos, o italiano Dogman, de Matteo Garrone, o japonês Shoplifters, de Hirokazu Kore-eda, e o egípcio Yomeddine, de A. B. Shawky, com graus diferentes de sucesso. Ayka, no entanto, é extremamente envolvente, com sua câmera sempre colada no corpo e no rosto desta jovem permanentemente em fuga, nas ruas cobertas de neve de Moscou, sofrendo de dores, incompreendida, rejeitada, vulnerável. Que grande atriz é essa Samal Yesyamova.
 
Pornô barato
Já o último concorrente francês, Un Couteau Dans le Coeur, sobrou totalmente na competição. O filme do novato Yann González (Les Rencontres d’Après Minuit) é uma mixórdia mal-costurada em torno de Anne (Vanessa Paradis), que dirige uma pequena produtora de filmes pornôs em 1979 e se vê envolvida numa série de assassinatos de seus atores por um serial killer.
 
Poderia ser um bom exercício de filme de gênero, num determinado momento com um toque fantástico. Mas o roteiro, assinado por González e Christiano Mangione, é tão ruinzinho, com diálogos tão constrangedores, que não dá nem para o começo. Então, o diretor se satisfaz com a exibição voyeurística das cenas dos filmes eróticos feitos dentro do filme.

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