Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Primeiro dia da Mostra tem atrações de Cannes e Sundance e novos diretores

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Na programação do dia inicial do festival, algumas das atrações são Family Romance Ltda, docudrama que o veterano alemão Werner Herzog filmou no Japão; um delicioso suspense fantástico holandês, Afterlife, do estreante Willem Bosch; e dois concorrentes a vagas na disputa do Oscar de filme estrangeiro, o finlandês Cavalos Roubados e o norte-macedônio Honeyland, premiado em Sundance. 
Afterlife
Numa história impregnada de temas como vida, morte e reencarnação, sem nenhum viés religioso, o filme do estreante holandês Willem Bosch é nada menos do que encantador. Tem drama, comédia, suspense, um toque de realismo mágico e um tipo muito peculiar de humor ao retratar situações envolvendo uma família: o pai Erik (Gijs Scholten van Aschat), a mãe Vera (Romana Vrede), a filha adolescente Sam (Sanaa Giwa), esta a verdadeira protagonista, e seus dois irmãozinhos menores.
Seria um crime dar qualquer spoiler, mas digamos que a trama envolve uma grande perda - e há uma espécie de anjo, Martin (Jan-Paul Buijs), rondando a casa da família. O que ele está fazendo ali e o que acontece depois é o centro de uma história bem criativa que, como o título original entrega, vai mostrar o que há depois da morte - um ambiente particularíssimo também.
Um grande acerto do diretor e roteirista é afastar-se de qualquer referência religiosa - este anjo do filme, aliás, é diferente de qualquer um já visto no cinema - optando por dar asas à fantasia e ao humor negro. Enfim, é um filme delicioso de descobrir e tem no seu centro personagens femininas muito atraentes, caso da mãe e da filha adolescente e também de uma amiga da mãe, a impagável Joke (Ria Eimers). Poucas vezes um retrato de família é tão honesto, terno e irreverente ao mesmo tempo. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 17/10/19 - 20:00 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP     19/10/19 - 15:00 
CINEARTE 2                              20/10/19 - 14:00 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   27/10/19 - 15:45 - Sessão: 858 
Family romance Ltda
O veterano diretor alemão Werner Herzog, aos 77 anos, continua inquieto. Aqui, ele envereda pela docuficção, numa produção filmada no Japão, com poucos recursos e inteiramente falada em japonês. A première mundial do filme foi no Festival de Cannes, fora de competição.
O enredo ficcionaliza uma situação retirada da realidade no Japão - lá, empresas “alugam” pessoas para interpretarem papeis, como de parentes distantes ou problemáticos em situações específicas, como substituir um pai alcoólatra para levar sua filha ao altar. No centro da história, está uma mãe solteira que contrata Ishii (Yuichi Ishii), o criador da empresa, para passar-se pelo pai de Mahiro (Mahiro Tanimoto), menina de 12 anos, suprindo uma carência sentida por toda a vida dela.
Evidentemente, uma situação assim não segue os controles pretendidos, já que algum tipo de envolvimento e emoções é inevitável, Como sustentar os limites entre uma situação encenada e uma real, é o que o próprio Ishii começa a indagar-se. Onde reside a autenticidade de uma família real, como aquela que ele mesmo tem? De várias maneiras, trata-se de um filme bastante intrigante, em que Herzog aproveita para discutir alguns aspectos do desenvolvimento tecnológico, como uma cena num hotel em que se testam robôs assustadoramente reais como recepcionistas. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  17/10/19 - 18:15 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   19/10/19 - 17:50 
CINESALA                                20/10/19 - 21:50 
CINEARTE 1                              24/10/19 - 14:30 
CINESESC                                26/10/19 - 17:15 
Cavalos roubados
Hans Petter Moland é, ao que tudo indica, um diretor versátil. Há poucos meses, lançou nos cinemas Vingança a sangue frio – estrelado por Liam Neeson, remake de seu O cidadão do ano, exibido na Mostra em 2014 –, um filme violento e cínico. Na mesma época, competiu no Festival de Berlim com Cavalos Roubados, um drama delicado e meditativo sobre a culpa e o tempo, completamente oposto à violência de suas obras anteriores.
