Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Primeiro fim de semana na Mostra tem novidades de Tribeca, Finlândia, Portugal e do Brasil

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

O primeiro final de semana da Mostra tem atrações de sobra, como os premiados Devorar - prêmio de melhor atriz em Tribeca - e O jovem Ahmed - melhor direção em Cannes 2019 para os irmãos Dardenne, além das surpresas Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (Portugal), Aurora (Finlândia), A Vida Irregular de Juice Leskinen (Finlândia) e dois ótimos documentários brasileiros. Confira os detalhes: 
 
Devorar
A protagonista começa a expressar sua aflitiva compulsão por engolir coisas com uma pequena fubeca – logo expelida – até objetos ainda mais perigosos, como uma pilha e alfinetes. É, de certa forma, a metáfora que o diretor Carlo Mirabella-Davis usa para que sua personagem, Hunter (interpretada com brio e coragem por Haley Bennett, premiada no Festival de Tribeca), enfrente o patriarcado.
O filme começa com o noivado dela com Richie (Austin Stowell), playboy arrogante que subiu na vida cuidando das empresas do pai. Eles são um casal perfeito: lindos, felizes e morando numa casa invejável. O figurino de Hunter, não por acaso, lembra roupas dos anos de 1950, quando o padrão imposto às mulheres era tornarem-se donas de casa (até o aspirador de pó dela é retrô). Entediada, a protagonista tenta achar formas de passar o tempo, até que engravida.
A primeira manifestação do seu transtorno é quase banal. Durante um jantar, ela conta uma história, quando é interrompida e ninguém mais a ouve. O gelo, ali no copo, tão convidativo, é sedutor. Ela devora, de maneira banal, uma pedra de gelo. Depois começa a compulsão por outros objetos. A descoberta dessa compulsão é por acaso, durante um ultrassom.
A partir daí, a vida de Hunter se torna um inferno. Engolir objetos foi a forma de retomar posse de seu próprio corpo mas, quando o distúrbio é diagnosticado, seu corpo deixa completamente de ser seu: ela é medicada, tratada, vigiada por um enfermeiro (Laith Nakli) – tudo para protegê-la dela mesma. O que há por trás da fachada envernizada da família – que inclui o casal de sogros (David Rasche e Elizabeth Marvel) – é a opressão que obriga a protagonista a fazer o jogo das aparências.
É bem verdade que Mirabella-Davis, também autor do roteiro, simplifica questões psicológicas do transtorno e também força nas explicações (nem tudo é tão direto como ele coloca), mas a função disso é por um bem maior: investigar a dinâmica dos papéis de gênero na sociedade contemporânea. Hunter é a esposa-modelo – com figurino e maquiagens impecáveis, até um jeitinho meio infantil e submisso de falar – que vai sendo abandonado na medida em que toma posse de si mesma.
O filme chega perto da sátira, mas é no suspense que o diretor finca o pé, resultando em momentos aflitivos e angustiantes. A jornada de Hunter não teria como ser de outro jeito, e, a cada passo, é um elo da corrente de opressão que vai sendo quebrado. Os momentos finais são corajosos, apontando para novas possibilidades – não apenas para Hunter, mas para todas as novas gerações de mulheres, cada vez mais conscientes de (e lutando por) seus direitos. (Alysson Oliveira)
 
CINESALA - 19/10/19 - 17:50
CINEARTE 1 - 23/10/19 - 22:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 26/10/19 - 14:00
 
