Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Ativistas ameaçadas da Amazônia apaixonam Brasília

Neusa Barbosa, de Brasília

 Brasília - A realidade em transe do Brasil entrou em cheio na tela do Cine Brasília com o documentário O tempo que resta, da estreante Thais Borges (DF), que focaliza as figuras de duas ativistas em defesa da preservação da Amazônia, que tiveram que abandonar suas casas por terem sido juradas de morte por pistoleiros a serviço da grilagem de terras no Pará. 
A sindicalista Maria Ivete Bastos (já vista no documentário Vozes da Floresta, de Betse de Paula) e agricultora Osvalinda Marcelino Pereira estiveram, aliás, no Cine Brasília ontem, descrevendo, em relatos emocionados, um pouco da saga que tem sido sua vida nos últimos tempos, tendo que abandonar suas casas e famílias para fugir de seus perseguidores, afastando-se dos filhos e vivendo uma permanente incerteza.
 
 A situação destas duas mulheres simples e corajosas (na foto ao lado, com a diretora Thais Borges, no debate do filme) não é, infelizmente, nova nem única, como pode atestar uma impressionante lista de nomes de mortos pelos conflitos de terras - alguns, crianças e mesmo sem nomes, lembrados apenas por uma descrição ou pela idade -, colocada no final do documentário. Por este motivo, foi mais do que precisa a exibição do curta Chico Mendes - um legado a defender, de João Inácio (DF), antes do longa, em mais um testemunho do quanto é crônica e sangrenta a luta pelas terras no Brasil, que não tem cessado de agravar-se neste ano.
Um incidente marcou a exibição do documentário O tempo que resta. Depois da fala das ativistas, a diretora Thais Borges tomou novamente o microfone para fazer mais uma observação - envolvendo a nova secretária do audiovisual, Katiane de Fátima Gouvêa - e ouviu-se na plateia o protesto de um homem: "Filme! Filme!". Quando duas curta-metragistas, Julia Zakia e Sabrina Fidalgo, na plateia, reclamaram de sua atitutde, este homem - depois identificado como Pedro Lacerda, coordenador geral do festival - gritou e xingou as duas, retirando-se para outras fileiras mais atrás. 
 
 Famílias cerceadas
Apesar da inegável carga político-social do longa, O tempo que resta opta por uma linguagem observacional, que acompanha o cotidiano de suas duas personagens em seu próprio meio, em suas casas, ao lado de suas famílias, trabalhando. Isto permite não só romper a invisibilidade destas pessoas miúdas como também vislumbrar a simplicidade e normalidade de suas existências, só rompidas pelo sentido de ameaça iminente que as atravessa.
Esta estratégia permite compartilhar um pouco da energia de Osvalinda em sua pequena propriedade, no Pará, em meio à coleta e processamento de açaí, cupuaçu e outros frutos da floresta, conversando com um sitiante amigo - um dos poucos que restou por ali depois das ameaças - e, principalmente seu marido, Daniel. Os maridos de Osvalinda e Ivete, aliás, também presentes no Cine Brasília, deram testemunho de sua solidariedade a elas, testada continuamente por essa instabilidade. Uma das cenas mais bonitas do filme mostra Marivaldo, o marido de Ivete massageando seus pés cansados ao fim de um dia. 
 
 Na coletiva, a diretora Thais Borges explicou estas opções porque “não queria fazer um filme panfletário” . Completou, dizendo que sentiu que “faltava um envolvimento emocional até para a compreensão da situação dessas pessoas. Elas estão sendo ameaçadas porque querem viver do seu jeito, numa posse coletiva muito parecida com a dos quilombos e terras indígenas, em conexão com a terra”.
Mulher em crise

O outro curta da noite foi o cearense Marco, de Sara Benvenuto, uma ficção que narra a volta de uma jovem mulher, Isadora (Ana Luiza Rios) à sua terra, desencadeando um choque com sua família e esta cidadezinha provinciana que ela tinha deixado para trás. Há méritos no curta, embora a linguagem se mostre um tanto abrupta em suas passagens e na direção de atores. De todo modo, este curta registra a importância que está tendo a ação de um núcleo de cinema formado em Iguatu, interior do Ceará, onde a diretora é professora. 


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