Baseado no romance homônimo de Per Petterson, o filme é o representante da Finlândia para concorrer  a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro e traz no elenco o onipresente Stellan Skarsgård. Numa performance contida e melancólica, ele interpreta um homem que, mesmo isolado do mundo, encontra certo prazer em andar a cavalo e em transportar madeira rio abaixo, vivendo numa região isolada, no meio da floresta. 
É final da década de 90 e o bug do milênio é uma ameaça. Trond (Skarsgård) abandonou a Suécia, onde morou por algumas décadas e, depois da morte de sua mulher, instalou-se numa casa de madeira numa região da Noruega quase sempre coberta por neve e sem muitas pessoas por perto. Até que um inesperado vizinho (Bjorn Floberg) e seu cachorro se aproximam e uma série de memórias vêm à tona.
O vizinho é Lars, com quem Trond compartilha uma história no passado. Ele tem um amigo, Jon (Sjur Vatne Brean), cuja vida é abalada por uma tragédia familiar, que permite que o protagonista conheça a mãe do rapaz (Danica Curcic), por quem ele desenvolve uma paixão platônica.
Moland constrói a narrativa de maneira intrincada, com o passado reverberando no presente, e as memórias, que pareciam dormentes, voltando à tona e causando dores novamente. O livro favorito de Trond, não é de espantar, é David Copperfield, cuja frase inicial ecoa ao longo da narrativa: “Se eu vou ser o herói da minha própria vida, ou se esse posto vai ser ocupado por outra pessoa, essas páginas irão mostrar.” O filme é exatamente sobre isso, o protagonista tentando descobrir quem é o herói de sua vida e como aquele verão tem um papel crucial em seu amadurecimento – e endurecimento também. (Alysson Oliveira)
 
CINESALA - 17/10/19 - 21:30
CINEARTE 1 - 21/10/19 - 18:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1- 22/10/19 - 17:15
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 23/10/19 - 16:20
Honeyland
Premiado no Festival de Sundance e representante da Macedônia do Norte na disputa de uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, o documentário dos diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov extrai seu encanto do cuidado com que retrata o cotidiano de uma apicultora, Hatidze Muratova, de 55 anos.
O ambiente bucólico, no meio das montanhas, onde ela mora com a única companhia da mãe idosa, Nazife, um cachorro e um gato, dá a impressão de que tratar-se de um lugar muito remoto, mas não. Ela está apenas a cerca de 20 km da capital do país, Escópia, para onde vai periodicamente a pé, vender seu mel de alta qualidade.
Verdadeira encarnação do tão propalado conceito de sustentabilidade, aqui instintivo, aprendido naturalmente, Hatidze cultiva o mel de maneira primitiva, mantendo suas colmeias debaixo de pedras. De tempos em tempos, ela retira o mel, tendo o cuidado de deixar metade dele para suas abelhas, assim mantendo o equilíbrio necessário.
O conflito se estabelece quando se muda para as vizinhanças da casa de Hatidze uma família de origem turca, como ela, mas trazendo um modo de vida inteiramente diferente. Hussein Sam, sua mulher, Ljutvie e seus muitos filhos, de várias idades, cuidam de um rebanho bovino. Logo ele se interessa também pelo mel, só que pretende explorá-lo de maneira muito mais intensiva.
O choque entre estes dois mundos sustenta uma narrativa que, em vários momentos, nem parece um documentário - o segredo está no tempo que os diretores, que vieram ali fazer apenas um vídeo, dedicaram à sua incrível personagem, passando ali três anos. Isto lhes permitiu não só traçar um perfil, mas descortinar todo um modo de vida que é difícil crer que permaneça ainda. Mas ele vive. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   17/10/19 - 18:10 
CINEARTE 1                              19/10/19 - 14:30 
CINESALA                                21/10/19 - 17:45 
CINESESC                                23/10/19 - 22:15 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   26/10/19 - 20:15 
A maratona de Brittany
À primeira vista, esta história pode parecer apenas formulaica. E não que o filme de Paul Downs Colaizzo não seja – mas o dramaturgo, que estreia na direção, se apropria da fórmula com tanto gosto, tanta honestidade e uma grande performance de Jillian Bell, que as eventuais lágrimas são conquistadas e não arrancadas a fórceps.