O último amor de Casanova
Giacomo Casanova é um personagem recorrente do cinema – especialmente em sua juventude como libertino. Em O último amor de Casanova, porém, o veterano diretor francês Benoît Jacquot opta por um outro momento da vida do conquistador: a velhice deste homem, interpretado por Vincent Lindon, mais conhecido por personagens menos glamorosos, da classe trabalhadora, como no recente Em Guerra. É, obviamente, uma escolha ousada de casting, na tentativa de levar o personagem a outro lugar dramatúrgico.
Exilado, o protagonista vai para Londres de meados do século XVIII, onde convive com uma aristocracia tola, narcisista e superficial – nada de novo até aqui. Mas uma jovem chama sua atenção: Marianne de Charpillon (Stacy Martin), que se mostra uma mulher, como dizem, de moral duvidosa, a quem os homens ricos evitam socialmente mas frequentam às escondidas. É por ela que Casanova se apaixona, parecendo viver uma sentimento numa voltagem que ele desconhece.
Se a paixão é intensa, o filme de Jacquot nem tanto. Há um peso do tempo que o diretor, que tem em seu currículo Adeus, Minha Rainha e 3 Corações, não consegue evitar. Não que fosse necessário atualizar o personagem ou trazer toques contemporâneos, mas seria mais interessante, dada a proposta aqui, dessacralizar Casanova, tirar de cima dele o peso dos anos e buscar uma figura mais humana. Isso é até tentado, mas sem sucesso. O resultado é um filme curiosamente frio, cujo assunto é uma paixão ardente.
Jacquot está bastante interessado nas dinâmicas sociais, nos laços indecorosos que eventualmente unem as pessoas entre quatro paredes. O último amor de Casanova é assumidamente um filme melancólico, incapaz de jogar uma luz sobre Marianne de Charpillon. Isso faz sentido, é claro – a narrativa é a partir do ponto de vista do protagonista, que nunca compreendeu, nem possuiu de verdade, essa mulher – mas nos deixa um tanto alienados, sem compreender o que ele viu nela para despertar algo tão intenso. (Alysson Oliveira)
 
CINESALA                                19/10/19 - 21:50
CINESESC                                21/10/19 - 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 23/10/19 - 22:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   27/10/19 - 17:20
 
Tristeza e alegria na vida das girafas
O cinema português, não raro, tem nos brindado com surpresas, com produções que se lançam ao risco, como é o caso desta, dirigida por Tiago Guedes. Baseado numa peça de Tiago Rodrigues, o enredo desenvolve a história de uma garota muito esperta (Maria Abreu), órfã de mãe e cujo pai (Miguel Borges), é um ator desempregado. Num clima de realismo mágico impregnado de melancolia e de um sutil humor, acompanhamos o cotidiano dessa menina, para quem o pai “interpreta” o papel da mãe, que era escritora, para ambos lidarem com a sua ausência. Também assistimos às conversas da menina com seu melhor amigo, um “ursinho” (Tonan Quito), chamado Judy Garland e cujo vocabulário é recheado de palavrões. É uma história provocativa e encantadora sobre este universo infantil, que é exatamente o que retrata, como se estivéssemos enxergando o mundo pelos olhos dessa garota – que é a “girafa” (porque é bastante alta para sua idade). Poucas vezes vemos a infância retratada por um prisma tão rico e imaginativo, desafiando clichês sobre esta fase da vida, normalmente adocicados demais. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 1                              19/10/19 - 18:50
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   20/10/19 - 15:10
CINEARTE 2                              23/10/19 - 17:50
RESERVA CULTURAL - SALA 1               30/10/19 - 20:00
 
A vida irregular de Juice Leskinen
O longa finlandês ficcionaliza a cinebiografia de um famoso roqueiro daquele país, Juice Leskinen (1950-2006). Apesar de não saber nem querer cantar, ele é um profícuo letrista, que acaba conseguindo seu lugar ao sol na cena musical do final dos anos 1960, quando entra numa banda e tem sucesso. Sua vida pessoal, no entanto, é cheia de altos e baixos com as mulheres de sua vida, como a mãe, que vive jogando-o para baixo e sua amada Marja, com quem ele mantém um relacionamento turbulento. Mas o grande problema de Juice foi, como tantos outros artistas, um componente autodestrutivo – ele bebia demais.
Traça-se  um interessante retrato de época da Finlândia, mostrando peculiaridades de um país que conhecemos pouco e que, na época abordada, tinha uma série de pontos em comum com o que acontecia na cena pop do resto do mundo, reinterpretando-a na sua própria chave.
O diretor do filme, Teppo Airaksinen, concorreu à Palma de Ouro na categoria de curta-metragem em 2017, com Ketto. (Neusa Barbosa)
 
RESERVA CULTURAL - SALA 1               19/10/19 - 16:00
PETRA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS     23/10/19 - 21:40
CINESALA                                25/10/19 - 20:10
 
