Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Documentários e ficções tomam o pulso dos problemas mundiais

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

“Fotógrafo da guerra”, “Viajante da meia-noite” e “O século da fumaça” são três documentários em destaque na programação desta quarta. Na ficção, dois títulos instigantes são a produção dinamarquesa filmada nos EUA “Gutterbee” e o argentino “Chuvas suaves virão”, premiado em Mar del Plata.
 
 Fotógrafo da guerra
O dinamarquês Jan Grarup é o personagem deste documentário, dirigido por Boris Benjamin Bertram, que acompanha seu perigoso cotidiano de trabalho, em países como o Iraque, Chade e República Centro-Africana, alternando essas imagens com sua convivência com os quatro filhos em sua casa, em Copenhague.
Profissional experiente e destemido, acostumado a encarar países destroçados por batalhas, guerras civis, bombardeios e disputas de territórios, Jan está enfrentando um grande drama pessoal. Sua ex-mulher, Zasha, de quem ele se divorciou e com quem teve três filhos, hoje adolescentes, está terminalmente doente, internada no hospital. Por isso, esses filhos mudam-se para morar com ele, que tem ainda uma filha pequena de outro relacionamento. 
É muito tocante essa humanização do fotógrafo, que tem conversas com os filhos que qualquer outra pessoa teria - como é natural, mas nem sempre se tem isso em vista ao vê-lo correndo pelas ruas bombardeadas de um país remoto, correndo pela própria vida para arriscar-se a fazer as imagens que levam ao resto do mundo terríveis acontecimentos. Por conta disso, conhecemos também os riscos enormes envolvidos no perigoso trabalho de Grarup - como entrar numa área ilegal, proibida aos jornalistas pelas autoridades, para fotografar corpos dos civis mortos, o que os militares locais não querem. 
É um perfil bastante agudo e honesto de um personagem ao mesmo tempo comum e extraordinário. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 23/10/19 - 16:20 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP     25/10/19 - 15:00 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   27/10/19 - 14:00 
 
 Gutterbee
Este segundo longa do ator e diretor dinamarquês Ulrich Thomsen (do elenco de Festa de Família) é uma saborosa incursão ao coração do meio-oeste norte-americano, que em vários momentos lembra os filmes dos irmãos Coen, por seu humor negro, acrescentando uma velada intenção de comentar a América de Donald Trump.. 
Na modorrenta cidadezinha que dá nome ao filme, o mandachuva é Jimmy (W. Earl Brown), que é um fervoroso adepto do lema trumpista, “America Primeiro”, expulsando índios, mexicanos e chineses. Para compensar a visível decadência econômica local, Jimmy, junto com o filho, Hank (Joshua Harto), organiza uma espécie de “cabaré” num galpão, que tem a intenção de atrair moças para casar-se com os homens locais.
Um alemão, Edward (Ewen Bremner), dedicado estudioso da fabricação de salsichas, compra uma capela abandonada, querendo fazer ali o seu restaurante.A intenção de Edward incomoda Jimmy, montando o cenário da batalha pelo território, corações e mentes do ambiente, em que pipocam personagens bizarros.
O romance da história fica por conta de Edward e uma garçonete, Sue (Pia Mechler), que tem um defeito na perna.
Mesmo filmando tão longe de sua Dinamarca Natal, o diretor e corroteirista Thomsen realiza um filme saboroso em suas ideias e personagens, injetando humor negro, comentário social e também uma dose de violência. Quem viver, verá. (Neusa Barbosa
 
CINESESC                                23/10/19 - 19:50 
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS     25/10/19 - 17:10
CINESALA                                27/10/19 - 17:50 
 
 Viajante da meia-noite
Documentário na primeira pessoa do cineasta afegão Hazan Fazili acompanha o calvário em que ele, sua mulher, Fatima, e duas filhas pequenas, Nargis e Zahra, sofreram ao longo dos últimos anos, quando tiveram que deixar seu país por conta de ameaças do Talebã. 
O filme todo é feito através de três celulares, que passam pelas mãos dos quatro integrantes da família, para mostrar os trajetos, revezes, aflições e cenas de interação e acolhimento, além dos inúmeros entraves burocráticos, pelos quais passaram, atravessando países como o Tajiquistão, Turquia, Bulgária, Sérvia, Hungria.
Hospedando-se em casas de amigos, em campos de refugiados, no meio do mato ou em prédios abandonados, a família resistiu à perda de seu dinheiro, sempre em busca da aceitação de seu pedido de asilo num país da comunidade europeia.
Por mais que se possa ler nos noticiários o que se passa com pessoas nesta situação, nada é mais eloquente do que as imagens colhidas pelos Fazili, mostrando não só suas aflições, como a de várias outras pessoas com quem compartilharam estes momentos de incerteza. É o tipo do filme que faz pensar no tipo de mundo em que estamos vivendo. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 23/10/19 - 18:15 
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM          25/10/19 - 19:10 
 
