Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Dia de dramas emocionantes e do documentário musical “Amazing Grace”

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Nesta quinta (24), algumas das principais atrações são o drama australiano “Corações e ossos”, com Hugo Weaving na pele de um fotógrafo de guerra; a comédia dramática brasileira e  premiada “Pacarrete”, com Marcélia Cartaxo e o drama turco “Pertencer”, em torno de um crime em família.
 
Corações e ossos
A delicadeza e intensidade desta drama australiano, estreia na ficção do documentarista Ben Lawrence, está na qualidade que o diretor consegue injetar no confronto de interesses que surge quando um fotógrafo de guerra, Daniel Fisher (Hugo Weaving) decide montar uma exposição de suas fotos. 
Tudo que Dan pretende é que as pessoas não percam a sensibilidade diante destas fotos, cujas circunstâncias o tornaram um portador de transtorno de estresse pós-traumático - ainda que não poucos o acusem de sensacionalismo e exploração da miséria humana.
A visita de um simpático motorista, originário do Sudão do Sul, Sebastian Ahmed (Andrew Luri), introduz um outro elemento na história. Ahmed quer convencer Dan a não expor uma foto em particular, que retrata o vilarejo de sua origem. O relacionamento entre estes dois homens desencadeia uma história que revela os dilemas por trás destas guerras, de uma maneira nada banal, sem heróis ou vilões maniqueisticamente recortados. 
A solitária presença feminina é da namorada de Dan, Josie (Hayley McElhinney), que funciona como contraponto a estas histórias masculinas, tentando criar algumas raízes afetivas e emocionais com o fotógrafo. É um filme sensível, adulto, marcante. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   24/10/19 - 17:40 
CINEARTE 1 28/10/19 - 17:50 
 
Pacarrete
Este mágico filme cearense levou oito merecidos Kikitos - incluindo melhor filme para os júris oficial e popular, melhor direção (para o estreante em longas Allan Deberton), melhor atriz para a iluminada Marcélia Cartaxo e melhor coadjuvante para Soia Lira. Combinando uma originalidade de linguagem com interpretações inspiradas de um elenco sublime, instaura, com rigor, um clima mesclando fantasia, realismo e crítica social com impressionante segurança. 
Pacarrete, antes de tudo, é um filme que faz sonhar e empolga pela luta individual de sua peculiar protagonista, que empresta seu nome da palavra francesa que define um tipo de margaridinha e homenageia em sua linhagem diversas heroínas do cinema, passando pelas mulheres de Giulietta Masina, Amélie Poulain e um quê de Charlie Chaplin, até. 
Nem por isso, esta Pacarrete elegante, coquete, é desprovida de arestas - sua inteligência, cultura, independência são contrabalançadas por uma certa teimosia e impertinência. Mas nenhuma atriz melhor do que Marcélia para encarnar esta mulher às vezes engraçada, às vezes curiosa, às vezes patética, numa jornada solitária contra um mundo que se imbeciliza a passos largos - esta uma metáfora até política, num dos inúmeros caminhos abertos por essa história  de apelo universal, cujas camadas somente visões reiteradas do filme poderão contemplar. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 1  24/10/19 - 21:30 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   25/10/19 - 15:30 
CINEARTE 2  28/10/19 - 15:45 
 
Adam 
Comédia de Rhys Ernst, diretor com experiência em séries de TV,  tem como protagonista o adolescente Adam (Nicholas Alexander), que vai para Nova York passar um tempo com a irmã mais velha, Casey (Margaret Qualley) - que é lésbica, mas os pais não sabem. Típico garoto no ensino médio, que só pensa em arrumar uma namorada, Adam cai de pára-quedas na cena gay e militante de Nova York com a irmã, que estuda na universidade de Columbia. 
Numa noite, ele vai a uma festa com ela e fica caído por uma garota - que pensa que Adam é trans. Ele mantém a farsa, permitindo ao filme entrar com leveza numa investida que discute a militância e as declarações nesse vasto território das identidades sexuais dos tempos atuais. Até onde Adam vai levar a sua farsa infantil é que são elas. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   24/10/19 - 17:10 
CINEMATECA - SALA BNDES 26/10/19 - 20:20 
CINEARTE 1  28/10/19 - 20:00 
 
