Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Brasília abre espaço para a cultura indígena

Neusa Barbosa, de Brasília

 Brasília - O universo indígena foi trazido ao Festival de Brasília com muita intensidade e delicadeza em A Febre (fotos ao lado e abaixo), primeira ficção da carioca Maya Da-rin - diretora dos documentais Margem e Terras -, que vem fazendo uma carreira de repercussão em diversos festivais internacionais. 
Já premiado em Locarno, Biarritz e Tessaloniki, entre outros, o filme tem como núcleo uma família indígena, moradora da periferia de Manaus, destacando sua difícil interação com um ambiente que renega suas raízes indígenas e discrimina abertamente sua cultura ancestral.
Na apresentação do longa, no Cine Brasília, o produtor executivo de A Febre, Leonardo Mecchi, leu integralmente a carta do Movimento Cultural do Distrito Federal cuja leitura, na sexta-feira, foi interrompida, sob protestos de uma plateia que gritava “censura”. Desta vez, a carta foi lida até o fim, protestando contra o desmonte de políticas públicas que garantiam o funcionamento do setor audiovisual, que vive o maior impasse dos últimos 20 anos.
 
 Uma família indígena
Justino (Regis Myrupu, premiado em Locarno) é o pai dessa família do filme. Trabalhando como vigia de um grande porto em Manaus, ele está num momento de impasse. Acaba de chegar ao seu trabalho um outro vigia, Wanderlei (Lourinelson Wladmir), que não esconde seus preconceitos contra ele - as falas deste personagem, aliás, sintetizam de maneira exemplar o arsenal de barbaridades disparadas diariamente contra os indígenas. Wanderlei, para começar, nem pergunta o nome do colega, referindo-se a ele apenas como “índio”.
A filha de Justino, Rose (Rosa Peixoto), que trabalha num hospital, foi aprovada em Medicina e vai mudar-se. Simbolizando todas as suas angústias, Justino começa a sofrer de uma misteriosa febre, que é uma espécie porta aberta para a sintonia com as raízes que ele deixou para trás.
 
 De várias maneiras, o roteiro, assinado por Maya, Miguel Seabra Lopes e Pedro Cesarino (que é antropólogo) [na foto Pedro Cesarino, Suzy Lopes, Leonardo Mecchi, Maya Da-rin e Rosa Peixoto no debate que eu mediei], engendra situações que colocam em foco a questão identitária destes indígenas, seus enfrentamentos com um mundo branco que os rejeita e instrumentaliza e suas reações para existir como pessoas por inteiro. O espaço e o tempo da narrativa são marcados com perfeição pela fotografia de Barbara Alvarez, a montagem de Karen Akerman e o trabalho de som de Felipe Schulz Mussel e Breno Furtado, construindo uma atmosfera que tangencia o fantástico, incorporando essa camada essencial à cosmogonia indígena. O filme, aliás, é falado em sua maior parte na língua tucana, com legendas em português, o que é um dos inúmeros sinais do respeito com que se processou esta aproximação deste universo, com a participação decisiva do elenco indígena.
 
 Curtas
Dois curtas muito diferentes (na foto do debate estão a diretora Adriana Faria, do curta Ari y yo, e os diretores Enock Carvalho e Matheus Farias, de Caranguejo-rei) antecederam a exibição de A Febre. O primeiro deles, o terror Caranguejo-rei, acompanha a trajetória de um homem (Tavinho Teixeira, de Sol Alegria) que experimenta uma transformação radical a partir do aparecimento de uma profusão de caranguejos embaixo do prédio que sua empresa está construindo - uma poderosa metáfora de enfrentamento à especulação imobiliária que é uma das grandes mazelas urbanas das cidades brasileiras, inclusive Recife, cenário deste curta, cuja operação de som, assinada por Lucas Carminha e Catharine Pimentel, é um dos pontos altos na criação de uma atmosfera assustadora.
Numa linha mais suave e intimista, o curta Ari y yo, de Adriana de Faria (PA), descreve a aproximação da diretora e de uma menina de 9 anos, Arislay, personagem deste documentário, que traduz a experiência de Adriana durante um curso feito na escola San Antonio de los Baños, em Cuba. Sem falar a língua, a diretora passa para a tela sua estranheza e encantamento diante da nova realidade que encontra, tendo na carismática menina sua guia a um mundo repleto de imaginação e descoberta. 
 
Foto do debate de A Febre: Flávia Guerra
Foto do debate dos curtas: Vitor Burigo

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