Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Na reta final, Mostra exibe vencedor de Berlim, comédia com Darín e premiados de Elia Suleiman

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Em entrevistas ao Cineweb, o palestino Elia Suleiman e o brasileiro Allan Deberton falam de seus filmes premiados, “O paraíso deve ser aqui”, de Suleiman, e “Pacarrete”, de Deberton, ambos com sessões nesta segunda (29). Outras atrações são “Synonyms”, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, e “A Odisseia dos Tontos”, com Ricardo Darín. 

 Elia Suleiman
Pessoalmente, o cineasta palestino Elia Suleiman é parecido com o personagem que interpreta em O paraíso deve ser aqui – o que não é nenhuma surpresa, uma vez que ele confessa inspirar-se em si mesmo para criar essa figura observadora, como o seu próprio cinema. “Posso dizer que a única referência sou eu mesmo. Eu sou do jeito que o personagem é, e isso vem dos meus pais, que eram muito carinhosos e donos de um humor bastante peculiar.” O diretor participa da Mostra com dois longas, O paraíso deve ser aqui (2019) e Intervenção Divina (2002), ambos premiados em Cannes, além de ter recebido o Prêmio Humanidade no festival em S. Paulo.
O paraíso deve ser aqui é um filme sobre o estado do mundo, sobre as políticas de identidade que fragmentam as pessoas. Composto por episódios, são sempre protagonizados por Suleiman, como uma figura que praticamente não fala e viaja da Palestina para a França. “Eu não acredito em interpretação. Eu sou daquele jeito e o personagem é observador.”
É, de certa forma, um filme político, sobre as questões identitárias do presente. “Não gosto quando a mensagem política é explícita, não tem efeito. Se você acha que vai ensinar alguma coisa alguém, você está fadado ao fracasso. O segredo do sucesso é compartilhar. E o filme não acaba quando termina, ele continua com o público, que pode criar suas próprias histórias.” O diretor destaca que também é um filme sobre a forma como o mundo está resistindo e tentou dar um tom de esperança ao longa, especialmente na cena final, com jovens. “Eu não sabia como terminar o longa, até que me contaram sobre um bar palestino para gays e lésbicas. Eu não sabia que esse lugar existia. E quando fui lá descobri onde estavam os jovens, que não têm afiliações com partidos ou estruturas de poder. A sensação de ser palestinos é mais universal, e não sobre a Palestina no mapa. É uma nova forma de resistência. E eu acho que as pessoas que estão no poder devem mesmo se preocupar com esses jovens, pois são eles que mudarão o mundo.”
Suleiman aponta que este é um filme sobre o estado de exceção que o mundo vive atualmente, em que o poder está por todo lado, na figura dos policiais, ou até de pesticidas, caso não se viva nas cidades grandes. “Nas gerações passadas, até nos piores momentos havia um lugar onde se esconder. Hoje isso não existe, as estruturas de poder tomaram todos os lugares. Vivemos num momento muito frágil.”
A crítica ao estado das coisas aparece de maneira bastante incisiva e cínica até, especialmente numa cena em Paris, quando uma equipe de paramédico e assistente-social alimenta um morador de rua. Eles perguntam o que ele quer comer, como ele se sente, se precisa de mais algo e avisam que voltarão mais tarde para fazer tudo isso novamente. É um momento engraçado até do filme, mas que revela a herança da sociedade burguesa repleta de boa vontade de ajudar, sem resolver de fato as situações. Suleiman revela que percebeu algo parecido com produtores franceses quando fez seus primeiros filmes. Essas pessoas o acusavam de a obra não ser “suficientemente palestina.” “Essas pessoas acham que conhecem seu país melhor do que você. O discurso do pós-colonialismo, atualmente, não evaporou, mas assumiu outros contornos e usa uma máscara.”
No longa, uma cena marcante envolve o personagem tentando escrever no computador e um passarinho. Ele conta que é inspirado numa história real, quando sua mulher, a cantora lírica libanesa Yasmine Hamdan, resgatou uma ave que caiu do ninho e a levou para casa. “Como ela viaja muito, acabei sendo obrigado a me tornar a babá do passarinho. Eu sabia que tinha de estar no filme. Muita gente lia o roteiro, e era resistente à cena, que seria muito cara para fazer e, para eles, não fazia muito sentido estar ali.” Para ele, isso é uma conquista. Suleiman conta que gosta de ter cenas que não tenham um significado, estão ali apenas por estar. “Com os policiais é fácil entender o que significam, mas esse passarinho, o que faz lá? O que representa? Eu gosto disso de ter algo que não uma identificação de onde veio. Há uma euforia quando consigo fazer isso.”
Para conectar os diversos episódios da narrativa de O paraíso deve ser aqui, ele conta usar algo chamado “montagem subliminar”. “Não me importo com continuidade, é feito com sentimento. Se você acreditar na capacidade de seu público e for sincero, haverá uma comunicação. Há filmes que insultam o seu público quando explicam tudo, tratam os espectadores como se fossem um grupo de ignorantes. Eu vejo o cinema ao contrário.” Quando perguntado se é isso que os filmes de super-heróis fazem, ele responde: “O que são filmes de super-heróis? Eu não vejo, sei que existem, há propaganda para todo lado, mas não é o tipo de cinema que me interessa. É como restaurante: se você me chamar para ir ao McDonalds, eu vou dizer não. Quero comida de verdade!”. (Alysson Oliveira)
 