Amazing grace
É possível ouvir o álbum Amazing Grace, de Aretha Fraklin, em streaming na internet com ótima qualidade, mas aí só é possível ouvir. O filme do mesmo nome leva à tela uma apresentação do disco e seus bastidores de maneira epifânica. Vê-la em toda sua graça extraordinária soltando o vozeirão com música gospel numa igreja batista é o mais próximo de uma experiência religiosa que se pode ter no cinema.
O documentário foi rodado durante duas noites, em janeiro de 1972, na New Temple Missionary Baptist Church, em Los Angeles, onde Aretha, aos 46 anos e famosa, vai para retomar músicas de quando era uma cantora gospel no coral da igreja. Amazing Grace foi não apenas o disco mais vendido do gênero gospel, mas também o mais vendido da carreira dela. E não é para menos, o que se vê e, principalmente, se ouve é uma explosão em forma de voz e súplica que transcende os parâmetros de música religiosa.
Na época, Sidney Pollack foi contratado pela Warner para filmar as duas noites. Era o momento do auge do cinema verité, e o concerto foi capturado numa imagem belamente granulada. Mas problemas técnicos – especialmente de falta de sincronia – impediram o documentário de ser lançado. Quando isso pode ser resolvido, a própria cantora impediu o lançamento - os motivos nunca ficaram claros. Agora, com todas as questões técnicas e legais resolvidas, o longa foi finalizado (pelo músico Alan Elliott, creditado como codiretor), pode ser exibido e merece ser visto no cinema - tem que ser, na verdade, pois só uma tela gigante e um som potente podem fazer justiça ao vozeirão cantando uma música que combina “Precious Lord, take my hand” e “You’ve got a friend”.
Na primeira noite, a igreja não está muito cheia. As poucas pessoas são um tanto discretas, mas, na seguinte, quando os fieis chegam com roupa de gala e tudo mais o filme cresce. A cantora fala pouco entre uma música e outra, mas quando seu pai, o ministro batista C.L. Franklin, fala, é possível ver de onde vem a força de Aretha. Ele é pomposo e amoroso – é comovente o momento em que ele enxuga o suor do rosto dela enquanto canta –, mas também nota-se como ela teve de lutar num mundo dominado por homens como ele para conseguir respeito, e “descobrir o que isso significa”, como diz uma de suas músicas mais famosas.
É claro que o apelo primordial do filme é para fãs de Aretha, mas não deveria se limitar a eles. Amazing Grace (tanto o disco quanto o longa) tem o poder de transcender e ir além de um show de música gospel. O documentário é também uma maneira de compreender como o álbum fez tanto sucesso – merecidíssimo, aliás. (Alysson Oliveira)
 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS - 24/10/19 - 15:20
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 29/10/19 - 20:00
 
