Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Sessão única de “A vida invisível” e vencedor da Palma de Ouro são atrações da sexta

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Exibido numa única noite, no Teatro Municipal, o concorrente brasileiro a uma vaga no Oscar estrangeiro, que estreia nos cinemas dia 21-11, é a pérola da programação. Mas começam hoje (18) a ser exibidos o sul-coreano “Parasita”, vencedor da Palma de Ouro 2019, e “Wasp Network”, suspense político de Olivier Assayas que adaptou o livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais. 
 
A vida invisível
A sessão única na Mostra, no Teatro Municipal, o filme de Karim Aïnouz, vencedor do prêmio principal da mostra Un Certain Regard de Cannes e indicado do Brasil para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, tem tudo para ser arrepiante.
O diretor Karim Ainouz, adapta o romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, com imensa liberdade e poder de reinvenção. Para o sucesso da empreitada, conta com a cumplicidade de suas protagonistas, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), as duas irmãs que simbolizam as múltiplas faces da feminilidade em perigo, esgarçada por regras, costumes, morais e preconceitos que abatem, em sua época, tantas possibilidades de auto-expressão e livre arbítrio. 
No Rio de Janeiro dos anos 1950, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Júlia Stockler), são duas jovens, filhas de conservadores e rudes pais portugueses, Manuel (António Fonseca) e a submissa Ana (Flávia Gusmão). A ligação visceral das duas irmãs, de personalidades complementares – Eurídice, mais tímida, Guida, mais ousada - é rompida quando Guida parte com um marinheiro grego, Yorgos (Nikolas Antunes).
Toda a expectativa do cumprimento de um destino convencional na época, que prevê marido e filhos, recai sobre Eurídice, que tinha outros planos. Pianista de talento, ela se preparava para um exame que a levasse ao Conservatório de Viena. Mas o sonho fica truncado pela conveniência de um casamento com Antenor (Gregório Duvivier), funcionário do Correio e filho de um amigo da família.
Humorista refinado e bom ator, Duvivier injeta em seu personagem tacanho uma humanidade e até um certo afeto de que ele é desprovido no livro. Esta é uma das muitas liberdades a que o diretor, felizmente, se permite, fazendo a história multiplicar-se em muitas direções. Há, em torno das duas protagonistas que, separadas, se procuram, um núcleo de atrizes fenomenais, caso de Bárbara Santos (como Filomena) e Flávia Gusmão (dona Ana), sem contar a participação especial da experiente Maria Manoella (Zélia), transformada por um penteado e maquiagem que escondem seus traços. Na porção final, Fernanda Montenegro comparece, numa participação luminosa que aumenta a voltagem da emoção. (Neusa Barbosa)
 
TEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO           18/10/19 - 20:30 
Parasita
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2019, o novo filme de Boon Joon-Ho é, provavelmente, um dos grandes filmes do ano, além de uma prova inconteste do vigor do sempre impactante cinema sul-coreano.
Também é o tipo de filme sobre o qual dar spoilers é um crime hediondo. O diretor, conhecido no Brasil por O Hospedeiro e Expresso do Amanhã, é muito seguro na condução de um clima de suspense quando coloca os quatro membros de uma família pobre, desempregada, um a um conseguindo infiltrar-se na casa de uma família rica, os Park. Tudo começa quando o jovem Ki-woo (Woo sik-Choi) torna-se professor particular da adolescente da casa (Jung Ziso).
Logo a seguir, acha uma brecha para que sua irmã (So-dam Park) se torne professora de desenho do garotinho da família (Jung Hyeon-jun) - escondendo dos patrões seu parentesco. Na sequência, seus pais (Kang-ho Song e Hyae Jin Chang) também tomarão os lugares do motorista e da governanta, sem que os Park saibam que são todos parentes.
Há um perverso senso de humor negro nestas maquinações da família pobre, que mora num cortiço, um ambiente que contrasta absurdamente com a ampla e elegante residência dos Park, que foi projetada por um famoso arquiteto. O abismo social e a luta de classes vão assumindo caminhos imprevisíveis, num filme que sonda a emergência econômica e as vilanias humanas em tempos críticos.
Parasita tem um ritmo avassalador, que deixa o público inquieto, pensando - afinal, como tudo isto vai acabar? O filme é uma pancada. Uma não, várias, a ponto de deixar o espectador atordoado, mas feliz, se apreciar o vigor e a criatividade da obra, em que a violência que existe é plenamente justificada. (Neusa Barbosa)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS     18/10/19 - 21:10 
CINEARTE 1                              19/10/19 - 21:20 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  27/10/19 - 21:15 
 
Wasp Network
A esperada adaptação do livro de Fernando Morais, Os últimos soldados da Guerra Fria, teve sua première mundial no Festival de Veneza, foi o filme de abertura da Mostra e terá mais sessões na programação. O diretor francês Olivier Assayas, que tem um pendor político, como visto na série Carlos, retoma a parceria com aquele que nela foi seu protagonista, o venezuelano Edgar Ramírez. Um dos acertos desta produção do brasileiro Rodrigo Teixeira, aliás, foi ter garantido um elenco latino, o que fortalece a credibilidade nos papeis principais, de cubanos ou cubano-americanos. 
A época é os anos 1990, quando o fim da URSS lança Cuba numa grande crise econômica, que conduz a uma leva de imigração de seus cidadãos. Neste contexto, desertam também alguns militares, como os pilotos René González (Ramírez) e Juan Pablo Roque (Wagner Moura), que fogem para Miami. Eles serão rapidamente contratados pelas redes locais de cubano-americanos, que se empenham na derrubada do regime de Fidel Castro, como aquela comandada pelo notório José Basuelto (Leonardo Sbaraglia).
Todas estas operações têm objetivos diversos, numa trama que une espionagem e política, já que Cuba, na época muito dependente de suas receitas com turismo, começa a sofrer atentados em seus hoteis. 
É um enredo intrincado, especialmente para quem não conhece o livro, mas a narrativa, cheia de idas e vindas, procura esclarecer os muitos interesses em jogo, tendo o cuidado de não tomar partido em questões muito incendiárias.
O filme ainda não tem título brasileiro nem data de estreia decididas. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 1                              18/10/19 - 16:30 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   20/10/19 - 21:15 
CINESESC                                26/10/19 - 21:15 
 
