Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Final de semana inclui drama de tribunal e documentários familiares

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

O último final de semana da programação regular da Mostra combina dramas de tribunal, como o francês “A garota com a pulseira”, relações conjugais tóxicas no mexicano “O diabo entre as pernas”, dois filmes do guatemalteco Jayro Bustamante (“La llorona” e “Tremores”) e documentários intimistas como o brasileiro “Casa”, retratando uma relação difícil entre mãe e filha. 
 
Casa
Documentário profundamente pessoal da diretora baiana Letícia Simões revisita suas relações familiares com a mãe e a avó, criando um filme de alta voltagem emocional.
Diretora de filmes intimistas, calcados na literatura - como O Chalé é uma Vida Batida de Vento e Chuva (2018), em torno do escritor paraense Dalcídio Jurandir -, Letícia envereda com bastante coragem neste entremeado de lembranças, rancores e afetos que perpassa suas ligações com a mãe, Heliana, que sofre de depressão e bipolaridade, e a avó, Carmelita. O filme é sua maneira de reaproximar-se deste núcleo familiar, do qual se afastou por diversos motivos.
É um filme de momentos, explosões, conciliações, percorridas em ondas, como um fluxo de vida, mantendo sua vitalidade ao seguir estas conversas, não raro doloridas, algumas exasperantes, tecendo o fio desta família toda feminina - os homens nunca são vistos, exceto em fotos, e constantemente mencionados nos relatos e cartas, material privilegiado para a construção desta narrativa. (Neusa Barbosa)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS     27/10/19 - 19:30 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 28/10/19 - 14:00 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   30/10/19 - 17:30 
 
A garota com a pulseira
Exibido em Locarno, o longa dirigido pelo veterano francês Stéphane Demoustier gira em torno de Lise (Melissa Guers), uma garota de 16 anos acusada do assassinato de sua melhor amiga. Ela fica em prisão domiciliar por dois anos, usando uma tornozeleira, até que finalmente o julgamento é marcado.
O que há de mais interessante neste drama de tribunal é que não segue os tradicionais clichês da maioria das produções nesta temática. O diretor mantém a tensão em torno de uma protagonista muito enigmática, sobre a qual nem os pais (Chiara Mastroianni e Roschdy Zem) sabem muita coisa. Lise é muito reservada, aparentemente fria, uma verdadeira esfinge - por isso, não se sabe realmente se cometeu o crime ou não. 
Quando o julgamento começa a escarafunchar a intimidade entre as duas amigas, entre as quais ocorreu um bullying virtual, a suposta liberalidade sexual da acusada vem à tona no tribunal, tornando-se um alvo para a promotoria - permitindo a tentativa de julgar-se a moral de uma menina supostamente desinibida e não o crime em si.
Por estas opções na história, o filme se torna bem mais uma investigação em torno das limitações dos mecanismos de investigação da justiça, os rituais um tanto teatrais levados adiante pelas duas partes no tribunal, as consequências do bullying virtual e a exposição de relacionamentos familiares mal-resolvidos. Não é pouca coisa também o filme tocar na tendência geral de julgamentos apressados de pessoas que não fazem o jogo do vitimismo ou da simpatia, como é o caso de Lise. Enfim, muito material para reflexão. (Neusa Barbosa)
 
ÚLTIMA SESSÃO: CINEARTE 1                              26/10/19 - 22:00 
 
O diabo entre as pernas
Filmado num precioso preto-e-branco, este novo drama do mexicano Arturo Ripstein vem encharcado de uma dramaticidade à la Nelson Rodrigues. O roteiro, mais uma vez escrito pela mulher e habitual parceira do diretor, Paz Alicia Garciadiego, retrata a doentia relação de um velho casal (Alejandro Suárez e Silvia Pasquel). Há tantos anos vivendo juntos numa velha casa decadente, eles se entregam permanentemente a jogos de mútua provocação - ele, jogando-lhe na cara sua suposta lascívia, que a levaria a entregar-se a outros homens; ela, trancando-se numa atitude de agressiva submissão, entremeada de explosões emocionais.
A única testemunha desta relação doentia é a jovem Dinorah (Greta Cervantes), empregada da casa, que também se vê envolvida por estes climas sempre instáveis. Ela sabe de segredos dos dois, como que a senhora dança tango pelas tardes num clube, às escondidas; e que o marido tem um antigo caso com uma senhora cabeleireira casada. 
A perícia dos diálogos, empunhados por estes atores no topo de seu jogo, é a atração por excelência de um drama maduro, não raro com vocabulário e situações de um erotismo provocador, vinculado a fetiches, sem medo de parecer desagradável - o que eventualmente é. Mas é uma dramaturgia de um realismo e de uma intensidade inegáveis. (Neusa Barbosa)
 
