Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Brasília afirma vigor do cinema nacional em tempo de contestação à cultura

Neusa Barbosa

 Começa nesta sexta (22), com a exibição hors concours do drama O Traidor, de Marco Bellocchio, uma coprodução Brasil/Itália que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, a 52ª. edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro - que, depois de vários anos realizado em setembro, volta à sua data anterior de novembro. O festival prossegue até 1º de dezembro.
 
O Traidor - exibido no Festival de Cannes 2019 - conta a história de Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino), um mafioso arrependido que se refugiou brevemente no Brasil nos anos 1970 e cujas delações, na década seguinte, foram responsáveis pela queda de diversos chefões, levados aos tribunais pelos juízes Falcone e Borsellino. A atriz Maria Fernanda Cândido interpreta Cristina, sua terceira mulher. 
 
 A competição de longas, que inclui sete títulos, começa a ser exibida no sábado (23), com o aguardado Piedade (RJ), do pernambucano Cláudio Assis (Amarelo Manga, Big Jato), um veterano muito premiado em edições anteriores do festival. No elenco, Matheus Nachtergaele, Fernanda Montenegro (foto), Irandhir Santos e Cauã Reymond. O enredo gira em torno de vários personagens que circulam por um bar, administrado por uma viúva e seu filho mais velho, cujo cotidiano é abalado pela chegada de um executivo de S. Paulo. 
 
 Também integra a competição a ficção A febre, de Maya Da-rin (RJ), vencedora de três prêmios no Festival de Locarno e exibido em vários outros festivais internacionais. A trama narra a história de Justino, um indígena do povo Desana que trabalha como vigilante em um porto de cargas e vive na periferia de Manaus. Desde a morte da sua esposa, sua principal companhia é a filha Vanessa, que está de partida para estudar medicina em Brasília. Repentinamente, Justino é tomado por uma febre forte. Durante a noite, uma criatura misteriosa segue seus passos. Durante o dia, ele luta para se manter acordado no trabalho. Nesse meio tempo, seu irmão vem de visita e Justino relembra a vida na aldeia, de onde partiu há mais de 20 anos.
 
Os outros filmes da competição são: o documentário O Tempo que Resta, de Thaís Borges (DF), retratando a trajetória de Osvalinda Marcelino Pereira e Maria Ivete Barros, duas mulheres marcadas para morrer por seu ativismo contra as milícias madeireiras na Amazônia; a ficção Alice Júnior, de Gil Baroni (PR), em torno de uma youtuber trans que sonha com o primeiro beijo; a ficção Volume Morto, de Kauê Telloli (SP), sobre uma professora e incidentes envolvendo seu aluno mudo; Loop, de Bruno Bini (MT), sobre um homem (Bruno Gagliasso) obcecado por voltar no tempo para evitar a morte da namorada; e o documentário O mês que não terminou, de Francisco Bosco e Raul Mourão (RJ), que investiga os acontecimentos que sacudiram o País desde os protestos de 2013 até a eleição de Bolsonaro. 
 
Mostras paralelas
 
Vários títulos instigantes podem ser descobertos nas mostras paralelas, atestando a qualidade da produção cinematográfica neste momento em que a produção de novos projetos encontra obstáculos. Na mostra Vozes, dois destaques são os documentários Maria Luiza, de Marcelo Díaz (DF), que narra a história da primeira oficial trans das Forças Armadas brasileiras, na Aeronáutica, aposentada “por invalidez” depois de 22 anos de trabalho; e Cine Marrocos, de Ricardo Calil, grande vencedor do Festival É Tudo Verdade, pré-selecionado para concorrer a uma vaga no Oscar de documentários e retratando a rica experiência humana, social e artística sediada no antigo cinema no centro de S. Paulo, hoje ocupado por moradores sem-teto.
 
Na mostra Território Brasil, há várias outras atrações, como é o caso dos documentários Niède, de Tiago Tambelli (PI), um denso perfil da antropóloga franco-brasileira Niède Guidon, a grande força por trás da criação e manutenção do Parque Nacional da Serra da Capivara, que guarda inscrições rupestres milenares; Servidão, de Renato Barbieri (DF), que examina a persistência de resquícios de uma mentalidade escravagista na sociedade brasileira; Soldados da Borracha, de Wolney Oliveira (CE), resgatando a memória de inúmeros trabalhadores nordestinos que participaram de um extraordinário esforço durante a II Guerra para suprir de matéria-prima os Aliados e sofreram discriminação e abandono; Vermelha, de Getúlio Ribeiro (GO), vencedor da Mostra de Tiradentes, um exercício de ficção em torno da família do próprio diretor; Jackson - na batida do pandeiro, de Marcus Vilar (PB), cinebiografia do cantor e compositor popular Jackson do Pandeiro, de quem se celebra este ano o centenário de nascimento; Siron - tempo de tela, de André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos (PE), uma exploração do universo do pintor Siron Franco; e Fakir, novo filme de Helena Ignez (SP), investigando os meandros da antiga arte dos faquires e sua sobrevivência nos dias atuais.
 
