Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Mostra: Retratos adolescentes da Austrália, Holanda e Uruguai

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

 Três filmes de estreantes, participantes da Competição Novos Diretores da Mostra, são destaques na programação desta segunda (20): “Dente de Leite”, da australiana Shannon Murphy, exibido em Veneza; “Meu verão extraordinário com Tess”, do holandês Steven Wouterlood; e “Os Tubarões”, da uruguaia Lucía Garibaldi, premiada em Sundance. 

Dente de leite
O drama de estreia no cinema da diretora australiana Shannon Murphy é um dolorido ritual de despedida em torno da adolescente Milla (a estreante Eliza Scanlen). Gravemente doente, ela é observada de perto por seus pais disfuncionais, o psiquiatra Henry (Ben Mendelsohn) e a ex-musicista Anna (Essie Davis), que a vêem escapar de suas mãos dia a dia. Não só por conta da doença. Milla tem 16 anos e não está disposta a desperdiçar nenhuma de suas energias negando-se a suas experiências de adolescente, sejam lá quais forem. Quando ela conhece Moses (Toby Wallace), um rapaz de 23 anos com um histórico de envolvimento com drogas,o círculo se fecha em torno deste amor turbulento. 
Marinheiras de primeira viagem, a diretora e sua roteirista, Rita Kalnejais, injetam sangue novo nas trilhas de um melodrama em torno de doença mas, não raro, desperdiçam energias em incidentes que nada somam à trama principal - como a presença de uma vizinha grávida e um professor de música, que não entram organicamente na história. A própria câmera, com cortes eventualmente bruscos demais, não funciona tão bem, especialmente na primeira metade do filme.
Com experiência anterior em teatro e séries de TV, e também como atriz, a diretora parece ter experimentado um pouco neste novo meio, nem sempre com sucesso. Nem por isso o filme deixa de ter qualidades, especialmente quando deixa a história correr mais livremente no círculo familiar de Milla, ao qual se soma, meio a contragosto, o agregado Moses. Especialmente na parte final, crescem muito as atuações de Ben Mendelsohn e Essie Davis, ao se despirem de suas excentricidades histéricas e encararem, finalmente, o grande drama de suas vidas desenrolando-se diante de seus olhos. Na pele de Milla, Eliza Scanlen também tem seu atrativo, como uma jovem que não renuncia a um único minuto do ar que tem à disposição para respirar. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 1                              21/10/19 - 16:20 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   22/10/19 - 19:40 
CINESALA                                25/10/19 - 17:50 
CINESESC                                30/10/19 - 20:15 
 
Meu verão extraordinário com Tess
Um delicado retrato da adolescência emerge deste primeiro longa do diretor holandês Steven Wouterlood, cujo roteiro inspira-se num livro de Anna Woltz. Sam (Soony Coops van Utteren) tem 12 anos e é o caçula de uma família, obcecado pela ideia de, por ser o mais novo, ser provavelmente o último a morrer; portanto, ele imagina que vai ficar sozinho no mundo. Por conta disso, diariamente ele se entrega a “exercícios de solidão”, treinando para esse futuro em que seus próximos não estarão mais ali.
De férias na praia, numa ilha, com os pais e um irascível irmão maior, Jorre, Sam conhece uma garota de sua idade, Tess (Josephine Arendsen), que vive sozinha com a mãe. Ela é, em tudo, o oposto dele, desinibida, cheia de ideias. E também ansiosa para descobrir quem é realmente seu pai. Segundo o que ela investigou, ele seria um certo Hugo Faber que, através da internet, ela tramou secretamente para trazê-lo à ilha. 
Toda essa tramoia tem alguma cumplicidade de Sam e desencadeia uma série de incidentes mais ou menos engraçados, sem que nunca se deixe de lado o quanto esta história é importante para Tess. O ponto de vista aqui é decididamente o destes adolescentes, que são instáveis, contraditórios mas bastante sensíveis, suscitando empatia dos espectadores adultos que, finalmente, se lembrarem de como eram na mesma idade. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   21/10/19 - 13:30 
SESC OSASCO - CINE CHAPARRAL            24/10/19 - 20:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   28/10/19 - 19:30 
 
Neutra - Sobrevivência através do design
Indicado para quem se interessa por arquitetura moderna, o documentário de PJ Letofsky desenvolve suas pesquisas em torno do trabalho de uma dupla de arquitetos, Richard Neutra e Dion Neutra, pai e filho. O pai, um judeu austríaco, amigo de Sigmund Freud e com uma sólida formação modernista, radicou-se nos EUA, para onde foi em 1924, trabalhando a princípio com Frank Lloyd Wright. Nas próximas décadas, Neutra produziria diversos projetos de casas, sozinho ou em parceria com outros arquitetos, que são visitadas ao longo do filme, ilustrando à perfeição suas técnicas extraordinárias. 
O documentário é enriquecido pelo detalhamento da parceria entre pai e filho, que mantiveram um escritório juntos mas, num determinado momento, tiveram conflitos que os separaram. O filme apresenta os trabalhos dos dois, tanto nos EUA, quanto na Europa, discutidos em entrevistas com diversos especialistas, fornecendo um panorama riquíssimo para ilustrar talentos que viajaram em direções diferentes. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 2                              21/10/19 - 18:10 
CIRCUITO SPCINE OLIDO                   22/10/19 - 15:00 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   29/10/19 - 14:00 

