Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Brasília começa com vaias, protesto e filme internacional

Neusa Barbosa, de Brasília

 Brasilia - Com direito a prolongadas vaias ao secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Adão Cândido, e a tentativa de retirar do palco e, finalmente, a cassação de microfone do ator Marcelo Pelúcio, que lia, fora do protocolo previsto, uma carta de protesto contra os cortes de verbas para a cultura, o que mereceu os gritos de “censura!” da plateia, teve início nesta  sexta (22) o 52o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Este primeiro festival na era Bolsonaro teve, nas quase duas décadas que cubro este festival, de longe, a abertura mais inflamada que presenciei.
 
Houve espaço também para uma homenagem à documentarista Débora Diniz, no momento vivendo fora do Brasil devido a ameaças, outorgado pela Associação de Cinema e Vídeo de Brasília. Débora enviou um emocionado agradecimento em vídeo, que foi seguido de um discurso de membros da ABCV, criticando a saída da Câmara Federal do festival, depois de mais de 20 anos - a Câmara concedia vários prêmios em dinheiro a realizadores - e a falta de edital neste ano do Fundo de Apoio ao Audiovisual em Brasília, uma das causas das vaias ao secretário, também mencionada no agradecimento de Débora e na carta lida por Pelúcio. 
 

 “Censura!”

As vaias só se aplacaram quando subiu ao palco do Cine Brasília o ator Stepan Nercessian, que recebeu das mãos do secretário (foto ao lado) um troféu Candango por seus 49 anos de carreira. Afinado com o clima da noite, Nercessian fez um emocionado discurso. “Passamos por momentos horrorosos e não pensem que eles desaparecerão. Mas o cinema resistiu, resiste e resistirá”, palavras que foram seguidos de aplausos, estes sim unânimes. 

 Foi logo após a apresentação pela equipe do filme da noite, o drama O Traidor, de Marco Bellocchio, exibido hors concours, que se desencadeou o episódio envolvendo Marcelo Pelúcio. Ele subiu ao palco junto com os produtores do filme, Caio Gullane, Fabiano Gullane e André Ristum, a atriz Maria Fernanda Cândido (foto ao lado) e o compositor Patrick de Jongh e esperou pacientemente que eles falassem. 
Ristum leu a carta enviada por Marco Bellocchio, que no momento está num giro pelos EUA com o ator Pierfrancesco Favino, em sua campanha de divulgação do filme, concorrendo a indicações ao Oscar de filme estrangeiro e Globo de Ouro.
 
Logo depois, Pelúcio tomou o microfone e começou a ler sua carta, assinada pelo Movimento Cultural do Distrito Federal, reunindo diversas entidades artísticas. Um segurança se aproximou, manifestando intenção de retirá-lo do palco, sendo impedido por uma moça do cerimonial. Quando ele prosseguiu na leitura, seu microfone foi desligado e ele continuou. Da plateia, ouviram-se os gritos: “Censura! Censura!”. A inquietação prosseguiu por vários minutos, apesar das tentativas da apresentadora, a atriz Maria Paula, de serenar os ânimos. Ela, aliás, parecia um peixe fora d’água no contexto de uma noite acalorada, que é bem a cara deste festival.

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