 A grande muralha verde
O documentário, que tem produção executiva do brasileiro Fernando Meirelles, segue a cantora e ativista maliense Inna Modja numa eletrizante viagem pelo continente africano. A ideia é mostrar em que ponto está o projeto da União Africana, idealizado em 2008, de construir um cinturão verde na região do Sahel, plantando árvores num território que se estende do Senegal ao Djibouti, hoje atormentado por secas, devastação ambiental, instabilidade econômica e guerras civis.
Encontrando, ao longo do caminho, vários músicos dos países que atravessa, Inna realiza uma intersecção entre esta temática ambiental e a riqueza cultural de todos eles. E capta momentos de uma seriedade impressionante, como quando, na Nigéria, visita um campo de meninas órfãs depois das investidas dos fundamentalistas do Boko Haram - um momento com alta voltagem de emoção e esperança. 
Além do mais, poucas vezes se verá uma radiografia tão vibrante destes países africanos, filtrada pelo olhar de uma artista sensível e inteligente como Inna. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   23/10/19 - 15:20
CINESALA                                25/10/19 - 16:00 
CINEARTE 1                              29/10/19 - 18:15
 
 Chuvas suaves  virão
Existe uma espécie de regra tácita para o cinema: não se deve trabalhar com crianças e animais porque ambos são imprevisíveis e incontroláveis. O cineasta argentino Iván Fund quebra esses dois princípios em Chuvas suaves virão, uma meditação sobre o poder da imaginação lúdica diante do caos do mundo. Com roteiro assinado pelo diretor e Tomás Dotta, o longa toma emprestado o título de um conto de Ray Bradbury e de um poema da americana Sara Teasdale para acompanhar um mundo no qual os adultos caíram em sono profundo.
Este é um filme de estranhamentos e melancolia, situado num mundo que conhecemos mas envolvido em acontecimentos peculiares. Uma criança acorda, sua mãe continua a dormir. A menina sai pela rua e encontra outros garotos e garotas na mesma condição. Estão numa cidade pequena e, além deles, estão acordados apenas cachorros.
A fotografia de Gustavo Schiaffino é envolta por um tom meio etéreo, como de um sonho do qual não se consegue acordar, no limite de virar um pesadelo. Mas o olhar de Fund – tomando o ponto de vista das crianças – é lúdico, há um certo temor, mas não há desespero. É a chance dessas meninas e meninos fazerem o que quiserem, sem supervisão.
Premiado no Festival de Mar del Plata de 2018, o filme acaba naturalizando o que traz de mais estranho sob um olhar infantil que não foi corrompido pelas regras da sociedade. Portanto, não há preconceitos, não há disputas, o que impera é o companheirismo e a amizade. É quase uma utopia que privilegia o lúdico – o final enigmático é a prova disso. O sono dos adultos pode representar o sono da imaginação e criatividade. Quando se amadurece, a vida e o mundo cobram ser encarados de maneira mais realista. Cabe aos chicos e perros a chance de ignorar essa demanda.
Em seu poema – assim como no conto de Bradbury –, Teasdale imagina um mundo pós-apocalíptico, no qual a natureza segue em frente, em paz e sua glória mais plena, sem interferência humana. O filme toma as crianças como parte da natureza – relegando aos adultos um lugar à parte. “A própria primavera, quando acordar no alvorecer, mal perceberá que desaparecemos”, termina a poesia. No longa argentino, aos poucos, as crianças tomam o papel dessa primavera e recebem um mundo novo, podendo ser capazes de inventar algo melhor. (Alysson Oliveira)
 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP - 23/10/19 - 15:00
CINESALA - 25/10/19 - 22:10
SESC OSASCO - CINE CHAPARRAL - 26/10/19 - 20:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 29/10/19
 
