Repescagem exibe 29 filmes da seleção da Mostra

Suspense, road movie e resistência feminina são temas da terça na Mostra

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Um suspense dinamarquês com toque de terror, “O turista suicida”, com Nikolaj Coster-Waldau (“Game of Thrones), o road movie iraniano “Sem túmulo”, e o drama argelino “Papicha”, candidato do país a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, são os destaques do dia.
 
O turista suicida
Combinando drama, suspense e pitadas de ficção científica e terror, o filme do diretor dinamarquês Jonas Alexander Arnby é inquietante. Encabeçando o elenco está o astro de carreira internacional Nikolaj Coster-Waldau, fresquinho de sua participação como Jaime Lannister da série Game of Thrones. Só que o clima por aqui é glacial, bem diferente da série, embora tenha a ver com morte.
Ele interpreta Max, um agente de seguros em crise existencial e com sérios problemas de saúde. Cabe-lhe ir à procura de Arthur (Anders Mossling), um de seus clientes, que desapareceu. A investigação o leva ao encontro de um certo Hotel Aurora, localizado num local isolado e bonito, mas prestando serviços bem peculiares. Seus clientes o procuram como um lugar para suicídio assistido, onde terão ao seu dispor todos os recursos para satisfazer suas últimas fantasias e desejos.
Por conta de sua saúde, o próprio Max é um interessado em potencial nos serviços que a organização tem a oferecer. Tudo parece funcionar muito bem ali, mas há uma condição - uma vez feito o contrato, o cliente não pode desistir e voltar atrás. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 2                              22/10/19 - 22:05
CIRCUITO SPCINE OLIDO                   26/10/19 - 17:00 
 
O paraíso de Maria
A co-produção entre Finlândia e Estônia resgata a história verídica  de uma mística cristâ, Maria Akerblom, que criou em torno de si uma seita, na Finlândia dos anos 1920. Uma bela mulher, Maria (Pihla Viitala) é sedutora e convence seus seguidores de que recebe diretamente dos anjos mensagens divinas. Ela cria uma pequena comunidade, com diversos jovens de ambos os sexos, muitos órfãos, que ela acolheu em em troca, a servem e idolatram, além de adultos, alguns deles entregando-lhes inclusive todos os seus bens.
As atividades da mística atraem a atenção de algumas autoridades, dispostas a investigar mais a fundo o funcionamento do culto. Nada disso abala a fé em Maria da jovem órfã Salomé (Satu Tuuli Karhu), que se dedica inteiramente ao seu serviço. A chegada de Malin (Saga Sarkola), uma jovem filha de livres pensadores que foi separada dos pais, começa a abalar a confiança cega de Salomé, por enxergar sinais de que nem tudo é tão pacífico e perfeito no reino criado por Maria.
Com uma produção bastante bem-cuidada, este é o quarto filme da diretora finlandesa Zaida Bergroth, refletindo sobre um tema sempre oportuno, os riscos do fanatismo. (Neusa Barbosa)
 
CINESALA                                22/10/19 - 21:40
PETRA BELAS ARTES SL 1  VILLA LOBOS     24/10/19 - 18:55 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   26/10/19 - 18:00
 
Sem túmulo
Exibido na mostra Horizontes, do Festival de Veneza 2018, o drama iraniano de estreia do diretor Mostafa Sayyari estrutura-se como um road movie em torno de um funeral. O morto é o pai de três filhos - há um outro agregado, que o cuidava, cujo parentesco com o falecido não fica claro a princípio. A narrativa é assim, elíptica, não entregando muitas informações de uma vez, numa história que teve inspiração no livro Enquanto Agonizo, de William Faulkner, sem tratar-se de uma adaptação. 
O cuidador do morto (Madjid Agha Karimi) torna-se o avalista de sua última vontade - ser enterrado numa localidade remota do interior. A contragosto, os filhos juntam-se a ele para levar o pai nesta última viagem: o irmão mais novo (Elham Korda), a irmã (Vahid Rad) e o outro filho (Nader Fallah), extremamente nervoso e agressivo contra o agregado.
A convivência forçada entre estes quatro, numa estrada desolada e poeirenta, em condições climáticas difíceis - faz um calor insuportável - são os elementos que constroem uma tensão, acentuada pelas revelações sobre o passado da família, que vão sendo feitas a conta-gotas. A pressa em chegar ao local do sepultamento, diante das evidências de que o corpo está rapidamente se decompondo, carregam a atmosfera de uma história densa, que ocupa com gravidade seus escassos 73 minutos. (Neusa Barbosa)
 