O roteiro, também de autoria do diretor, se baseia numa história real, combinando comédia e pathos com a mesma intensidade numa personagem que corria o sério risco de ser insuportável – mas não é. Bell é Brittany, nova-iorquina sem emprego fixo, sem dinheiro e acima do peso. Não que isso a incomode – todos os corpos são lindos, diz ela ao médico, referindo-se à propaganda de uma marca de cosméticos, mas ele não compra a piada. A questão é que ela precisa mesmo perder peso, por mais que acredite gostar de si mesma como é. Sua saúde está em risco.
Emagrecer torna-se, no entanto, um caminho de autodescoberta. O começo é encarar a balança, dia a dia, acumulando frustrações e ansiedade. O acaso do destino quis que uma renomada fotógrafa, Catherine (Michaela Watkins), alugasse um estúdio no mesmo prédio em que Brittany mora, e a mulher é corredora quase profissional. Junto com um novo amigo, Seth (Micah Stock), o trio se dispõe a treinar seriamente para, no ano seguinte, correr a Maratona de Nova York.
Pode parecer um enredo previsível, ostentando uma lição de moral de amor ao próximo e a si mesmo. Mas Colaizzo usa o que pode haver de melhor na fórmula com muita honestidade e consegue fazer um longa que flerta com o clichê, mas não incorpora seu lado manipulador e barato, destacando aquilo que pode haver de mais humano e o que nos une como espécie.
A questão é que Brittany é campeã em se autossabotar. Ainda assim, o longa não é cruel com ela, e Jillian Bell demonstra um carinho enorme por sua personagem. Rimos com ela, dela mesma, esse é o ponto. E quando a heroína resolve virar o jogo de sua vida, A maratona de Britanny não faz dela um saco de pancadas cômicas. É mais ou menos o contrário de que Sexy por acidente fez com Amy Schumer. (Alysson Oliveira)
 
CINESALA - 17/10/19 - 15:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 18/10/19 - 19:30
CINESESC - 21/10/19 - 18:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   23/10/19 - 18:00
A Boia
O documentário argentino é um cálido retrato de uma amizade entre seu diretor, o cineasta Fernando Spiner, e um amigo de toda a vida, o poeta Anibal Zaldibar. Eles compartilham uma infância e adolescência, passadas numa localidade litorânea, mas, num determinado momento da vida, tomaram rumos distintos - Fernando partiu para Roma, onde estudou cinema, enquanto Anibal permaneceu ali, cultivando um círculo em torno da poesia, que a vida toda foi sua vocação.
Há também memórias em comum envolvendo o pai de Fernando, que também ficou, e dividiu com Anibal acontecimentos que escaparam ao filho, durante a estadia italiana - e que têm a ver inclusive com o curioso título do documentário, que remete a uma história familiar de Spiner.
A maneira como o filme desvela momentos desta amizade e incorpora trechos de cartas do pai de Fernando, além dos personagens da cidadezinha - como os salva-vidas da praia e os frequentadores do círculo de poesia - fazem o encanto de um filme muitas vezes surpreendente, intimista e capaz de revelar a grandeza da vida escondida atrás dos mínimos detalhes. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   17/10/19 - 19:15 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   18/10/19 - 14:00 
CIRCUITO SPCINE OLIDO                   24/10/19 - 17:00 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 29/10/19 - 15:45 
Sem seu sangue
Exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2019, o longa de estreia da diretora carioca Alice Furtado mistura gêneros, começando com um romance adolescente entre Silvia (Luiza Kosovski) e Artur (Juan Paiva) e gradativamente incorporando referências e mudanças de tom que levam ao realismo fantástico e ao terror. 
Há uma bonita cena de sexo e pelo menos duas de masturbação feminina, todas filmadas com grande delicadeza. A diretora, respondendo a algumas perguntas no final da sessão, como é praxe na Quinzena em Cannes, destacou: “Não há suficientes histórias do desejo feminino no cinema”.
Esta é, talvez, a grande qualidade de um filme que demonstra garra e desejo de risco, mas não domina bem os tempos de cada um de seus segmentos. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 1                              17/10/19 - 21:15 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   18/10/19 - 17:30 
RESERVA CULTURAL - SALA 1               28/10/19 - 15:40 

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