Encerramento
 
O filme de encerramento é Giocondo Dias - Ilustre Clandestino, documentário do veterano Vladimir Carvalho que resgata a figura do militante comunista, que foi secretário-geral do PCB e um dos grandes amigos de Carlos Marighella. Uma história famosa sobre os dois descreve uma conversa que teria durado 10 horas, em setembro de 1969, em que Dias teria tentado convencer Marighella a abandonar a luta armada, sem sucesso. Marighella seria morto em novembro daquele ano. De todo modo, o documentário de Vladimir pode lançar luz sobre estas figuras do passado recente do Brasil, num momento em que a ficção Marighella, de Wagner Moura, inspirada na biografia de Mário Magalhães, encontra obstáculos para ser lançada no Brasil. 
 
Além dos filmes, distribuídos em diversas mostras, o festival oferece também diversas oficinas e eventos de mercado distribuídos ao longo da programação. O homenageado desta edição é o ator Stepan Nercessian, comemorando 49 anos de carreira.
 
Outras informações podem ser encontradas no site do festival.
 
Abaixo, a seleção competitiva de longas e curtas que concorrem ao troféu Candango:
 
Longas-metragens
Filme: Volume morto (Ficção, 76 min)
Diretor: Kauê Telloli
Estado: SP
Classificação indicativa: 14 anos
 
Filme: A febre (Ficção, 98 min)
Diretor: Maya Da-Rin
Estado: RJ
 
Filme: Alice Júnior (Ficção, 87 min)
Diretor: Gil Baroni
Estado: PR
 
Filme: O tempo que resta (Documentário, 73 min)
Diretor: Thaís Borges
Estado: DF
 
Filme: Loop (Ficção, 98 min)
Diretor: Bruno Bini
Estado: MT
 
Filme: O mês que não terminou (Documentário, 104 min)
Diretores: Francisco Bosco e Raul Mourão
Estado: RJ
 
Filme: Piedade (Ficção, 85 min)
Diretores: Claudio Assis
Estado: RJ
 
Curtas-metragens
Filme: A Nave de Mané Socó (Ficção, 18 min)
Diretor: Severino Dadá
Estado: PE
 
Filme: Alfazema (Ficção, 24 min)
Diretor: Sabrina Fidalgo
Estado: RJ
 
Filme: Amor aos vinte anos (Ficção, 24 min)
Diretor: Felipe Arrojo Poroger e Toti Loureiro
Estado: SP
 
Filme: Angela (Ficção, 14min39s)
Diretora: Marília Nogueira
Estado: MG
 
Filme: Ari y yo (Documentário, 12min29s)
Diretora: Adriana de Faria
Estado: PA
 
Filme: Cabeça de rua (Ficção, 14min37s)
Diretora: Angélica Lourenço
Estado: MG
 
Filme: Caranguejo Rei (Ficção, 23 min)
Diretores: Enock Carvalho e Matheus Farias
Estado: PE
 
Filme: Carne (Animação, 12 min)
Diretora: Camila Kater
Estado: SP
 
Filme: Chico Mendes – Um legado a defender (Documentário, 10min10s)
Diretor: João Inácio
Estado: DF
 
Filme: Marco (Ficção, 20min46s)
Diretora: Sara Benvenuto
Estado: CE
 
Filme: Parabéns a você (Ficção, 19min38s)
Diretora: Andréia Kaláboa
Estado: PR
 
Filme: Pelano! (Ficção, 12min32s)
Diretores: Christina Mariani e Calebe Lopes
Estado: BA
 
Filme: (Ficção, 15min30s)
Diretoras: Julia Zakia e Ana Flavia Cavalcanti
Estado: SP
 
Filme: Sangro (Animação, 7 min)
Diretores: Tiago Minamisawa, Bruno H Castro, Guto BR (codireção)
Estado: SP

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