Cicatrizes
Feridas históricas e cicatrizes pessoais encontram uma intersecção nesse drama sérvio dirigido por Miroslav Terzić, premiado nos Festivais de Pequim e Las Palmas. No drama contido e melancólico, destaca-se a interpretação interiorizada da iugoslava Snezana Bogdanovic, como uma costureira em busca do corpo de seu filho que, supostamente, morreu ao nascer.
Mesmo quase 20 anos depois do parto, Ana não se conforma com o desaparecimento, acreditando que pode haver por trás algo mais intrincado. Seu inconformismo, no entanto, é fonte de problemas para ela e o marido (Marko Bacovic), um vigia noturno compreensivo e amoroso que tenta tocar a vida, ao contrário de sua mulher, obcecada com o acontecimento do passado. Eles têm uma filha, Ivana (Jovana Stojiljkovic), cuja vida também sofre o peso da perda desse irmão caçula e da negligência de sua mãe com ela, ainda com a ideia fixa em busca do paradeiro do filho.
Com roteiro assinado por de Elma Tataragic (roteirista de Deus é mulher e seu nome é Petúnia, também na seleção da Mostra), o filme transita entre o melodrama e o suspense, apoiando-se na performance intensa em sua contingência de Bogdanovic. A narrativa, por boa parte do tempo, coloca em dúvida a certeza que só ela tem de que seu filho está vivo, até que gradativamente somos convencidos a tomar partido dela. Tachada de louca (ela já foi internada), desacreditada, ameaçada pela polícia e médicos, Ana não consegue encontrar um descanso. Apenas um corpo – vivo ou morto – seria o ponto final.
A trama é baseada em diversas histórias reais de bebês roubados pouco depois do nascimento, numa rede envolvendo funcionários de hospitais e do governo na Sérvia nas últimas décadas do século passado. Estima-se ter havido cerca de 1,5 mil roubos, que nunca foram completamente resolvidos. As histórias são, geralmente, como as de Ana: logo após dar à luz, a mãe era informada de que seu recém-nascido morrera e não poderia ver o corpo.
Em seu segundo longa, Terzić demonstra simpatia e generosidade por essa mulher de vida simples, com um trauma com o qual jamais consegue lidar. A trama guarda algumas surpresas, e é honesta em sua conclusão investigando com um problema que nunca poderá ser resolvido plenamente. (Alysson Oliveira)
 
CINESALA - 18/10/19 - 22:00
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS - 19/10/19 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 22/10/19 - 19:30
CINEARTE 1 - 26/10/19 - 18:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 - 30/10/19 - 20:00
 
Teerã: Cidade do Amor
Apenas parte do título de Teerã: Cidade do Amor é verdadeira: somente o cenário, que é a capital do Irã; a segunda parte é pura ironia, neste filme que acompanha um trio de almas perdidas em busca de amor, e sempre se decepcionando. A melhor das histórias é a protagonizada por um personal trainer Hessam (Amir Hessam Bakhtiari), cujo tamanho descomunal faz lembrar o americano The Rock – que, não por acaso, está num pôster em seu quarto.
Seu tipo físico o leva a uma produtora de filmes, que fará uma coprodução com a França, um filme protagonizado por Louis Garrel. Hessam não sabe quem é o ator, mas uma foto gigante dele estampa a parede da sala onde acontece a reunião. “Ele é a maior estrela da França”, diz o produtor. Nessa mesma época, chega um novo aluno, um rapaz jovem e bonito, que pretende participar de um competição de fisiculturismo. O filme, dirigido por Ali Jaberansari, é sutil em sua exploração do desejo desse personagem, que se interessa pelo novo aluno.
Mina (Forough Ghajabagli) trabalha numa clínica estética e, quando algum cliente lhe parece interessante, ela pega o número do telefone e manda uma mensagem com a foto de uma modelo, fingindo ser ela. Marca encontro com eles e fica de longe observando se o sujeito vai ao café onde combinaram de se encontrar.
O terceiro personagem é Vahid (Mehdi Saki), cantor de funeral, foi dispensado pela namorada e está tentando conseguir trabalho como cantor de casamentos. Mas seu tom de voz solene não é bem apropriado para isso.
Jaberansari, autor do roteiro com Maryam Najafi, não faz abertamente um filme político. Mas seu retrato da solidão e melancolia não aparta os personagens do regime iraniano, especialmente na história de Hessam, cuja homossexualidade precisa ser sempre escondida, até dele mesmo, de certa forma. Ao mesmo tempo, este é um longa que mostra uma Teerã cosmopolita, evidenciando como certos elementos da subjetividade humana são independentes do lugar onde se mora, especialmente a tentativa de superação da solidão. (Alysson Oliveira)
 
CIRCUITO SPCINE OLIDO - 18/10/19 - 15:00
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP -19/10/19 - 17:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 25/10/19 - 19:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 28/10/19 - 14:00
CINESALA - 30/10/19 - 21:40

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