Aurora
O segundo longa da diretora finlandesa Miia Tervo é um atraente e divertido estudo de uma adorável e contraditória personagem feminina – Aurora, uma manicure que sonha em mudar-se para a Noruega mas não tem a menor perspectiva de fazê-lo. Seu pai é alcoólatra e ela também bebe demais. Mas é uma figura engraçada, vivaz, espirituosa e que um dia conhece um refugiado iraniano, Darian, que tem uma filha de 8 anos.
O destino destes dois se cruza e Aurora, uma boa samaritana, empenha-se em arrumar um casamento de conveniência para Darian, o que lhe permitirá ficar legalmente na Finlândia. Como ele lhe pagará pelo serviço, ela pensa que poderá realizar o sonho de mudar de país.
Aurora é um furacão, meio doidinha, mas uma mulher fascinante também – e não é segredo que Darian tem uma certa queda por ela. Mas o romance tem seus percalços, numa história cômica que incorpora oportunos comentários sobre a situação instável de estrangeiros refugiados na Europa. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   19/10/19 - 19:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   20/10/19 - 15:50
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 25/10/19 - 17:40
INSTITUTO CPFL - SALA UMUARAMA          27/10/19 - 19:00
 
O humorista
Que tipo de humor era possível fazer na União Soviética agonizante?, pergunta o roteirista e diretor estreante Michael Idov, em O humorista, uma comédia dramática na qual o ator Aleksey Agranovich brilha como o personagem-título. Boris Arkadiev é um comediante que vive apresentando um número em que conta a história de um macaco e é tão querido que nem ele aguenta mais, de tantos anos que é obrigado a repeti-la. Ele pensa em mudar, mas o público sempre pede a mesma história que, aliás, abre o filme. Fora isso, ele precisa submeter seus textos a um comitê de censura para aprovação.
Mesmo bem-sucedido, ele não é feliz – tentou ser escritor, mas seu romance foi um fracasso. No fundo, ele é um poço de insegurança e medo. A repressão está bem ali ao lado, e qualquer batida na porta do apartamento de sua família à noite pode ser a KGB. Um amigo, o ator Max (Yuri Kolokolnikov), que acabou de voltar de uma visita oficial aos EUA, conta que lá os comediantes têm liberdade de fazer as piadas que quiserem e como quiserem.
A verdade é que ele vive uma crise, não se sente mais motivado a fazer humor, o momento político parece não permitir isso – suas piadas, tanto quanto seu sucesso, são mediadas pelo governo soviético decadente. Uma das melhores cenas é quanto é levado pela KGB – não está sendo preso – para um estúdio, no qual, via satélite, contará aos astronautas no espaço sua velha história do macaco. E ele foi pessoalmente requisitado por um dos cosmonautas. A compreensão de Boris é de que seu público está diretamente ligado à política.
Idov, que tem em seu currículo o roteiro de Verão (exibido na Mostra de 2018), estreia na direção com segurança. Sua experiência como escritor permite armar um filme cuja estrutura se revela aos poucos até um clímax, numa sauna, que remete a Júlio Cesar. O humorista é um filme de momentos de humor mais sutis do que rasgados, mas que olha para o passado tentando compreender o presente. Muito consciente e crítico da Rússia atual – o diretor já trabalhou como jornalista e um de seus livros se chama Desventuras na Moscou de Putin -, Idov procura os elementos que permanecem na sociedade de seu país. O resultado é um filme curioso e potente, que tem muito o que dizer a plateias de diversos cantos do mundo – especialmente àquelas conscientes de que o humor pode ser uma forma eficiente de protesto. (Alysson Oliveira)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS - 20/10/19 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 23/10/19 - 18:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 24/10/19 - 14:00
 