Frankie
O filme do diretor norte-americano Ira Sachs competiu na seção principal de Cannes 2019 e tem no elenco uma de suas atrações mais vistosas - sem contar as paisagens belíssimas nos arredores de Sintra, Portugal, onde foi filmado. 
Frankie (Isabelle Huppert) é a matriarca de uma família que vai se reunir toda nesse lugar belíssimo. O motivo, que vai sendo esclarecido aos poucos, tem a ver com a saúde de Frankie e acertos que ela pretende fazer com seus parentes. Ao seu lado, está seu marido bonachão, Jimmy (Brendan Gleeson), que procura acomodar conflitos e desejos em torno das vontades da mulher, que ali convocou também seu ex (Pascal Greggory), pai de seus filhos, como o problemático Paul (Jérémie Rénier). 
Além de parentes, virão também sua cabeleireira (Marisa Tomei), vivendo uma crise com seu parceiro (Greg Kinnear). Eventualmente, até questões da vida de um guia turístico local (Carlotto Cotta) entram pelo tecido deste filme-coral, que enfatiza o entrelaçamento destes interesses familiares, das disputas humanas em torno de qualquer coisa. 
É um estilo diferente de história para este diretor, conhecido por O amor é estranho (2014) e Deixe a luz acesa (2012). (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   21/10/19 - 15:00 
CINESALA                                24/10/19 - 21:40
RESERVA CULTURAL - SALA 1               29/10/19 - 18:00
 
Lillian 
O diretor austríaco Andreas Horvath é conhecido por documentários, como Helmut Berger, ator (20150. Lillian é seu primeiro trabalho em ficção e, mesmo assim, está calcado na vida real. Ficcionaliza a trajetória de Lillian Alling (Patrycja Planik), uma imigrante russo-ucraniana que viaja para os EUA, em busca do sonho de tornar-se modelo. O fracasso em suas investidas, além do vencimento de seu visto, abrem para ela a perspectiva de voltar ao seu país. Como ela não tem dinheiro, resolve atravessar o caminho a pé, partindo de Nova York até o Alasca.
O filme de Horvath imagina este trajeto em que Lillian caminha o tempo todo sozinha, enfrentando as intempéries do clima e as dificuldades de conseguir roupa e alimentos, além da dificuldade de comunicação - ela não fala praticamente nenhum inglês. Ela recorre a instituições de caridade ou mesmo roubo, tentando fugir de contato com estranhos, que podem tornar-se violentos com ela. Uma exceção é um contato com um xerife, um encontro que serve para colocar no filme o despreparo da burocracia oficial diante de questões humanas. 
As imagens desta viagem ao longo dos EUA, entrando no Canadá, são de uma beleza incrível, ressaltando a solidão de Lillian. Mas é um filme difícil, especialmente pela duração e pela quase total ausência de diálogos. Ainda assim, ou por isso mesmo, é estranhamente comovente. Talvez somente o segmento final, de caçadores de baleias no Alasca, se mostre um tanto dispensável. (Neusa Barbosa
 
RESERVA CULTURAL - SALA 1               21/10/19 - 21:50 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   25/10/19 - 21:20

Os tubarões
A jovem diretora uruguaia Lucía Garibaldi foi consagrada logo em sua estreia com o prêmio de melhor direção na seção World Cinema em Sundance, além de Prêmio Especial do Júri nos festivais Bafici (Buenos Aires) e Guadalajara (México).
Com um estilo despojado que lembra às vezes a argentina Lucrécia Martel, Lucía desenvolve a história de Rosina (Romina Bentancur), de 14 anos. Ela vive numa cidadezinha litorânea, numa família em dificuldades financeiras. Para ajudar o pai, ela o acompanha em suas tarefas de manutenção de propriedades dos mais ricos, ajudando na jardinagem. 
A equipe do pai é toda formada de homens mais velhos. Entre eles, está Joselo (Federico Morosini), rapaz por quem Rosina se interessa. Esta paixonite adolescente é o motor de uma série de atitudes intempestivas da aparentemente calma Rosina - uma garota com um enorme turbilhão interior, que não encontra cumplicidade na mãe (Valeria Lois), nem na irmã mais velha, que há pouco tempo Rosina machucou.
A pequena cidade está abalada pelo boato de que há tubarões naquela praia - um problema e tanto para uma localidade que vive do turismo. A ameaça dos predadores marinhos é também uma poderosa metáfora para os sentimentos atravessados da menina, que se entrega a inúmeras maquinações. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   21/10/19 - 19:30 
CINEARTE 2                              23/10/19 - 22:00 
CIRCUITO SPCINE OLIDO                   25/10/19 - 19:10 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP     30/10/19 - 17:00 