 O século da fumaça
Como fazer um documentário sobre pessoas que não fazem ideia do que é cinema? Pessoas que nunca viram um filme, uma televisão, que vivem isoladas da sociedade? Esse foi um dos problemas que o jovem diretor belga Nicolas Graux enfrentou para realizar seu primeiro longa, este documentário. O filme acompanha uma família no Laos marcada pelo ópio, seja na produção, de onde tiram seu sustento, ou no consumo, que aos poucos destrói a vida de todos.
A comunidade de Pingchang é o cenário do filme – um cenário coberto de verde e chuvas que, às vezes, lembra os filmes de Apichatpong Weerasethakul. Graux conta que tudo começou com uma viagem de férias que fez ao Laos. “Aconteceu algo muito particular, senti uma ligação com aquele lugar. Quando voltei para casa, fui estudar a língua deles, a cultura, e passava a noite toda na internet observando mapas. Tornou-se uma obsessão.”
Foi preciso muita conversa e muita convivência com Laosan e sua família, além de uma equipe bem pequena, para que o filme acontecesse. “Eles não faziam ideia do que estava sendo feito, mas, aos poucos, foram sentindo confiança em nós e se abriram, contaram histórias que nunca tinham contado nem à sua família.” Isso, de certa forma, resulta num impedimento: o filme, ao menos não em sua íntegra, não poderá ser exibido na aldeia. “Eles confessam coisas que, se as outras pessoas souberem, destruiriam suas vidas.”
O filme foi rodado em dois momentos, em 2016 e 2017, durante as estações de chuvas de cada ano. Mas Graux conheceu a família em 2012, quando pediu para se hospedar na casa deles. Ele foi o primeiro homem branco que eles viram. “A partir dessa convivência, pude notar que eles são muito lúcidos sobre a situação deles. Sabem o quanto o ópio faz mal, como está destruindo os laços de afeto, a família.”
O documentarista conta também que seu propósito não era fazer um filme-denúncia ou passar uma mensagem ao público. Evitando julgamentos morais, ele busca aquilo que define como “uma experiência imersiva naquela realidade”. “É, para mim, a forma de descobrir que existe uma beleza naquele lugar, naquelas pessoas. É a busca pela beleza em meio à tragédia, e também a chance de dar voz a um grupo excluído e marginalizado, inclusive por seus pares.” (Alysson Oliveira)
CIRCUITO SPCINE OLIDO  - 23/10/19 - 15:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1- 29/10/19 - 15:10
 
 A verdadeira história da gangue de Ned Kelly
O sangue não jorra em A verdadeira história da gangue de Ned Kelly. Ele esguicha quase que delicadamente no rosto do assassino – o que se torna praticamente um símbolo de poder, a vitória numa disputa de narrativas. E narrativa aqui pode ser uma questão central. Ned Kelly é uma figura mítica que viveu na Austrália do século XIX, roubando dos ricos.  Sua trajetória é controversa, mas rendeu filmes, livros, peças de teatro e até videogames.
O australiano Justin Kurzel – de Macbeth – pode ter sido o responsável pelo filme definitivo sobre o fora-da-lei mais famoso de seu país, mas, mais do que falar de Kelly e sua gangue, aqui investiga o etos da sua nação, em sua consolidação como país em busca de independência. De origem irlandesa, Ned (na infância interpretado por Orlando Schwerdt) cresce num lar onde a mãe (a excelente Essie Davis) é obrigada a, discretamente, se prostituir para sobreviver. O cliente mais costumeiro é o sargento O'Neill (Charlie Hunnam).
 
O garoto acaba vendido para outro fora-da-lei (Russell Crowe), que iniciará uma espécie de educação sentimental sobre como ser um bandido. Quando Ned surge como jovem adulto na tela (George MacKay), ele está praticamente formado. O filme acompanhará a constituição de sua gangue, que atacava usando vestidos femininos.
O roteiro de Shaun Grant é baseado no romance premiado de Peter Carey que, deliberadamente, combina fatos e ficção. Como muito é incerto sobre a vida do personagem, a palavra “verdadeira” do título (do filme e do romance) é uma piscadela de cinismo para a maleabilidade da construção da narrativa histórica. O narrador (não-confiável) é o próprio protagonista, escrevendo uma carta para sua filha, que nunca pode conhecer.
A relação de Ned Kelly com o cinema é antiga, sendo que o primeiro longa da história, um filme de 1906 com 60 minutos, é sobre ele. Nos anos de 1970, Mick Jagger viveu o personagem também. Se essa foi uma tentativa de fazer um filme rock’n roll, Kurzel fez um western-punk iluminado com luzes estroboscópicas. A fotografia de Ari Wegner valoriza tanto a paisagem australiana como a iluminação artificial de interiores e exteriores, criando um pesadelo febril e inquieto.
A verdadeira história da gangue de Ned Kelly é um filme nervoso, que dificilmente falará com um público muito amplo. Mas quem estiver aberto às imagens e à narrativa de Kurzel, encontrará algo desafiador e instigante, sobre um bando de ladrões que no fundo são rebeldes contra a coroa inglesa. Eles se intitulam “Os Filhos de Sieve” (uma denominação criada por Carey). O embate final parece surgir direto daquele de Macbeth, e, mesmo sendo uma história conhecida, é acrescido de vigor, pulsação, em tons escuros entrecortados por prateados, do efeito estroboscópico, quase cegando-nos momentaneamente.
O filme é exatamente sobre escrever sua própria história, uma do passado que mira no futuro. Um comentário de um personagem secundário, no prólogo, mostra o quanto a história do bandido sobreviveu ao tempo, elevando sua categoria ao posto de herói; Kurzel recontou uma história antiga com um frescor impetuoso que deve incomodar e fascinar na mesma medida. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1- 23/10/19 - 19:10
CINEARTE 1 - 25/10/19 - 16:50
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 27/10/19 - 18:20

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