RESERVA CULTURAL - SALA 1               27/10/19 - 20:50 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   30/10/19 - 21:00 
 
Deus é mulher, seu nome é Petúnia
Coescrito pela diretora Teona Strugar Mitevska e Elma Tataragic (de Cicatrizes, também na Mostra), trata-se de uma sátira à dinâmica de gênero e à religião, que começa inspirado num incidente real na cidade de Stip, ocorrido cerca de uma década atrás. Para comemorar o batismo de Jesus, há a festa do Dia da Epifania do Senhor (no Oriente, conhecida assim; no Ocidente. é a Festa de Reis), nela um padre ortodoxo joga um crucifixo nas águas gélidas de um rio local, e um grupo de homens pula tentando recuperar a cruz. Em 2014, uma mulher conseguiu tal feito.
No filme, a autora da façanha é Petunia (Zorica Nusheva), uma historiadora de 32 anos, desempregada e sem rumo na vida. É claro que sua conquista desperta a ira dos homens que competiam com ela e dos líderes religiosos, colocando em cena a polícia e uma repórter sensacionalista, Slavica (Labina Mitevska, irmã da diretora). Com toda a pressão, a protagonista acredita que tem ainda mais direito à cruz.
O filme combina sátira social com elementos mais sérios. A diretora Teona Strugar Mitevska, que estreou em longas com Como matei um santo, exibido na 28a Mostra, sabe como equalizar a crítica com o humor, tendo em na estreante Nusheva um achado como a protagonista que bate o pé por aquilo que acha seu direito, mesmo que mulheres e homens insistam que ela faça as coisas conforme o esperado. A personagem é forte, bem construída. Pena que a diretora, partindo de uma premissa tão instigante, finalize com uma resolução um tanto forçada, que não combina com o que se viu até então, com seu feminismo potente contra o patriarcado da Macedônia. (Alysson Oliveira)
 
La llorona
O terceiro longa do guatemalteco Jayro Bustamante (o segundo deste ano; o outro, Tremores, também está na Mostra) prova que sua estreia impressionante com Ixcanul (exibido no festival em 2015) não foi acidente, e sim o começo da carreira de um cineasta consistente, seguro e interessado nas questões político-sociais que afligem o seu país. O ponto de partida é a famosa lenda latina da Chorona – recentemente explorada num filme hollywoodiano risível –,  propícia a servir de base para filmes de terror.
Bustamente não se furta ao gênero, unindo terror com cinema político para investigar feridas da guerra civil na Guatemala, que durou de 1960 a 1996. Na lenda, a Chorona é uma mãe tomada pela dor do abandono que mata seus filhos afogados, sendo condenada a vagar pelo mundo por toda a eternidade. O filme, roteirizado pelo diretor e Lisandro Sánchez, começa pelo ponto de vista da elite, a família de um general prestes a ser condenado por um genocídio. Inspirado no ditador Efraín Ríos Montt, o general fictício Enrique Monteverde (Julio Diaz) foi o responsável pela morte de milhares de Maias.
A família é tomada pelo terror diante da condenação iminente. A matriarca Carmen (Margarita Kenefic, numa grande interpretação) não mede esforços para proteger o marido, que parece tomado por demência, enquanto a filha adulta, Natalia (Sabrina De La Hoz), vive num conflito moral interno pelas ações do pai. A casa é cercada por manifestantes e o cenário claustrofóbico parece prestes a explodir. Nesse ambiente, chega a empregada Alma (María Mercedes Coroy, protagonista de Ixcanul). A princípio, parece uma moça prestativa e dedicada ao trabalho, mas com ela entram em cena elementos inesperados e sobrenaturais, como uma praga que enche o quintal de sapos e o choro insuportável de uma mulher.
La Llorona é um filme desconcertante em seu retrato político cru, no limite entre drama social e fantasia. Coroy é, como no outro filme, uma presença forte, magnética que é o centro de perturbação do filme – embora os outros personagens possam ser perturbados internamente sem precisar dela. A fotografia do peruano Nicolás Wong ressalta a atmosfera de pesadelo febril num mundo oprimido por feridas históricas que jamais serão fechadas por completo, nem com o choro desesperado de uma mãe. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   26/10/19 - 21:50 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   28/10/19 - 17:40 
CINESALA                                29/10/19 - 19:50 
CINEARTE 1                              30/10/19 - 21:40 
 