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP     22/10/19 - 15:00 
CINEARTE 2                              25/10/19 - 18:20 
 
Papicha
Exibido na mostra Un Certain Regard de Cannes em 2019, o longa de estreia da argelina Mouna Meddour é um contundente retrato da opressão feminina em seu país - de onde a própria diretora teve que fugir, aos 18 anos, depois que a radicalização fundamentalista ameaçou seus pais, intelectuais, de morte.
Há, assim, um forte traço autobiográfico na trajetória de Nedjema (Lyna Khoudri), jovem estudante de moda, moradora da Argel dos anos 1990. O país está abalado por uma guerra civil e os fundamentalistas estão cada dia mais agressivos. Mas Nedjema e suas amigas resistem ao seu modo. Elas costumam ir dançar à noite numa boate, onde Nedjema vende às amigas que ali encontra suas criações - ela sonha tornar-se estilista. Mesmo vestidas como qualquer garota ocidental, elas não podem dispensar esconder, no táxi, as túnicas tradicionais com que terão de cobrir-se, caso passe algum carro de polícia - o que eventualmente acontece, criando uma tensão.
Os sinais de que os radicais islâmicos se fortalecem estão cada vez mais visíveis, como os cartazes, colados em todos os muros, intimando as mulheres a cobrir-se com os véus e túnicas tradicionais. Nedjema confronta um rapaz que cola esses cartazes e a reação dele é super-violenta - eles estão sentindo-se encorajados por um clima opressor.
Na faculdade, Nedjema e as amigas planejam um desfile de moda, no qual poderão apresentar seus modelos. O projeto é violentamente contestado por um grupo de mulheres, todas cobertas à moda tradicional, que invadem a faculdade, proíbem o desfile, rasgam tecidos e agridem as moças. Quando elas vão embora, Nedjema e as outras se consolam mas não querem desistir - vão manter o desfile, custe o que custar.
Indicado como representante da Argélia para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, Papicha é um digno retrato de resistência feminina em tempos obscurantistas. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   22/10/19 - 17:30 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  26/10/19 - 14:00 
CINESALA                                28/10/19 - 19:45 
 
Os dias da baleia
Há um frescor juvenil e uma pulsação contagiante no colombiano Os dias da baleia, estreia na direção de longas de Catalina Arroyave Restrepo, premida no SXSW, no começo do ano, como talento feminino mais promissor. E é um prêmio mais do que merecido por esse drama que combina fantasia e investigação social numa Colômbia onde cabe às gerações mais jovens encarar de frente os resquícios do tráfico de drogas. “As pessoas precisam falar disso. Nossa sociedade vive em negação. Essa batalha é nossa”, disse a jovem cineasta em entrevista ao Cineweb.
Cristina (Laura Tobón Ochoa) é uma jovem universitária e grafiteira na cidade de Medelín. Ela vive com o pai – a mãe jornalista foi obrigada a deixar o país por conta de reportagens explosivas – com quem tem conflitos, mas também uma relação bastante próxima. Ela e seu namorado, Simon (David Escallón Orrego), pintam os muros da cidade, levam cor para um lugar que seria acinzentado. Eles, no entanto, batem de frente com um grupo de traficantes, e suas vidas são colocadas em risco.
Nessa mesma época, aparece uma baleia num rio local, e as pessoas mal se dão conta disso. “Minha cidade é cercada de montanhas, jamais uma baleia chegaria até lá”, diverte-se a diretora. “Mas eu usei o animal como uma metáfora, como algo grande, impossível de ser ignorado, mas que todos optam por ignorar.” Tudo isso representando o perene problema do tráfico de drogas que consome vidas e a juventude. Ela conta que sentia a necessidade de trazer essa conversa à cidade. “As pessoas sempre acharam que isso era um problema superado, mas ainda há muito o que se discutir.”
A cineasta, que também assina o roteiro, conta que passou três anos redigindo-o, e muitas mudanças foram feitas a partir da escolha da atriz Laura Tobón Ochoa como protagonista, um encontro que, aliás, não foi fácil. “Procurei muito, precisava de uma atriz que também soubesse grafitar. Não tinha como fingir isso, ela estaria em cena fazendo desenhos. Quando encontrei a Laura não tive dúvidas que era ela, mas precisou aprender como se faz grafite.” Entre suas influências, a diretora cita a inglesa Andrea Arnold – de American Honey e Aquário, filmes também sobre uma juventude em disputa com a sociedade que a cerca
E, pelo jeito, seu filme não passará despercebido. A primeira sessão pública na cidade foi em uma praça, a céu aberto, reunindo mais de 6 mil pessoas. “Foi uma surpresa, esperávamos umas 800 e, de repente, foi lotando. A maioria era jovem, e houve uma identificação muito grande com o filme, com os personagens, que estão em busca de um mundo melhor. Isso nos dá uma certa esperança, ao ver que a juventude está interessada em encarar essa questão de frente.” (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 22/10/19
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO – CCSP - 26/10/19 - 15:00
 
