Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

"Alice Junior" encanta corações e mentes em Brasília

Neusa Barbosa, de Brasília

 Brasília - A competição respirou um ar de leveza, liberdade e uma pegada pop na apresentação de Alice Junior, de Gil Baroni (PR), um filme que acompanha a trajetória de uma adolescente trans muito especial (Anne Celestino, um achado).
 
Nem por seu humor o filme deixou de acentuar seu significado simbólico na demarcação da representatividade trans neste território, não só do cinema como de um grande festival. Na apresentação, Anne Celestino fez questão de convocar as pessoas trans na sala para que se levantassem, demonstrando seu reduzido número, e afirmando: “A gente está ocupando este lugar e vamos continuar aqui”. Foi unanimemente aplaudida.
 
Ao contrário da maioria dos filmes do universo trans, a personagem é de classe média, amada pelo pai (Manuel Rosset), um francês viúvo que a mima e apóia sua transição. A garota não tem dificuldades financeiras e mantém um vlog. Essa conforto muda quando a família se transfere do Recife para Araucárias do Sul (cidade fictícia) no Paraná, por motivos profissionais do pai. Matriculada no melhor colégio local, de freiras, Alice não consegue ser tratada pelo nome social, é obrigada a usar uniforme masculino e enfrenta solidão e bullying.
Seu enfrentamento desta problemática é, no entanto, conduzido de maneira leve. Alice é corajosa, determinada e consegue romper seu isolamento, ganhando aliados entre alguns poucos alunos da escola e um solitário professor - que a trata pelo nome escolhido por ela.
 
Linguagem pop
Na coletiva do filme, o diretor Gil Baroni comentou a fartura dos grafismos no filme, que dão uma imagem pop às aventuras da personagem “Quisemos uma leveza na câmera, solta entre os corpos, nas cores, nas camadas, na linguagem de vlog, nos grafismos. Falamos de bullying, mas também de amor, amizade, acolhimento”.
O roteirista Luiz Bertazzo frisou a procura do tom de fábula, ainda que o roteiro tenha assimilado cada vez mais as vivências da própria Anne para manter o maior realismo possível nas falas. Coordenando a preparação de elenco, Bertazzo foi se apropriando da linguagem proposta pela própria atriz, o que cortou a possibilidade de muita improvisação nas atuações, para não perder sua verdade de vista.
Falando de sua própria experiência, Anne Celestino comentou que “as pessoas trans não estão incluídas no ambiente educacional”. Moradora de Recife, parte de uma família de classe média, ela se viu excluída de sete colégios particulares da cidade pela recusa da aceitação de sua identidade trans. Contou, também, ter sofrido “agressões verbais e físicas” nestas escolas. Como resultado, teve que concluir o ensino médio no supletivo e está cursando uma faculdade. Ela comentou também que nas universidades públicas há maior aceitação da questão da identidade sexual.
Já exibido em festivais como o Mix Brasil, Vitória e Mostra Internacional de S. Paulo, o filme tem previsão inicial de estreia entre junho e julho de 2020. Há intenção do diretor também de realizar uma série a partir do filme, que tem como público-alvo os adolescentes, mas revela um caráter bastante inclusivo de todas as plateias ao tratar da trnassexualidade sob uma chave de humor e afeto, sem trair seu conteúdo sério.
 
Fakir
É impressionante a liberdade criativa da veterana Helena Ignez, comprovada novamente em Fakir, um documentário, exibido na mostra paralela Território Brasil, que começa abordando a arte milenar do faquirismo para desembocar na revelação de algumas figuras femininas brasileiras muito interessantes, como Suzy King -  que foi cantora e faquirista e, ao contrário das colegas de sua época, não tinha nenhum protetor masculino (a maioria das faquiristas tinha um marido ou mentor).e, mesmo assim, não teve medo de enfrentar a polícia várias vezes ao longo da vida.
Verinha, Rossana, Sandra, Yone, Malba, Mara foram algumas dessas outras performers que se arriscaram na arte de controlar a fome, em geral acompanhadas por cobras em gaiolas de vidro - para reforço do espetáculo, que teve seu auge de popularidade na década de 1950, com direito a desafios de resistência e novos “campeões da fome” surgindo de tempos em tempos. Triste ironia para um país que nunca resolveu o problema da fome.
Luz del Fuego, como seria de se esperar, também frequenta o filme, que recorda as sensuais coreografias com cobras desta advogada e dona de um brevê de piloto que cultivava o naturismo, inclusive numa colônia de nudistas. Defensora dos animais, acabou assassinada por seu ativismo contra a pesca com dinamite, praticado por um homem injuriado não só por sua militância mas por ser uma mulher que o enfrentava.
Sem que tenha sido essa, talvez, sua intenção inicial, Fakir se torna, pela inteligência da diretora que o assina, também uma reflexão sobre a violência de gênero, ainda que num registro mais leve, mas não ligeiro. O plano final - que não revelarei aqui - é uma declaração de liberdade feminina do mais alto quilate. Helena é nossa guru, feiticeira, pitonisa, viva Helena!!!
 
Curtas
Na noite de segunda (25), os curtas foram a ficção científica pernambucana A nave de Mané Socó, do veterano montador e diretor Severino Dadá, e o drama realista Cabeça de rua, da diretora mineira Angélica Lourenço.
Veteraníssimo montador, de filmes como Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres (do qual foi personagem), de Nelson Pereira dos Santos, e de diretores como Rogério Sganzerla, Neville de Almeida, Geraldo Sarno e muitos outros, Dadá injetou malícia e despojamento em sua história sobre uma invasão alienígena no sertão, que usou muitos recursos improvisados, a participação de sua própria família (o filho, nora e a neta recém-nascida no elenco), ele próprio atuando e uma anarquia criativa muito divertida nisto que ele descreveu como “fuleiragem fiction”.
Numa chave bem diferente, Cabeça de rua aborda o fenômeno do trabalho precário ao acompanhar as vidas de duas jovens que trabalham como lavadoras de carros nas ruas de Belo Horizonte.

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