Saint Frances
O longa de estreia do diretor norte-americano Alex Thompson é um primor de observação e sensibilidade. A protagonista é Bridget, uma garçonete que, à sua revelia, torna-se babá - e é interpretada por Kelly Sullivan, que assina o roteiro, o que explica a naturalidade com que ela entra no papel.
Bridget tem 34 anos e está naquele momento da vida em que não dá mais para fingir que se é criança e se tem a vida toda pela frente. Ela está vivendo esta crise quando aceita tornar-se babá de uma menina de 6 anos, Frances, criada por um casal de mulheres - e uma delas está grávida.
Relacionar-se com esta menina tem mais de uma implicação para Bridget - que está namorando Jace (Max Lipchitz), que conheceu numa festa e de quem descobriu estar grávida. Ele é legal, mas ela não sabe se quer mesmo ser mãe. Cuidar da menina expõe à flor da pele o que significa estar ao lado de uma criança - e Frances pode ser contestadora, rebelde, chata mesmo, ainda mais diante da iminência de receber um irmão em casa.
Não há nenhuma grande novidade nesta história, o que ressalta é mesmo a sinceridade, a espontaneidade como todos estes relacionamentos fluem na tela, compondo um mosaico que parece muito honesto e contemporâneo. (Neusa Barbosa)
 
ÚLTIMA SESSÃO: RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 27/10/19 - 16:20 
 
E em cada lentilha, um deus
Este documentário espanhol, com um título tão curioso, serve sob medida para quem se interessa por gastronomia. O diretor do filme, Miguel Ángel Jiménez, acompanha a viagem do roteirista Luis Moya, radicado em Madri, de volta à sua terra natal, Cocentaina, na província de Alicante. 
Moya pertence à família que fundou e mantém ali o L’Escaleta, um restaurante familiar que, em duas gerações, ganhou duas estrelas do prestigiado Guia Michelin, tornando-se um dos melhores do país. Sendo integrante do clã, Luis mantém conversas literalmente saborosas com o pai, o irmão, o tio e o primo, que são aqueles responsáveis pelo restaurante.
Há no filme uma oportuna discussão sobre a valorização exacerbada da figura dos chefs na mídia hoje em contraste com os valores tradicionais, mantidos por famílias como os Moya, dedicados em tempo integral a uma pesquisa do cardápio e à obtenção de ingredientes de qualidade, produzidos por fornecedores locais (que também aparecem no filme). Para quem gosta do tema, é uma boa pedida. (Neusa Barbosa)
 
CINESESC                                26/10/19 - 19:00 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS     27/10/19 - 21:40 
CINESALA                                28/10/19 - 17:50 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   29/10/19 - 19:45 
RESERVA CULTURAL - SALA 1               30/10/19 - 22:10 
 
 Tremores
Este que é o segundo filme do guatemalteco Jayro Bustamente (o terceiro também está na Mostra, La llorona), a grosso modo, fala sobre aquele que Oscar Wilde definiu como “o amor que não ousa dizer o seu nome”, ou seja, a homossexualidade – mas não apenas sobre isso. O longa começa uma família rica em crise, depois que um os filhos, como diz alguém, foi tirado do armário. Uns dizem que é apenas uma fase, uma amiga da esposa (sem saber que o amante é um homem) pergunta se a outra é mais nova, “isso é coisa de homem reafirmando sua masculinidade”, completa.
Pode até ser, mas por maneiras inesperadas e repletas de crises morais e emocionais de todos envolvidos. Pablo (Juan Pablo Olyslager) é abandonado pelos pais, pela mulher, Isa (Diane Bathen), e proibido de ver seus filhos pequenos. Ele sai de casa, aluga um apartamento e tem encontros regulares com o homem que ama, Francisco (Mauricio Armas Zebadúa), que é assumido e sem qualquer problema com sua sexualidade.
Pablo, no entanto, não tem a mesma resolução, e as pressões cada vez mais enfraquecem sua escolha de viver o seu amor. Perde o emprego, o direito de chegar perto dos filhos – nem à aula de natação deles pode ir, é visto como pedófilo. Diante desse cenário, ele se submete a um programa de cura gay promovido por uma igreja cristã extrema, aplicado por uma pastora (Sabrina De La Hoz).
É uma situação controversa que o filme não tem medo de encarar de frente. Acompanhamos o “tratamento”, que envolve banhos num vestiário onde todos os “doentes” nus olham uns para os outros tentando conter a tentação, até outras medidas “médicas”. Pablo é um personagem coerente e bem construído na interpretação de Olyslager (em La Llorona, ele faz o segurança do protagonista). É a crônica da destruição de uma identidade, do aniquilamento de uma pessoa diante de uma sociedade machist e homofóbica.
Com fotografia do venezuelano Luis Armando Arteaga (As herdeiras), Tremores tem a mesma atmosfera claustrofóbica de um pesadelo opressivo de La llorona. No díptico, Bustamante faz uma investigação de classe, falando das elites e colocando, como na dinâmica sócio-histórica de seu país, os povos nativos marginalizados como trabalhadores para os ricos. Isso resulta num detalhe que traz riqueza para os filmes: vemos na tela a reprodução da sociedade local e como, ao seu modo, essas figuras têm o olhar privilegiado para enxergar de perto as aflições burguesas de seus patrões. É por meio deles e delas que Bustamente constrói sua crítica. (Alysson Oliveira)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1 - VILLA LOBOS - 27/10/19 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 28/10/19 - 21:20
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1- 29/10/19 - 20:00
 
 Apagada
Escritor e roteirista respeitado, o esloveno Miha Mazzini estreia na direção de cinema com Apagada, que traz a croata Judita Frankovic como Ana, numa interpretação marcante num pesadelo com tintas do absurdo kafkiano. Após dar à luz, Ana enfrenta uma grande burocracia para poder ficar com sua filha. As origens do drama dela estão no começo dos anos de 1990, quando a Eslovênia se separou da Iugoslávia e mais de 25 mil pessoas foram literalmente apagadas do mapa – seus documentos perderam a validade, com isso perderam todos os direitos, burocraticamente falando, deixaram de existir.
Ana é uma dessas pessoas e só se dá conta disso quanto sua filha nasce. Sérvia cuja família imigrou para a Eslovênia, seus documentos são literalmente cortados com uma tesoura. Mas, pior do que isso, ela recebe alta, mas sua bebê não. Presa a um labirinto de papeis e burocracia, não há advogados que consigam resolver seu problema, de tantas pessoas que existem na mesma situação. Na sua via crucis aos órgãos governamentais, em busca de resolver sua situação, conhece um rapaz na mesma condição que a aconselha: basta não se envolver em problemas e se tornar invisível que você pode continuar vivendo aqui. Mas para ela é mais complicado, há uma criança dependendo dela. A menina, porém, por ser nascida na Sérvia, tem documentação e nacionalidade. Mas, legalmente, não tem uma mãe, por isso é retida na maternidade.
 
O pai da criança (Sebastian Cavazza) é um homem casado que nem sabia da gravidez. Ligado ao governo, ele tenta resolver o problema de Ana das maneiras mais variadas possíveis, colocando até a mídia em ação, porém, as coisas só se complicam. Há também os pais da protagonista (Izudin Bajrovic e Silva Cusin), com quem ela tem pouco contato.
A força dramática de Apagada está em Frankovic. Sua performance é arrebatadora como uma professora de pré-escola de mãos atadas diante das atrocidades cometidas contra ela e sua filha. Apagada é um filme que faz a denúncia de uma condição que se perpetua até hoje e, ao mesmo tempo, um drama sobre uma mãe tentando proteger sua filha. (Alysson Oliveira)
 
INSTITUTO MOREIRA SALLES – PAULISTA - 27/10/19 - 18:00
INSTITUTO CPFL - SALA UMUARAMA - 28/10/19 - 19:00

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança