Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Dia do novo cinema peruano e da despedida de “Amazing Grace”

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

“Vivir ilesos” e “Mataindios” são dois exemplos do novo cinema peruano que a Mostra apresenta neste seu penúltimo dia. Uma das grandes atrações é a última apresentação do documentário musical “Amazing Grace”, com a deusa Aretha Franklin. 
 
Vivir ilesos
O diretor e roteirista peruano Manuel Siles queria dar uma oportunidade à atriz mais famosa de seu país na atualidade de fazer algo diferente. Em Vivir Ilesos, Magaly Solier (conhecida por filmes como A teta assustada e Madeinusa) vive uma golpista que acaba sequestrada pelo homem em quem ela e o namorado (Oscar Ludeña) iriam aplicar um golpe.
“Muita gente não acreditou em mim quando eu disse que queria a Magaly nesse papel. Não é o tipo de filme que ela faz, diziam. Agora, essas mesmas pessoas vêm me cumprimentar”, diverte-se o diretor, na entrevista ao Cineweb.
A trama acompanha o destino de Lucía (Magaly), obrigada a ficar na mansão luxuosa desse sequestrador, recebendo algumas regalias, mas sem poder sair de lá. E seu namorado, que é abandonado entre um grupo de sem-teto, depois procura a polícia para ajudar a achar a namorada  - mas ninguém acredita no seu relato..
“Queria fazer um retrato da elite peruana, de como são capazes de tudo e se acham melhores do que os outros”, assinala Siles. Rodado há três anos, o filme estreia no Peru apenas nesta semana. Trata-se de um projeto antigo e caro ao diretor, que passou duas décadas trabalhando nele e juntando recursos para o filmar. “Acho importante que chegue à sociedade neste momento. Sou uma pessoa que não suporta injustiças, especialmente sociais, e o filme fala muito disso, de como a classe alta se aproveita dos mais pobres.” (Alysson Oliveira)
 
CINEARTE 1 -29/10/19 - 20:10
 
Mataindios
Este exemplar do cinema peruano - que parece experimentar um particular vigor neste momento - é um dos títulos mais misteriosos da Mostra. Seus autores são dois estreantes, Oscar Sánchez e Robert Julca, que mergulham no peculiar hibridismo entre as culturas nativas e o catolicismo imposto pelos colonizadores espanhois.
O ambiente é uma pequena cidadezinha interiorana, onde a população de origem indígena dedica-se a curiosos rituais de celebração do luto por seus mortos - incluindo, ao final, uma missa com um padre, na igrejinha que celebra a devoção ao santo padroeiro da cidade.
Com poucos diálogos e muitas imagens intrigantes, o filme procura resgatar o choque entre estes universos, o nativo e o estrangeiro, num cenário que encontra espaço também para o questionamento desta religião imposta mas que, aparentemente, não foi capaz de extrair todas as raízes da cultura nativa de dentro da população peruana. Com toda a sua simbologia, o filme discute também os efeitos do colonialismo. (Neusa Barbosa)
 
CIRCUITO SPCINE OLIDO   29/10/19 - 17:00 
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP     30/10/19 - 15:00
 
O espelho africano
O documentário coloca em evidência algumas das questões mais candentes sobre a manipulação das imagens de povos, supostamente primitivos, quando retratados com uma visão de colonizador. Tem-se ao centro o trabalho do fotógrafo e cineasta suíço René Gardi (1909-2000) que, por décadas, retratou o povo Matakem, na república dos Camarões. Gardi, certamente, admirava aquelas populações, que viviam uma vida muito simples e despojada, nas montanhas, motivo pelo qual ele viu uma inusitada similitude deles com os suíços. 
O filme discute os efeitos da colonização francesa sobre este povo - que trouxe o censo, impostos e pressões para que trabalhassem num ritmo capitalista -, além das excursões turísticas que começaram a pulular por ali. Estes fatores alteram drasticamente a cultura local, para desgosto de Gardi, que não mais reconhecia o povo que admirava depois destas mudanças.
Dirigido pelo estreante Mischa Hedinger, o documentário vale-se do excepcional arquivo deixado por Gardi, que ficou preservado em Berna. (Neusa Barbosa)
 