Intervenção divina
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 - 28/10/19 - 18:00
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM - 29/10/19 - 20:30
 
O paraíso deve ser aqui
 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS - 28/10/19 - 21:15
CINEARTE 1 - 29/10/19 - 16:15
 
 Allan Deberton e Marcélia Cartaxo
Pacarrete é, de certa forma, uma revisita do diretor Allan Deberton às memórias de sua infância. A personagem-título, vivida por Marcélia Cartaxo, era uma figura conhecida de sua cidade, Russas (CE). “Ela era tida como louca, excêntrica, as pessoas riam dela. Eu era criança e tinha essa visão dela. Depois, tive a oportunidade de descobrir que ela foi bailarina, professora de piano, de educação física nas escolas de Fortaleza. E se você pensar que ela nasceu em 1912, é de se pensar como foi pioneira”, diz o cineasta em entrevista ao Cineweb.
Deberton sempre quis fazer um filme sobre essa figura. E quando estava fazendo seu primeiro curta, viu em Marcélia a atriz ideal para a personagem. Desde o convite até a concretização do filme, passaram-se 12 anos. O diretor vê nisso uma vantagem, pois pode amadurecer o roteiro e fazer pesquisa, o que desconstruiu a imagem de medo, conforme diz, que tinha da figura.
Para Deberton, apenas Marcélia era a atriz capaz de fazer essa personagem. O impressionante trabalho de composição dela está sendo reconhecido mundo afora: ela foi premiada em Gramado, no Festival de Cinema Brasileiro em Los Angeles e no Cine Vitória. “Foi um trabalho bastante difícil,” diz a atriz. “Precisei aprender um monte de coisas, a dançar balé, a tocar piano, falar umas frases em francês. Foi muita preparação e dedicação. Eu chegava a dormir com a roupa de bailarina, porque tem uma hora que o ator tem que estar sozinho com o personagem.”
A própria atriz admite que foi um trabalho arriscado - sua construção de Pacarrete é precisa, e poderia facilmente cruzar uma linha tênue e cair no caricato. “É uma loucura contida. Tem momentos em que ela explodia, mas ela tem seus momentos de medo, de receio. O que é uma pessoas perturbada pelo fato de as pessoas não acreditarem nela.” Marcélia também destaca o trabalho da maquiagem que a envelheceu, e levava horas para ser feito. “Eu chegava antes de todo mundo e ficava até mais tarde. Fora isso, também tem a voz dela que é bem diferente. Lembrei de uma menina que eu conheci que falava rouco e tentei imitar, de uma maneira orgânica, claro.” Ao ver o filme pronto, a própria atriz conta que se impressionou. “Ela é muito diferente de mim. Era impressionante me ver na tela, transformada.”
Quando Deberton começou a pesquisar sobre a Pacarrete, em sua cidade, fez entrevistas com pessoas – especialmente mulheres – que a conheceram. “Como eu não era muito próximo da Pacarrete, isso me ajudou muito a desenhar o perfil dela. Era importante filmar na cidade [Russas], e o filme se transformou numa espécie de Russas contra Pacarrete.”
O filme ainda não foi exibido na cidade – que não tem cinema – mas diversos moradores foram a Fortaleza, quando Deberton organizou uma sessão extra do filme no Cine Ceará. Entre elas, estavam o homem que inspirou o personagem de João Miguel, o dono de um bar por quem a protagonista tinha um amor platônico. “Foi emocionante. O João Miguel aceitou fazer o personagem sem ter o roteiro pronto. Ele disse que foi algo inédito em sua carreira, mas ele gostou muito da história e queria participar.” (Alysson Oliveira)
 
