Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Brasília tropeça na ficção científica e decola na realidade

Neusa Barbosa, de Brasília

 Brasília - Se a diversidade sempre foi a marca do Festival de Brasília, a 52a edição se mantém fiel ao princípio, ainda que enveredando por caminhos diferentes dos anos anteriores.Primeiro filme mato-grossense exibido na história do festival, Loop, escrito e dirigido pelo estreante em longas Bruno Bini, protagonizado pelo ator global Bruno Gagliasso e coproduzido por Fernando Meirelles e a Globo Filmes, surpreendeu não tanto pela viagem na ficção científica, mas por incongruências de roteiro e realização.Ficção científica em Brasília não é novidade - lembre-se apenas de Era uma vez Brasília, de Adirley Queirós, que passou por aqui em 2017, encharcada de um toque de crítica social. Loop passa muito longe disso. Drama romântico-policial de toque fantástico, segue os esforços desesperados do físico Daniel (Gagliasso) para voltar no tempo e salvar da morte sua namorada (Bia Arantes). Começa numa cena de assassinato, com a participação de um delegado (Roberto Birindelli), tão obcecado quanto Daniel para resolver uma série de crimes. 

 Toda essa mistura de elementos, nada fácil de conduzir para qualquer diretor, imagine-se para um estreante, resulta num filme irregular, não de todo ruim em sua intenção de embaralhar gêneros, mas que embarca numa jornada cada vez mais inverossímil do protagonista, que envolve também sua irmã (Branca Messina, uma boa atriz que o cinema brasileiro pode aproveitar melhor). A plateia aplaudiu, mas, mesmo assim, ficou no ar uma impressão de perplexidade - o que é que este filme está fazendo na competição?
No debate de hoje (foto ao lado, com o diretor Bruno Bini e a atriz Branca Messina), a própria Branca Messina demonstrou ter tomado conhecimento dessa estranheza e defendeu: “Não é um filme político como costumam ser no Festival de Brasília. Retrata um Brasil muito branco, com certeza. Ao mesmo tempo, levanta questões. Simone (sua personagem) foi uma criança que sofreu abuso e vive com isso. Ela cuida do irmão, é uma mulher forte, que não se vitimiza e apóia o irmão sem julgamentos”.
 

 Universo feminino

Andaram bem melhor os dois ótimos curtas da noite, Ângela, de Marília Nogueira (ao centro, na foto ao lado), e , de Julia Zakia e Ana Flavia Cavalcanti (SP), dois mergulhos no intimismo feminino muito bem realizados.

Protagonizado pela extraordinária atriz do grupo Galpão, Teuda Bara, Ângela fecha o foco no cotidiano desta mulher idosa e solitária, que coleciona receitas de médicos e investiga uma série de doenças, compondo em seu quarto um curioso inventário hipocondríaco. Seu contexto é completado por algumas senhoras do bairro, incluindo a inesquecível Maria José Oliveira, mãe do cineasta mineiro André Novais Oliveira, que protagonizou filmes do filho, como o curta Quintal e os longas Ela volta na quinta e Temporada, e faleceu recentemente. Por conta dessas personagens, o curta se torna uma amostra afetuosa e cheia de humor do cotidiano dessas mulheres idosas, muito vivas e diferentes entre si, afastando-se de um retrato piedoso da faixa etária madura.
, por sua vez, centra sua história em torno de uma mãe solteira, Val (interpretada pela codiretora Ana Flávia Cavalcanti), que mora numa apertada casa de periferia, com dois filhos pequenos. Sua rotina de trabalho e cuidado das crianças, numa casinha periodicamente invadida pela água, é rompida numa noite, quando o funcionário de um mercadinho que ela conhece bate à sua porta, pedindo para guardar uma estranha carga no seu quintal. Sem dar spoiler, o filme é um primor de delicadeza na condução desta alternância de climas e expectativas, que culmina numa sequência catarticamente divertida.
 
Novos realizadores
O grande achado da quarta (27), no entanto, foi o carioca Filme de Verão, de Jo Serfaty, na mostra paralela Novos Realizadores. O filme consolida um trabalho levado pela diretora ao longo de cinco anos, com adolescentes da comunidade de Rio das Pedras. Depois de uma oficina de cinema, eles desenvolveram com ela o roteiro, participando também da câmera, para construir uma narrativa centrada em incidentes de seu cotidiano no período de férias.
Contemplando toda a gama de problemas de sua idade e condição social, como as angústias com a sexualidade e a procura de emprego, abre-se espaço para várias sequências que retratam relações com religiões, cosplay e idas à praia, fugindo aos clichês de tantas comédias adolescentes - que ficam restritas à classe média da zona sul, no caso carioca. Aqui, enxerga-se uma outra cidade, outras perspectivas e sonhos, sem dispensar criatividade, energia e alegria. Vendo esses garotos, dá para acreditar que este país tem futuro - e ele passa pela arte.

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