ÚLTIMA SESSÃO: CINESALA   29/10/19 - 14:00 
 
Amazing Grace
É possível ouvir o álbum Amazing Grace, de Aretha Fraklin, em streaming na internet com ótima qualidade, mas aí só é possível ouvir. O filme do mesmo nome leva à tela uma apresentação do disco e seus bastidores de maneira epifânica. Vê-la em toda sua graça extraordinária soltando o vozeirão com música gospel numa igreja batista é o mais próximo de uma experiência religiosa que se pode ter no cinema.
O documentário foi rodado durante duas noites, em janeiro de 1972, na New Temple Missionary Baptist Church, em Los Angeles, onde Aretha, aos 46 anos e famosa, vai para retomar músicas de quando era uma cantora gospel no coral da igreja. Amazing Grace foi não apenas o disco mais vendido do gênero gospel, mas também o mais vendido da carreira dela. E não é para menos, o que se vê e, principalmente, se ouve é uma explosão em forma de voz e súplica que transcende os parâmetros de música religiosa.
Na época, Sidney Pollack foi contratado pela Warner para filmar as duas noites. Era o momento do auge do cinema verité, e o concerto foi capturado numa imagem belamente granulada. Mas problemas técnicos – especialmente de falta de sincronia – impediram o documentário de ser lançado. Quando isso pode ser resolvido, a própria cantora impediu o lançamento - os motivos nunca ficaram claros. Agora, com todas as questões técnicas e legais resolvidas, o longa foi finalizado (pelo músico Alan Elliott, creditado como codiretor), pode ser exibido e merece ser visto no cinema - tem que ser, na verdade, pois só uma tela gigante e um som potente podem fazer justiça ao vozeirão cantando uma música que combina “Precious Lord, take my hand” e “You’ve got a friend”.
Na primeira noite, a igreja não está muito cheia. As poucas pessoas são um tanto discretas, mas, na seguinte, quando os fieis chegam com roupa de gala e tudo mais o filme cresce. A cantora fala pouco entre uma música e outra, mas quando seu pai, o ministro batista C.L. Franklin, fala, é possível ver de onde vem a força de Aretha. Ele é pomposo e amoroso – é comovente o momento em que ele enxuga o suor do rosto dela enquanto canta –, mas também nota-se como ela teve de lutar num mundo dominado por homens como ele para conseguir respeito, e “descobrir o que isso significa”, como diz uma de suas músicas.
É claro que o apelo primordial do filme é para fãs de Aretha, mas não deveria se limitar a eles. Amazing Grace (tanto o disco quanto o longa) tem o poder de transcender e ir além de um show de música gospel. O documentário é também uma maneira de compreender como o álbum fez tanto sucesso – merecidíssimo, aliás. (Alysson Oliveira)
 
ÚLTIMA SESSÃO: RESERVA CULTURAL - SALA 1    29/10/19 - 20:00
 
Frankie
O filme do diretor norte-americano Ira Sachs competiu na seção principal de Cannes 2019 e tem no elenco uma de suas atrações mais vistosas - sem contar as paisagens belíssimas nos arredores de Sintra, Portugal, onde foi filmado. 
Frankie (Isabelle Huppert) é a matriarca de uma família que vai se reunir toda nesse lugar belíssimo. O motivo, que vai sendo esclarecido aos poucos, tem a ver com a saúde de Frankie e acertos que ela pretende fazer com seus parentes. Ao seu lado, está seu marido bonachão, Jimmy (Brendan Gleeson), que procura acomodar conflitos e desejos em torno das vontades da mulher, que ali convocou também seu ex (Pascal Greggory), pai de seus filhos, como o problemático Paul (Jérémie Rénier). 
Além de parentes, virão também sua cabeleireira (Marisa Tomei), vivendo uma crise com seu parceiro (Greg Kinnear). Eventualmente, até questões da vida de um guia turístico local (Carlotto Cotta) entram pelo tecido deste filme-coral, que enfatiza o entrelaçamento destes interesses familiares, das disputas humanas em torno de qualquer coisa. 
É um estilo diferente de história para este diretor, conhecido por O amor é estranho (2014) e Deixe a luz acesa (2012). (Neusa Barbosa)
 
ÚLTIMA SESSÃO: RESERVA CULTURAL - SALA 1  - 29/10/19 - 18:00

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