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"Plaire, aimer et courir vite" relembra auge da AIDs em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes – Primeiro filme francês da competição cannoise, Plaire, Aimer et Courir Vite, de Christophe Honoré, ofereceu mais do mesmo da obra do diretor de Canções de Amor (2007) e Em Paris (2006). Ou seja, uma espiral um tanto barroca de relacionamentos, neste caso, de alguns homossexuais vivendo o início da dramática década de 1990, em plena explosão da AIDS.
 
Pelo tema, o filme dialoga com 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo aqui vencedor do Grande Prêmio do Júri e do prêmio FIPRESCI em 2016, com a diferença de que aquele filme fechava o foco na militância do Act Up em Paris, destacando algumas trajetórias individuais. Como seria de se esperar de Honoré, o que lhe interessa são precisamente as histórias individuais, partindo de Jacques (Pierre Deladonchamps). Entrando na meia-idade, este escritor é um homem livre, cujo ex-parceiro está gravemente doente – projetando a sombra de morte que paira por toda a história que, apesar de tudo, procura frestas de luz no comportamento de pessoas obrigadas a conviver com limites.
 
Mesmo diante dessa ameaça, Jacques resiste a abrir mão de seu modo de vida, buscando paixões sem pretender realmente envolver-se a sério com mais alguém – não são tempos de sonhar com um longo futuro. Numa viagem de trabalho à Bretanha, ele encontra o jovem Arthur (Vincent Lacoste), apaixonado por literatura e vivendo uma vida medíocre como coordenador de um acampamento infanto-juvenil. O terceiro elemento importante deste grupo é Mathieu (Denis Podalydès), vizinho e melhor amigo de Jacques, que entra de tempos em tempos na história como alívio cômico mas também, finalmente, com uma participação crucial em outra direção.
 
Pela abordagem desta época e pelas interpretações dedicadas de seus atores, o filme certamente tem sua legitimidade e relevância. Seria melhor, no entanto, se Honoré fosse um pouco menos egoico e rococó no seu estilo, economizando extensões que retiram força até ao que pretende dizer. Ele leva seus personagens a como que fazer piruetas dentro de situações, esticando a duração do filme a um pouco mais de duas horas de um modo que esse tempo se faz sentir. Mas, de todo modo, é por isso que muitos apreciam o seu cinema. Críticos, mesmo franceses, como da revista Première, no entanto, acham que ele “perdeu o fôlego” neste novo trabalho.
 
Poderia fazer a história respirar abrir um pouco o foco da história. O pai de Jacques, por exemplo, de quem se diz que ele depende economicamente e com o qual tem divergências, afinal, nunca aparece. Quem sabe sua inclusão ampliaria os modos de ver o protagonista, saindo um pouco de suas aventuras amorosas e de suas DRs.
 
Por outro lado, o desenho da pequena comunidade bretã de onde vem Arthur é interessante. Pena que a personagem feminina local, Nadine (Adèle Wismes) – que tem uma paixão impossível por este seu amigo –, não seja suficientemente desenvolvida, assim como outra mulher da história, amiga de Jacques com quem ele teve um filho, Loulou. Evidentemente, as duas personagens são secundárias, mas uma certa ampliação de diversidade poderia tornar o filme mais rico, mais coral. Enfim, Honoré se repete em seu cinema autocentrado, retratando um universo bem específico, que fala a um público idem.

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