Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Brasília fecha as apostas, à espera das premiações

Neusa Barbosa, de Brasília

 Brasília - Com a exibição do suspense dramático Volume Morto (foto ao lado), de Kauê Telloli, e dos curtas Sangro, de Tiago Minamisawa, Guto BR e Bruno H. Castro, e Amor aos vinte anos, de Felipe Poroger e Toti Lourenço, todos de S. Paulo, terminou nesta sexta (29) a mostra competitiva do Festival de Brasília, que divulga neste sábado a sua premiação. 
O filme de encerramento é o documentário Giocondo Dias - Ilustre Clandestino, de Vladimir Carvalho, resgatando a figura do militante esquerdista, grande amigo de Carlos Marighella, que passou a maior parte de sua vida na clandestinidade. A exibição deste filme é, a seu modo, uma espécie de compensação e mesmo lembrete para o fato de que a ficção Marighella, de Wagner Moura, encontra-se, até o momento, impedido de circular no País, apesar de estar circulando em festivais internacionais.
 
Balanço
É tempo, portanto, de um balanço da 52a edição. Como não poderia deixar de ser, o festival mais importante e antigo do País incorporou as incertezas e contradições da situação instável, com todas as políticas de financiamento da pulsante produção nacional em suspenso. Não faltaram protestos, certamente cabíveis num momento de impasse, em que os realizadores, produtores, técnicos, atores e gestores culturais lutam para manter em funcionamento uma cinematografia que tem conquistado números expressivos em termos quantitativos, o que tem significado econômico - 0,5% do PIB -, e premiações internacionais nos principais festivais do mundo.
 
 Realizado com baixíssimo orçamento - R$ 70,000,00 -, em sistema de crowdfunding, Volume Morto (na foto, o diretor Kauê Telloli e a atriz Fernanda Vasconcellos no debate), o último longa exibido, é um título que projeta essa incerteza dos meios de financiamento. No debate do filme, seu diretor, Kauê Telloli, e produtores fizeram questão de frisar que, ao se valer de um esquema independente, não estavam defendendo um modelo alternativo de produção, manifestando-se claramente a favor da continuidade das políticas públicas. 
Em vários sentidos, o longa provocou uma certa estranheza, ao ser colocado na disputa dos principais Candangos, em virtude de desacertos em sua realização. Cria-se, na história, um huis clos numa escola vazia, envolvendo jogos de poder entre uma professora (Fernanda Vasconcellos) e os pais de um de seus alunos (Julia Rabello e Daniel Infantini), que desencadeiam algumas situações de violência que foram questionadas no debate do filme. Fora isso, o filme, que foi realizado em 9 dias, mostra não ter conseguido aprofundar algumas situações envolvendo figuras femininas e masculinas, bullying e possibilidade de abuso infantil, tropeçando numa certa estetização. 
Assim como Loop, de Bruno Bini (MT), este foi um título que não pareceu caber muito bem na seleção competitiva, dadas as fragilidades de sua história, estilo e condução. A sensação tornou-se ainda mais forte com a ausência da competição principal de filmes belíssimos, como o baiano Dorivando Saravá -  o preto que virou mar, de Henrique Dantas, um documentário rico em camadas, elaboração estética das imagens, músicas e testemunhos sobre o imortal compositor e cantor Dorival Caymmi. Ficou difícil entender porque este filme tão sofisticado ficou restrito à mostra paralela Território Brasil, numa única sessão vespertina, no Museu da República, o que certamente reduziu seu público potencial, além de privá-lo dos debates, exclusivos dos filmes da competição. 
 
Na praia, na floresta, na cidade
Ao final, despontam como títulos mais fortes da competição o pernambucano Piedade (foto ao lado), aguardado drama de Cláudio Assis, em que ele mais uma vez demonstra perícia e intensidade na criação de um universo próprio, encarnado por atores da potência de Fernanda Montenegro, Irandhir Santos, Matheus Nachtergaele e registrando aquela que deve ser a melhor interpretação no cinema de Cauã Reymond. 
Se houver lógica nas premiações do júri, as principais serão distribuídas entre Piedade e o drama A Febre, de Maya Da-rin (RJ). Premiado em diversos festivais internacionais, a partir de sua estreia mundial, em Locarno, A Febre extrai sua força de uma recriação ficcional muito verdadeira do choque do universo indígena com a cidade, a partir dos dilemas de uma pequena família, formada por pai (Regis Myrupu) e filha (Rosa Peixoto), escancando a dificuldade de inserção destas pessoas no mundo branco. 
 
Correndo por fora, é impossível negar o encantamento produzido por Alice Junior (foto), de Gil Baroni (PR), a partir de uma protagonista adolescente e trans (Anne Celestino) que escapa dos estereótipos, trágicos ou não, vistos tantas vezes em filmes desta temática, para transcender dentro de um perfil humano em todas as suas nuances, numa história que procura a leveza, o acolhimento e o afeto.
Entre os dois documentários da seleção principal, O tempo que resta, da estreante Thais Borges (DF), eletriza pelo carisma e a coragem de suas personagens, as ativistas Maria Ivete Bastos e Osvalinda Marcelino Pereira, duas mulheres juradas de morte pelos pistoleiros a mando da grilagem, das madeireiras e do garimpo no Pará, simplesmente por proporem formas alternativas do manejo da terra e da floresta, negando a inevitabilidade da exploração predatória, devastadora. Não seria estranho nem injusto que o filme fosse lembrado na premiação.
Mais polêmico é o documentário O mês que não terminou, de Francisco Bosco e Raul Mourão (RJ), que não faz uma inserção tão matizada na análise dos turbulentos acontecimentos que abalaram o Brasil desde junho de 2013 - entre outras coisas, porque a mistura entre entrevistas e intervenções visuais se mostra inconsistente e irregular. 
 
 Curtas
Entre os curtas, houve igualmente a escolha de alguns filmes imaturos, como alguns produzidos por estudantes, que talvez figurassem melhor numa mostra paralela. De todo modo, saltou aos olhos a qualidade de Carne, de Camila Kater (que foi inclusive selecionado para o IDFA), uma animação que contempla forma e conteúdo de uma maneira sublime; os citados Sangro e Amor aos vinte anos (na foto, o diretor Felipe  Poroger e  a atriz Samya Pascotto, durante debate sobre o filme), dois trabalhos muito seguros; Ângela, de Marília Nogueira, e , de Julia Zakia e Ana Flávia Cavalcanti, dois perfis de mulheres muito ricos em camadas, com personagens dignas de um longa; Alfazema, de Sabrina Fidalgo, notável pelo humor e a liberdade formal; Ari e yo, de Adriana de Faria, pela sinceridade de seu retrato; e Caranguejo-rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias, uma consistente incursão no cinema de gênero.

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