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Godard e Jia Zhang-ke aumentam a temperatura em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes – A competição avança em seu primeiro fim de semana, com as apostas crescendo. Foi o que aconteceu nesta sexta (11), com a passagem de dois pesos-pesado do festival, a prata da casa Jean-Luc Godard (Le Livre d’Image) e o chinês Jia Zhang-ke (Ash is Purest White).
 
São duas escolas de cinema muito diferentes, ambas com capacidade de despertar envolvimento e/ou rejeição – sobretudo no caso de Godard que, aos 87 anos, mantém-se fiel ao papel de provocador, armando um filme atulhado de referências literárias, pictóricas, políticas e cinematográficas, capaz de aturdir o espectador mais disposto a segui-lo neste turbilhão, que remete ao mundo moderno, coalhado de guerras e estranhamento com o mundo árabe.
 
Zhang-ke faz também um giro reflexivo, mais uma vez em torno de seu grande país, revisitando tanto seu filme anterior, As Montanhas se Separam (2015), quanto outros mais antigos, caso de Em Busca da Vida (2006) – neste caso, até porque revisita o emblemático cenário da barragem das Três Gargantas. Ao contrário de Godard, o cineasta chinês não está buscando um choque de referências e sim uma análise sobre o processo histórico em seu país, focalizando mais uma vez a ocidentalização e a virada capitalista dos anos 2000.
 
Passagem do tempo
Á medida que entra na maturidade – Jia completa 48 anos no próximo dia 24 –, o diretor torna-se cada vez mais cético, centrando sua história em torno da admirável Zhao Tao, sua mulher e atriz-fetiche. Sua personagem compõe um denso arco ao longo dos cerca de 18 anos que atravessa, passando de namorada mimada de um chefete gângster (Liao Fan) a uma mulher endurecida, comandando seu próprio negócio no mundo do jogo.
 
O rosto de Zhao Tao é uma espécie de mapa emocional de Ash is Purest White, alternando as notas emocionais que a percorrem, do amor à decepção, do conformismo à raiva, incorporando também momentos de humor e doçura. Este rosto atravessa também muitas paisagens da China, nas quais Zhang-ke edifica sua reflexão sobre o que se tornou, afinal, este país que impressiona o mundo todo e permanece uma espécie de continente à parte – não isolado, no entanto, do Ocidente, como o filme mostra de várias maneiras, incluindo as impagáveis passagens musicais pop, que vibram de maneira peculiar, satírica e também pungente.
 
Como em As Montanhas se Separam, há uma história de amor fraturada no centro de tudo, carregada de amargura e realismo. As sequências de violência, como lutas de gangues, são de um realismo impecável, dignas de um filme policial – uma qualidade que Zhang-ke veio aperfeiçoando ao longo dos anos. Mas, acima de tudo, Ash is Purest White mais parece um espelho oriental colocado diante do Ocidente, que exporta suas modas, estilos musicais e o onipresente capitalismo. Neste sentido, o filme de Zhang-ke encontra uma ligação com o russo Leto, de Kirill Serebrennikov – aqui na batida pop ocidental na veia de uma banda de Leningrado dos anos 1980.
 
Seria muito emblemático se o júri presidido por Cate Blanchett atribuísse a Palma a um diretor preso em seu país, como Serebrennikov – sobre cuja libertação pipocaram placas por toda a parte, assim como pela liberação de outro cineasta ucraniano preso, Oleg Sentsov (Gamer). De todo modo, amanhã (13) cedo passa por aqui o concorrente de outro prisioneiro político, o iraniano Jafar Panahi, que envia desta vez Se Rokh (3 Visages), seu quarto longa desde 2011, realizado depois do processo, a prisão domiciliar e a proibição de filmar determinada pelo regime dos aiatolás. Com seu trabalho circulando por aqui, a palavra de ordem é resistência.

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