Banquete Coutinho
Intercalando imagens de vários filmes de Coutinho, como Cabra Marcado para Morrer, Santo Forte, Edifício Master, Jogo de CenaMoscou e até do curta de formatura do diretor no IDHEC francês, Banquete Coutinho traz de volta momentos preciosos do maior documentarista brasileira, morto há 5 anos.
Resistindo às investidas do entrevistador, o diretor estreante Josafá Veloso - que insiste em formular uma tese de que todos os filmes de Coutinho seriam, na verdade, um único filme, retomado muitas vezes -, Coutinho se coloca diante da câmera com a total consciência de que esta postura o transforma, automaticamente, num personagem de si mesmo.
Com a habitual sinceridade e uma ironia sempre revestida de um humor melancólico, Coutinho dá o melhor de si em comentários sobre o próprio trabalho e sobre atitudes - com a necessidade de fé até para ser ateu, o que ele não tinha - e responde sobre trivialidades, como quando começou a fumar, uma de suas marcas registradas. Até aí, ele destaca a importância do gesto, ele que, em seus filmes, soube valorizar cada um deles em seus entrevistados.
Banquete Coutinho é, mais do que tudo, uma forma de matar a saudade deste cineasta essencial que ele foi, servindo para manter vivo um legado a ser sempre revisitado. Dá vontade de sair correndo e rever todos os seus filmes. A falta que ele nos faz. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   19/10/19 - 13:30
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA     23/10/19 - 14:00
 
Diz a ela que me viu chorar
O longa documental brasileiro, de Maíra Bühler, apresenta personagens atendidos por um projeto social, entre agosto de 2016 e janeiro de 2017, na cidade de São Paulo.
São dependentes químicos de crack que, naquela época, foram beneficiados pela operação Braços Abertos, proporcionando moradia e atendimento social e médico.
 
O documentário tem o mérito de colocar em evidência essas pessoas, que normalmente são invisíveis ou, quando focalizadas, nunca têm sua humanidade reconhecida o suficiente. Aqui, não. São tratados como gente, ouvidos em suas queixas e com seus relacionamentos afetivos postos em primeiro plano. Também fica muito claro o quanto é complicado manter essas relações diante do turbilhão emocional de todos eles. O cotidiano deste hotel, também levando em conta a dificuldade das mediações impostas a assistentes sociais e outros atendentes, é simplesmente avassalador.
 
O filme tem sua força, sem dúvida, nesta exposição de uma situação que tornou-se ainda mais dramática quando sabemos, no final, que o projeto foi simplesmente descontinuado pela administração municipal seguinte. Durante 20 meses, 105 pessoas passaram por ali. Hoje, estão novamente nas ruas de S. Paulo, como todas as sequelas físicas e emocionais. Isto, sim, é aterrador. (Neusa Barbosa)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS    19/10/19 - 21:10
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA     22/10/19 - 20:15
CINESALA                                24/10/19 - 14:00
 
O jovem Ahmed
Sempre muito sintonizados na pulsação social de seu tempo, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne compuseram aqui um filme que se interroga sobre a questão da radicalização de jovens de origem muçulmana na Europa – e que lhes valeu o prêmio de direção no Festival de Cannes 2019.
Ahmed (Idir Ben Addi) é um garoto belga, de origem muçulmana, sendo criado com os irmãos pela mãe separada (Claire Bodson), que não segue a religião. Aos poucos, ele está sendo radicalizado por um jovem imã local e assumindo um comportamento de confronto crescente, tanto com a mãe e pior ainda com a professora, Inès (Myriem Akheddiou) – uma muçulmana liberal.
Esse turbilhão interior na cabeça do adolescente culmina num incidente violento, pelo qual ele vai sofrer uma punição. O roteiro, também assinado pelos Dardenne, explora a história tanto do ponto de vista do garoto como da sociedade belga e seus mecanismos sociais para lidar com uma problemática de alta voltagem como esta.
Donos de duas Palmas de Ouro em Cannes (Rosetta em 1999 e A Criança, em 2005), os experientes diretores belgas são adeptos de uma dramaturgia mais minimalista mas, ainda assim, em comparação, esta obra parece um tanto mais contida, talvez em função de uma tentativa de não acirrar ainda mais os ânimos no contexto atual da Europa. (Neusa Barbosa)
 
RESERVA CULTURAL - SALA 1               20/10/19 - 20:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   22/10/19 - 15:30
CINESESC                                24/10/19 - 16:00
CINEARTE 1                              29/10/19 - 14:30 

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