CINEARTE 2  - 28/10/19 - 15:45
 
Synonyms
Vencedora do Urso de Ouro e do Prêmio da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos) no Festival de Berlim, a coprodução entre Israel, França e Alemanha é o terceiro longa do diretor israelense Nadav Lapid (A professora do jardim da infância). De muitas maneiras, é um filme que procura tirar o espectador de sua zona de conforto, levando-o a compartilhar a instabilidade de seu protagonista, Yoav (Tom Mercier). 
Israelense, ele deixou para trás seu país e sua guerra permanente para tentar ajustar-se à França, procurando apagar seu passado e identidade - ele acaba de cumprir o serviço militar.  Para começar, recusando-se a falar hebraico. Obcecado por um dicionário de francês, de onde recolhe incessantemente novas palavras, ele chega a Paris como um aparente fugitivo, entrando num apartamento vazio de um prédio elegante depois de recolher a chave debaixo de um tapete. 
A narrativa não esclarece muito sobre este personagem, como ele chegou ali, se aquele apartamento tem alguma ligação com ele. O incidente que desencadeia o resto da história tem a ver com o roubo de todas as suas roupas, o que o deixa à beira da hipotermia. Seus salvadores são os vizinhos, Émile (Quentin Dolmaire) e Caroline (Louise Chevillotte), um jovem casal sem problemas financeiros. Émile sonha tornar-se escritor, mas as histórias inusitadas contadas por Yoav dão a largada numa mudança de rumos.
A maneira fluida como se relacionam estes personagens é uma homenagem discreta ao espírito dos filmes do jovem Jean-Luc Godard, em sua instável procura de existir - com componentes mais agudos em Yoav, devido a suas conflitantes raízes, que o conectam com o militarismo de sua nação e uma história pessoal e familiar mal-resolvida.
Não é simples ou natural empatizar com qualquer um destes jovens neste turbilhão. Yoav, que está presente na maioria das cenas, muitas delas vividas nas ruas de Paris, é um feixe de nervos expostos a ponto de explodir. Evidentemente, há todo um discurso simbólico por baixo destes comportamentos, expondo as contradições entre o militarismo impregnado de religião que Yoav traz na bagagem israelense e a utopia que ele enxerga numa França republicanamente laica. É nesta fricção que o filme encontra seu maior sentido. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   28/10/19 - 19:20 
CINEARTE 1                              30/10/19 - 16:45 

 
A odisseia dos tontos
Ricardo Darín junta-se novamente ao diretor Sebastián Borensztein - com quem o ator fez Um conto chinês - para estrelar esta comédia dramática, em que atua ao lado do filho, Chino Darín. Adaptando o livro La Noche de la Usina, de Eduardo Sacheri, o filme conta uma aloprada mas também muito justa epopeia de vingança, que rende uma comédia sob medida para o espírito tanto dos brasileiros quanto dos hermanos. 
A história ambienta-se em 2001, quando a Argentina estava à beira de uma das piores crises de sua história. Mas a turma de amigos da pequena cidade de Alsina, integrada pelo dono de um pequeno posto de gasolina, Fermín (Ricardo Darín) e o borracheiro Fontana (Luis Brandoni), não podia imaginar a hecatombe que viria. Naquele momento, eles se unem a vários amigos que, como todo mundo na Argentina, tem uma pequena poupança em dólares - guardados em casa -, unindo-se numa cooperativa para comprar uma usina abandonada, onde pretendem implantar silos e aumentar a renda de todo mundo.
A bolada da turma está guardada numa caixa no banco, mas o gerente convence Fermín a depositar tudo em sua conta, garantindo que, em troca disso, lhe arranjará o crédito do que falta para a compra. No dia seguinte, é decretado o chamado “corralito” - ou seja, o dinheiro da turma fica retido no banco e eles só podem sacar 250 pesos por semana.
Evidentemente, o gerente sabia do que ia ocorrer, o que revolta os lesados - que, no entanto, nada podem fazer. Ou será que podem? A história gira em torno de como os “tontos”, que foram levados no bico, como milhões de argentinos, se organizam para recuperar seu dinheiro, o que envolve operações rocambolescas, divertidas e perigosas. Não há como não se identificar com esta trupe. (Neusa Barbosa
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   28/10/19 - 21:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   29/10/19 - 21:10
CINEARTE 1                              30/10/19 - 19:15 
 
Chão
Prêmio Especial do Júri e Prêmio do Público no Olhar de Cinema de Curitiba, o documentário de Camila Freitasacompanha o cotidiano de um grupo de sem-terra em Goiás em suas movimentações de ocupação, disputa legal e trabalho para conquistar novos territórios para assentados. Tomando claramente o partido destes despossuídos, a diretora elege alguns personagens, como a “Vó” e “PC”, para ilustrar um processo de tomada de consciência e mobilização que se ergue diante de uma sociedade social desigual e altamente injusta, como a brasileira.
Claramente, a diretora quer que seus espectadores enxerguem o ponto de vista destes sem-terra, que, em geral, se observa sempre de longe e a partir de um filtro enviesado de coberturas de imprensa superficiais, quando não comprometidas - ou seja, com lado. Chão também tem lado ao oferecer a palavra a estas pessoas. Quem assiste que as ouça e tire suas próprias conclusões. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   28/10/19 - 15:50 
RESERVA CULTURAL - SALA 1               30/10/19 - 16:00 

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança