Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Suspenses políticos e dramas musicais no cardápio da sexta

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

A sexta-feira tem filmes fora da rotina, como o drama/suspense/musical “A fera e a festa”, com Geraldine Chaplin, o drama com toque surreal “Heróis nunca morrem, que veio da Semana da Crítica de Cannes, e a última exibição do suspense político “O relatório”, com Adam Driver. 

 Simpathy for the devil
Cinebiografia do repórter e fotógrafo de guerra francês Paul Marchand (Niels Schneider) cria um perfil agudo deste personagem real, que viveu por dentro o cerco a Sarajevo, em novembro de 1992. Um cerco, mantido pelos sérvios por 7 meses, que submeteu a capital bósnia a toda série de privações, incluindo água, eletricidade e mantimentos.
Paul é um peixe dentro d’água numa situação-limite como esta, aquele tipo de profissional viciado em adrenalina, que tem seus instintos estimulados por essas condições de perigo. Abrigado, como os demais jornalistas, num hotel, sua rotina diária incluía dirigir seu carro de reportagem a toda velocidade, na avenida que, não por acaso, ganhou o apelido de “sniper alley” (avenida dos snipers), já que estes atiradores faziam alvo nos automóveis que passavam por ali, mesmo estando identificados como veículos de imprensa.
O filme de estreia do diretor Guillaume de Fontenay consegue criar com exatidão esta atmosfera em torno de um personagem fascinante e contraditório, num cotidiano de uma instabilidade avassaladora, humanizando esta figura, que não poderia senão morrer tragicamente. (Neusa Barbosa)
 
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM          24/10/19 - 17:00 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP     25/10/19 - 19:00 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  28/10/19 - 16:00 
 
 Heróis nunca morrem
Veio da Semana da Crítica de Cannes este longa de estreia da diretora francesa Aude Léa Rapin, que tem como nome principal do elenco a atriz Adèle Haenel. Ela interpreta Alice, amiga do jovem Joachim (Jonathan Couzinié), que um dia na rua, em Paris, vive um episódio extraordinário: um homem se aproxima dele e diz que ele é Zoran, alguém que morreu na Bósnia em 21 de agosto de 1983, que vem a ser a data exata do nascimento de Joachim. 
O homem desaparece, mas Joachim fica obcecado com a história, a ponto de convencer Alice e outra amiga, Virginie (Antonia Buresi), a empreender uma viagem à Bósnia, em busca de sinais desse Zoran. Alice, aliás, já conhece aquela zona, pois cobriu a guerra nos Bálcãs. 
O filme se torna, então, esta investigação, um tanto misteriosa, em torno desta possibilidade de Joachim ser uma reencarnação de Zoran, ou qualquer outra hipótese, com toda a carga de incerteza, instabilidade e mesmo loucura que isto representa. Há um sabor especial nos encontros mantidos pelos três na região, que permitem retratar choques culturais mas também interações humanas de várias qualidades. É, de muitas maneiras, um filme instigante, ainda com algumas inseguranças da diretora de primeira viagem. (Neusa Barbosa)
 
CINESESC   25/10/19 - 17:45 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   27/10/19 - 21:30 
 
 O relatório
Drama político de alta voltagem retrata os esforços de um investigador a serviço do Senado norte-americano, Daniel Jones (Adam Driver), para provar que a CIA recorreu a métodos de tortura contra suspeitos de terrorismo no pós-11 de Setembro.
Trabalhando para o gabinete da senadora Dianne Feinstein (Annette Bening), Jones é aquele funcionário dedicado, incansável, capaz de deslocar-se diariamente, por alguns anos, ao arquivo a que a CIA lhe dá acesso, escarafunchando, com sua pequena equipe, milhares de documentos, relatórios, e-mails. Sua busca é identificar sinais de que os chamados “métodos de aperfeiçoamento de interrogatório” contra suspeitos de terrorismo estão cruzando a linha. E ele acha indícios de que, com a assessoria de dois psicólogos, a CIA está, na verdade promovendo tortura de suspeitos, submetendo-os a privação de sono, afogamento e outros métodos proibidos - causando até uma morte.
O tema é interessantíssimo mas o diretor/produtor Scott Z. Burns não manejou tão bem o material à sua disposição, tornando a narrativa eventualmente cifrada e complexa demais. Ainda assim, o desempenho de Driver, Bening e também de Jon Hamm, como um senador democrata que tenta salvar a cara do governo Obama neste dilema, garantem o interesse. (Neusa Barbosa)
 
ÚLTIMA SESSÃO: ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  25/10/19 - 14:00 
 
 A fera e a festa
Esta coprodução entre República Dominicana, Argentina e México é provavelmente um dos filmes mais estranhos de toda a Mostra - e esta não é uma crítica negativa. Pelo contrário: esta é uma das histórias mais imprevisíveis à disposição na programação e o que é mais inusitado é que parte dela baseia-se em fatos reais. O filme dirigido por Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán resgata em parte a história de um diretor dominicano, J. L. Jorge, que viveu na França e retornou ao seu país, deixando para trás uma escassa filmografia e um filme inacabado, antes de morrer.
É este projeto que seus amigos irão, finalmente retomar, tendo à frente dele a amiga de Jorge, Vera (Geraldine Chaplin), que será a diretora. Ela chega à República Dominicana, reencontrando o amigo Victor (Jaime Pina), um dos produtores. Este é o início de um processo de reencontro com o passado, que atormenta Vera de várias maneiras. Ela começa a filmar a produção, um musical caribenho, de cujo elenco faz parte o jovem Yony (Jackie Ludueña), que tem uma ligação familiar com ela. Também integra o elenco o carismático Udo Kier, que participa como coreógrafo do filme em produção dentro do filme. 
Exibido na seção Panorama do Festival de Berlim,este filme mistura gêneros - suspense, drama, musical - e incorpora também trechos da obra de J.L. Jorge, que morreu em 2000.  (Neusa Barbosa)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS     25/10/19 - 15:20 
CINESALA   27/10/19 - 21:40 
 
 Leve-me para um lugar legal
Premiado no Festival de Roterdã, Leve-me para um lugar legal é um filme que preza, acima de tudo, a sinceridade. O longa escrito e dirigido pela bósnia (radicada em Amsterdã) Ena Sendijarevic poderia ser facilmente manipulador, mas a diretora, em seu longa de estreia, opta pela contenção e o absurdo à la Jim Jarmusch, resultando num filme repleto de boa vontade e que cumpre o que promete.
A protagonista, Alma (Sara Luna Zorić), vive na mesma situação que a diretora, mas é uma adolescente que precisa voltar para a Bósnia, e visitar o pai que está hospitalizado. A jornada ganhar contornos surreais, especialmente porque seu primo, Emir (Ernad Prnjavorac), que deveria ajuda-la, não está nem aí para ela, e sobra para o amigo dele, Denis (Lazar Dragojević). Nada sai minimamente como o planejado, e Alma acaba pegando carona com uma cantora decadente, Jovana (Jasna Đuričić).
A fotografia de Emo Weemhoff valoriza o colorido vibrante, com tons pastel que parecem quase saídos de uma loja de doces, com uma tela quadrada que parece tentar conter Alma em toda sua experiência de amadurecimento. É um filme claramente inspirado em Estranhos no Paraíso, mas numa ótica feminina, a partir de uma garota em busca, acima de tudo, de suas origens, de sua terra natal. Nesse sentido, Sara Luna Zorić é um achado. Quase sempre emburrada, sempre infeliz (algo justificável até), ela é uma presença magnética na tela. (Alysson Oliveira)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS - 25/10/19 - 13:30
 
 Não me ame
O catalão Lluís Miñarro é conhecido de longa data da Mostra, na qual apresentou diversos filmes como produtor – desde Manoel de Oliveira (O estranho caso de Angélica), Apichatpong Weerasethakul (Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas) até Naomi Kawase (O segredo das águas), entre vários outros –, agora traz seu segundo longa de ficção como diretor, Não me ame, uma extravagância que parece uma combinação de Peter Greenaway com Pedro Almodóvar.
Seu roteiro, coescrito com Sergi Belbel, parte da história bíblica de Salomé situando-a numa região não nomeada do Oriente Médio em 2006 – embora o filme tenha sido rodado no México. Salomé (Ingrid Garcia-Jonsson) é uma soldado com uma relação um tanto ambígua com um preso político chamado Yokanaan, O Profeta (Oliver Laxe, diretor de O que arde, também na programação da Mostra). Ele é um terrorista preso numa caverna subterrânea, num campo comandado pelo padrasto da protagonista, Antipas (Francesc Orella).
A primeira parte do filme se concentra em diálogos entre os dois soldados que cuidam do prisioneiro Hiroshima (Luis Alberti) e Nagasaki (Fausto Alzati), e vão desde assuntos mais triviais – como Cães de aluguel é uma cópia de Kubrick, que, por sua vez, encenou a chegada do homem à Lua – até mais sérias, como os horrores da guerra que enfrentam, tudo pontuado por uma tensão homoerótica entre ambos.
Salomé é a força que desestabiliza o campo de prisioneiros à la Abu Ghraib. Com seus cabelos presos e farda, ela tem um aspecto andrógino desconcertante. Ela fica fascinada pelo Profeta e, mesmo correndo riscos, o leva para a superfície, e tenta seduzi-lo. O que se segue é uma história tão antiga quanto conhecida.
Ela é a personagem mais bem resolvida do filme, com algo além das aparências, embora bastante calcada na representação simbólica. A fotografia do espanhol Santiago Racaj (Verão 1993) valoriza o colorido, os contrastes e texturas da paisagem natural, tornando-as, muitas vezes, algo surreal, resultando num filme bonito de se ver com suas imagens vibrante, mas nem sempre interessante de se acompanhar. De qualquer forma não deixa de ser um exercício de estilo desafiador. (Alysson Oliveira)
 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP - 25/10/19 - 17:00
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP - 27/10/19 - 19:00
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 28/10/19 - 14:00
SESC BELENZINHO - 29/10/19 - 19:00

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