O que não mata
A diretora francesa Alexe Poukine tinha uma história para contar, mas não sabia como. Era o relato de um estupro que ouviu, em primeira pessoa, da vítima. “Eu tinha que fazer um documentário daquilo, era importante, mas eu não sabia como. Daí apareceu na tela do meu computador um nome: Eduardo Coutinho”, diz ela, pronunciando  o nome do cineasta brasileiro com um sotaque carregadamente francês. “E também um filme Jogo de Cena. E, voilà, descobri como resolver meu problema”. O resultado é O que não mata, que fez sua estreia no Brasil na Mostra. “Era importante trazer o filme para o Brasil, as pessoas iriam detectar o dispositivo que eu estava usando. Seria o lugar no mundo que, certamente, iriam identificar que tive uma influência do Coutinho, e o que isso tudo significa.”
Poukine estava terminando um curta quando uma desconhecida se aproximou dela,  disse que gostava do jeito como retratava as pessoas, e tinha uma história para lhe contar. “A minha reação, enquanto ela contava do estupro que sofreu, foi um clichê. Quando percebi, em minha cabeça, eu estava culpando essa garota: por que ela deixou que isso acontecesse? Foi preciso parar e pensar, e perceber que eu a estava julgando.”
A moça escreveu um relato dividido em capítulos, e Poukine escalou atrizes profissionais – pouco ou nada conhecidas –, não-atrizes e até homens para “interpretar” trechos desse testemunho. Mas o longa vai além disso: cada uma dessas pessoas acaba contando experiências próprias ou fazendo comentários sobre o episódio, e o filme se transforma numa grande investigação sobre a dinâmica do abuso e do desejo no mundo de hoje. A documentarista comenta que começou a fazer essa longa muito antes da ascensão de movimentos como o #Me Too, mas que uma confluência de fatores permitiu que as duas coisas se encontrassem. O resultado é um filme urgente sobre o nosso presente, um filme que dez anos atrás não seria possível. “Há uma linha entre a possibilidade, os jogos amorosos e o estupro. Muita coisa é possível desde que haja concordância de todos e todas envolvidas.”
Poukine conta ser uma feminista engajada e, por isso, ficou assustada quando se pegou julgando a vítima de um estupro. “Isso tudo está muito introjetado em todos nós. É preciso repensarmos muita coisa sobre a política de gênero, por exemplo.” Ela espera que seu filme contribua para a discussão. “Tivemos sessões em diversos festivais em vários países. Em um deles, todos os homens e mulheres saíram da sala durante a projeção. Apenas um pequeno grupo de garotas, de 20 e poucos anos, ficou até o final. É um problema que as pessoas evitam encarar de frente. O estupro existe, o abuso também. O estuprador não é apenas um homem que fica escondido no escuro e ataca na rua. Pode ser o seu vizinho, ou seu melhor amigo que é um cara legal, mas, num momento, ele se valeu do poder e abusou de uma mulher, mesmo achando que estava fazendo outra coisa, que ela estava gostando.”
Com o dispositivo de colocar várias pessoas contando o relato, Poukine diz que “coloca todo mundo na pele da vítima. E isso é um jeito de mostrar como somos todos e todas iguais, que é um problema para a mulher, para o homem também. O estereótipo de gênero é nocivo para os meninos, eles são obrigados a crescer acreditando que não podem ouvir um ‘não’ de uma garota.” Uma das soluções, diz ela, é o ensino de educação sexual nas escolas. “A transformação pode começar na juventude, na conscientização do que são as coisas. Nem gosto muito da palavra ‘consentimento’, pois parece uma autorização. A mim, parece anular o desejo de um dos lados que está apenas deixando que as coisas aconteçam. Acho que o melhor é chamar de uma parceria. Todos os envolvidos querem que aconteça a relação, então aí está tudo certo.” (Alysson Oliveira)
 
CIRCUITO SPCINE OLIDO - 24/10/19 - 19:00
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM - 30/10/19 - 16:45
 
Pertencer
Pertencer é, acima de tudo, um projeto pessoal do jovem diretor turco Burak Çevik. Destemido na forma, o longa transita entre o documentário e a encenação a partir de um episódio em que um homem e sua namorada planejam o assassinato da mãe dela, avó do cineasta. É uma ferida familiar que é investigada na tela a partir de cartas do assassino.
O filme começa exatamente com elas, nas quais Onur conta como conheceu Pelin e como esse relacionamento se desdobrou. A seção do meio, então, retoma a primeira noite em que o casal se conheceu. Dois jovens se descobrindo, descobrindo um ao outro, ao amor. Mas, como já sabemos desde o prólogo, esse romance culminará em violência e uma tragédia que marcou uma família 15 anos atrás.
Çevik tem um controle muito absoluto da narrativa e evita qualquer sensacionalismo no qual o filme poderia cair. É um trabalho respeitoso com a memória de sua avó, com a história de sua família, sem se tornar reverente ou condenatório. Pertencer é a crônica de uma melancolia, de um amor fadado ao fracasso – embora não o fosse a priori, mas chegamos a Onur (Çaglar Yalçinkaya) e Pelin (Eylül Su Sapan), do segmento encenado, já sabendo como se desdobra o romance entre eles.
Pertencer é um filme que encontra complexidade em seu dispositivo até simples, que no fundo encobre uma instância de camadas sobre a dinâmica de gênero, sobre a sociedade turca. É, como o diretor esclarece no prólogo, uma investigação pessoal de um fantasma que o cerca e que, com o longa, espera que finalmente possa libertá-lo. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1- 24/10/19 - 14:00
CINESESC - 26/10/19 - 15:45

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