Cannes 2019

Brasil ganha prêmio do júri com "Bacurau". Palma vai para Coreia do Sul

Neusa Barbosa, de Cannes

Afinal, a decisão do júri presidido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu acertou em cheio na Palma de Ouro, que foi entregue ao sul-coreano Bong Joon-Ho e seu extraordinário Parasite - o filme mais forte, provocativo e criativo de uma edição em que a seleção principal foi, de modo geral, bastante boa. O prêmio para a Coreia do Sul teve, também, um sabor de vingança - afinal, no ano passado, Em Chamas, de Lee Chang Dong, era um dos favoritos e ficou com uma premiação apenas da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos).

Para o Brasil, a 72ª  edição vai ficar na história também, pelo Prêmio do Júri dado a Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, um filme estranho, que revisita gêneros, embaralha referências, mas fala de mal-estar, de uma comunidade de gente trabalhadora assediada por matadores, políticos desonestos e toda série de males, mas preserva uma integridade na sua união e na resistência. Dornelles, no agradecimento do prêmio - que foi dividido com o francês Les Misérables, de Ladj Ly -, falou em português, agradecendo “todas as pessoas que, dentro ou fora do Brasil, trabalharam duro para que o filme ficasse pronto e fosse honrado desta maneira”. O diretor arrematou dedicando o prêmio a “todos os trabalhadores da educação, da ciência e da cultura do Brasil”.

Na coletiva de imprensa, após a premiação, perguntaram aos diretores se eles repetiriam o gesto do francês Ladj Ly, que convidou o presidente francês Emanuel Macron a assistir seu filme. Kléber achou   "uma grande ideia" convidar o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, a ver Bacurau. "Quem sabe ele pode até gostar",

O prêmio a Bacurau soma-se ao principal troféu da seção Un Certain Regard, entregue a Karim Aïnouz e seu melodrama  A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Foi, certamente, uma edição muito feliz para o Brasil, que não vencia um prêmio aqui desde 2008, quando Sandra Corveloni ganhou o prêmio de melhor atriz por Linha de Passe, de Daniela Thomas e Walter Salles.

A América Latina ainda arrebatou o importante Caméra d’Or para a Guatemala, com César Díaz, que já vencera na Semana da Crítica, levando o prêmio destinado a iniciantes pelo drama Nuestras Madres.

Atores

Concorrendo pela sexta vez, Pedro Almodóvar mais uma vez não levou sua Palma pelo excelente Dor e Glória, mas ficou para a Espanha o troféu de melhor ator, para Antonio Banderas, fazendo um trabalho empenhado e profundo como um cineasta em crise, atormentado por problemas físicos, que acerta as contas com seu passado. No agradecimento, Banderas só teve palavras para Almodóvar: “Conhecemo-nos há 40 anos, fizemos tantos filmes juntos. Eu o respeito, admiro, amo, é meu mentor”.

Foi mais inesperada a premiação da inglesa Emily Beecham, protagonista da ficção fantástica de horror Little Joe, da austríaca Jessica Hausner. A maioria dos críticos achava que esse prêmio seria destinado a uma das atrizes da produção francesa de época Portrait d’une Jeune Fille en Feu, de Céline Sciamma - que acabou tendo de contentar-se com o prêmio de melhor roteiro. 

Pior foi para o norte-americano Quentin Tarantino, que comemorou este ano os 25 anos da Palma de Ouro para Pulp Fiction, mas não levou nada para o novissimo Once Upon a Time in Hollywood

Celebradíssimos em Cannes, onde já venceram duas Palmas de Ouro, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne venceram pela melhor direção no drama Le Jeune Ahmed - um filme que, apesar de não demonstrar a mesma eficiência dramática de outros trabalhos (O Filho, A Criança), ousa tomar o pulso de um inquietante dilema moderno - a radicalização de um adolescente muçulmano em plena Europa.

Em compensação, foi para uma estreante, a senegalesa Mati Diop - primeira cineasta negra indicada à Palma - e seu drama social-fantástico Atlantique o importante Grande Prêmio do Júri, fortalecendo este cinema que vem de fora da Europa e dos EUA, trazendo outros olhares para dentro do cinema.

Também manifestou inegável sentido político o júri principal criar um prêmio fora do protocolo, a Menção Especial para o realizador palestino Elia Suleiman e seu novo e criativo It Must Be Heaven - em que ele manifesta, mais uma vez, sua inquietação pela busca de uma identidade, um lugar, para o seu povo, pela chave do humor, da poesia e de uma inegável melancolia.

Entre os curtas, a Palma de Ouro ficou para The Distance Between Us and the Sky, de Vassilis Keratos, com uma Menção Especial ao argentino Monstruo Dios, de Agustín San Martin.

Na seção Cinéfondation - que examina trabalhos de conclusão de alunos de escolas de cinema -, os premiados foram Mano a Mano, de Louise Courvoisier, Hiéu, de Richard Van, Ambience, de Wisam Al Jafari, e Duszyczka, de Barbara Rupik.


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