O filme do Bruno Aleixo
Bruno Aleixo é uma figura querida da cultura pop portuguesa contemporânea. Uma figura animada, que mistura cachorro com urso, o personagem conquistou Portugal – e parte do Brasil – na internet e televisão a cabo. Seus esquetes são de um humor peculiar, um tanto ingênuo e um bocadinho cínico. O filme de Bruno Aleixo é a chegado do animal e sua turma, igualmente, estranha ao cinema. João Moreira e Pedro Santo, criadores e dubladores dos personagens (ou, como dizem em Portugal, dobradores), roteiristas e diretores do longa.
No filme, Aleixo é convidado a escrever um longa autobiográfico e, de última hora, reúne seus amigos para tentar produzir uma história. O resultado não podia ser mais nonsense, como tudo na vida desse pessoal. Cada um sugere um gênero que vai do noir contemporâneo até uma sitcom num bar, aos moldes de Cheers.
Cada filme, imaginado por Aleixo e companhia, é, na verdade, interpretado por atores de carne e osso, como Adriano Luz e Rogério Samora, nos papéis do protagonista e seu amigo, o Homem do Bussaco. “Colocar gente de verdade para fazer as cenas nos deu uma possibilidade que os bonecos originais não dão, pois eles não têm movimento”, explica Moreira. Participam também da mesa de sugestões alguns dos personagens mais famosos dos vídeos: o Busto e Renato Alexandre, uma criatura inspirada no Monstro da Lagoa Negra.
Os atores, conta a dupla, não sabiam muito bem no que estavam se envolvendo. “O Adriano nunca tinha assistido a um vídeo do Aleixo e não fazia ideia do que era até ver o filme pronto. Ele achava que estava fazendo uma comédia normal e levou um susto”, conta Santo. O susto foi ainda maior ao se ver dublado – com a conhecida voz de Aleixo – na tela.
Tudo, conforme dizem os diretores, é novidade para eles também. “Não sabemos como o público vai reagir, e também precisamos chegar a um público além dos fãs dos vídeos.” A primeira sessão do longa foi na Mostra, e os diretores comemoram o resultado. “Tinha muita gente que já era fã do Aleixo, foi divertido. Queriam saber muito sobre a vida dele, mais do que sobre o filme.” Moreira confessa que há algumas referências no filme que podem escapar aos não-portugueses, como a presença do humorista português Fernando Alvim. No Brasil, o longa tem previsão de estreia para janeiro do próximo ano, lançado pela Vitrine.
Moreira e Santo vieram a São Paulo com um outro propósito: além da estreia mundial do filme: ver uma jaca de perto. “Somos fascinados, mas nunca vimos a fruta. Ela representa o personagem brasileiro no longa”. O amigo de Bruno, Jaca, é dono de uma pensão no Rio de Janeiro e aparece apenas como uma imagem no celular, quando o protagonista liga para ele pedindo uma sugestão - é uma participação pequena mas marcante. Ele sugere que o filme seja feito nos moldes de uma novela de Manoel Carlos – bastante famosas em Portugal também. Mais do que com a fruta, os diretores ficam empolgados quando descobrem que existem os copos com bico de jaca. “Eu preciso comprar um desses para levar para minha casa. Onde tem?”, diverte-se Moreira. (Alysson Oliveira)
 
CINESALA - 22/10/19 - 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 27/10/19 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 30/10/19 - 17:30

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