As Protagonistas
Nesta segunda, a partir das 20h, no Cinesesc, será exibido o episódio 3 da série As Protagonistas, da cineasta Tata Amaral,  que irá estrear em 2020, abrindo o I Fórum Nacional Lideranças Femininas no Audiovisual. Em seguida, haverá uma exposição dos principais achados da pesquisa empreendida pela cineasta e sua equipe. O evento faz parte da programação da Mostra.
As Protagonistas é uma série com 13 episódios que conta a história do audiovisual brasileiro a partir da produção das cineastas mulheres, desde o início da história do cinema brasileiro até os dias de hoje. A produção é da Tangerina Entretenimento e estreará no canal CineBrasil TV em 2020.
O episódio exibido traz as protagonistas Adélia Sampaio, Helena Ignez, Helena Solberg, Heloísa Buarque de Hollanda, Lygia Pape, Ana Maria Veiga, Ana Carolina, entre outras. Ele revela o início da trajetória destas cineastas, sua relação com o Cinema Novo e como elas se afirmam como autoras através de uma linguagem original e inédita. Conta também algumas histórias de bastidores e o processo criativo dos filmes.  
 
Fórum
 
O I Fórum Nacional Lideranças Femininas no Audiovisual vai reunir nos dias 21 e 22 de outubro expoentes desse movimento em diversos estados para compartilhar informações e propor uma agenda de ações para 2020 para a construção de um futuro de mais e melhores oportunidades para as mulheres do audiovisual brasileiro.
 
I Fórum Nacional Lideranças Femininas no Audiovisual faz parte da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com o apoio da SPCINE e do SESC, com a parceria da ONU Mulheres e a participação de diversas entidades do setor."
 
CINESESC - 20h
Entrada Gratuita
 
Acima das nuvens/Personal Shopper
Kristen Stewart pode não ter começado sua carreira com a série Crepúsculo – ela já havia feito, por exemplo, antes O quarto do pânico, como a filha de Jodie Foster – mas foi aí que ela ganhou admiradores e detratores. Entretanto, foi mas mãos de Olivier Assayas que ela se graduou como um atriz respeitada, tornando-se até a primeira norte-americana a ganhar um César (uma espécie de Oscar francês). É possível ver/rever na Mostra, na retrospectiva em homenagem ao diretor, as duas parcerias da dupla.
 O primeiro filme que fizeram juntos foi Acima das nuvens, de 2014. Ela interpreta a assistente pessoal de uma atriz de meia-idade, Maria (Juliette Binoche), em crise. Stewart não é a protagonista mas, de certa forma, é a força motora da trama, dada a codependência entre as duas. A personagem central é incapaz de fazer algo sem o apoio da outra. Por isso, a história sofre uma quebra quando garota sai de cena.
 Curiosamente, o filme seguinte de Assayas/Stewart foi o polêmico Personal Shopper, que rendeu ao cineasta o prêmio de direção em Cannes, em 2016. Aqui a atriz é novamente uma assistente, desta vez elevada à categoria de protagonista. Seria a mesma personagem com outro nome? Há quem defenda tal teoria, mas isso não é bem o que importa.
Sua personagem, cuja profissão dá título ao filme, trabalha para uma übermodel, Kyra (Nora von Waldstätten), tendo como tarefas, entre outras coisas, carregar roupas e joias caras para a patroa de um lado para outro. Quando esta aparece morta, a vida da garota também desmorona. Ela já enfrentava uma grande perda: o irmão gêmeo, com quem parece se comunicar.
Ambos os roteiros foram escritos por Assayas e trazem coisas em comum, não apenas a presença de Stewart: a investigação de um mundo dividido entre aparência e essência. Nos dois, também, fantasmas – reais e metafóricos – assombram: seja o peso da idade ou o irmão morto. 
É nesses filmes mais intimistas – ao contrário das aspirações épicas de Wasp Network – que Assayas está mais à vontade. Sua exploração de um microcosmo ecoa o estado do mundo. Acima das nuvens pergunta-nos sobre a transformação da arte em mercadoria – ingenuidade achar que alguma vez, na sociedade capitalista, foi diferente –, enquanto em Personal Shopper estamos diante da mercadoria enquanto fetiche. Colocando os dois lado a lado – embora seja bem possível que nem tenham sido pensados como um díptico –, temos um questionamento sobre como aquilo que tomamos como libertador é fruto de relações de exploração. Fora isso, temos também Stewart reveladora em suas interpretações contidas. Foi nestes filmes que descobrimos uma atriz de nuances e habilidades nem sempre valorizadas. Desde então, fez filmes com Woody Allen e Ang Lee e, em breve, estará nas telas na nova geração de As panteras – ou seja, é eclética em suas escolhas. (Alysson Oliveira
 
Acima das nuvens
 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS - 21/10/19 - 17:15 
 
Personal Shopper
RESERVA CULTURAL - SALA 1 21/10/19 - 14:00
CINEARTE 1 - 27/10/19 - 16:30

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