Brasília termina com saldo positivo, apesar de tudo

Premonitório, "Piedade", de Cláudio Assis, aborda crise ambiental do litoral brasileiro

Neusa Barbosa, de Brasília

 Brasília - Cláudio Assis (na foto com Fernanda Montenegro e abaixo no debate com equipe do filme Piedade) desembarcou no palco do Cine Brasília neste sábado (23) bem mais contido do que em edições anteriores, quando disparava palavrões em suas falas. Desta vez, não. Foi com uma voz baixa e suave que o premiado diretor pernambucano apresentou seu novo filme, sendo também muito melhor recebido pela plateia do que há 3 anos atrás - quando suas falas foram cobertas por vaias ao apresentar seu Big Jato, não pelo filme, mas por incidentes ocorridos no Recife com Anna Muylaert.
 
 De lá para cá, as arestas com Anna foram aparadas e Cláudio sobreviveu a um AVC, esta uma das causas do atraso deste seu novo e aguardado longa - em que ele reencontra Matheus Nachtergaele, seu ator-fetiche, pela quinta vez, e Cauã Reymond e Fernanda Montenegro pela primeira. Fernanda, aliás, batiza com sua presença luminosa dois dos melodramas mais candentes deste ano, Piedade e A vida invisível, de Karim Aïnouz. Ambos filmes com muitas camadas de complexidade e sentimentos, tomando o pulso de um país conflagrado, mas repleto de afetos e possibilidades. 
Roteirizado por Hilton Lacerda, Anna Francisco e Dillner Gomes, o filme resgata uma história profundamente dolorosa da biografia do próprio Assis - a perda de um irmão, que foi roubado na maternidade e que ele procurou a vida toda. Ao falar disso na coletiva deste domingo, o diretor, emocionado, chorou.
 
 Premonições
Com uma longa gestação, Piedade acaba ganhando uma nova repercussão neste seu lançamento agora - mais uma vez comprovando como a arte pode ser premonitória. Desde o início,a história carregava duas linhas, em torno da procura do irmão e de como uma empresa petroleira (Petrogreen) afeta drasticamente a vidas dos moradores de uma comunidade litorânea. Como observou Matheus Nachtergaele na coletiva: “O filme tinha um desejo de falar do ultracapitalismo representado pela indústria petroleira invadindo as praias do afeto brasileiro. Somos seres praianos. Mas os vazamentos de óleo acrescentaram uma camada que o filme não tinha”. 
Os afetados pela empresa têm em Omar Shariff (Irandhir Santos), dono de um barzinho na fictícia Piedade, uma liderança que enfrenta as investidas de Aurélio (Matheus), um empresário paulista que tenta comprar o bar e expulsar os moradores dali, onde se instalaram um porto e plataformas de extração de petróleo - obras que, afetando o meio ambiente, trouxeram para perto da praia os tubarões, que atacam os banhistas.
Essa questão dos tubarões, como lembrou Cláudio Assis, remete às obras do porto de Suape, na região metropolitana de Recife, 40 anos atrás, que realmente tiveram essa consequência na capital pernambucana, com ataques desses predadores a banhistas e surfistas depois que seu suprimento de peixes foi afetado.
 
 Protótipo de capitalista
Ao se aproximar desta familia, que ele deseja comprar, Aurélio acaba levantando um fantasma de seu passado, envolvendo um bebê roubado da maternidade, tragédia que se tornou uma obsessão na vida de dona Carminha (Fernanda Montenegro), mãe de Omar, que nunca esqueceu o filho perdido. 
Descrevendo seu personagem, Matheus lembrou que, sendo paulistano, é um tipo que ele reconhece. “Conheço essas pessoas, que raspam a cabeça para esconder a calvície e cuja única alegria na vida é comprar uma roupa nova e viajar para Miami”. Ampliando sua análise, Matheus acredita que Aurélio seja hoje “o brasileiro mais típico”. E complementa: “Foram eles que ganharam as eleições e, neste momento, venceram o round. Enquanto isso, a gente fica como dona Carminha, olhando para o mar”.
Os outros personagens que gravitam neste universo são Sandro (Cauã Reymond), dono de um cinema pornô, seu filho Marlon Brando (Gabriel Leone), um ativista ambiental que faz intervenções em vídeo com seus amigos, Fátima (Mariana Ruggero), irmã de Omar e filha de Carminha que mora no Recife, Ramsés (Francisco de Assis Moraes), filho de Fátima, e, numa participação muito divertida somente em tela de computador, Denise Weinberg - como a mãe de Aurélio que o atormenta e controla via skype. 

Convite à Fernanda
A entrada de Fernanda Montenegro no elenco deu-se por meio de Matheus Nachtergaele, Ele sugeriu a atriz, com quem contracenou diversas vezes, a Cláudio Assis, mas este achava que ela não aceitaria trabalhar com ele. Matheus procurou a produtora da atriz e ficou claro então como Fernanda já era grande admiradora do diretor. A integração dela foi tranquila: “Ela veio sozinha, sem acompanhante, e fez questão de ter tudo igual ao resto da equipe”, garantiu Matheus.
 
 Curtas femininas
Foi uma noite extremamente feliz na competição de curtas, o primeiro, Alfazema (foto ao lado), de Sabrina Fidalgo (RJ), uma incursão muito livre, formal e tematicamente, no universo do carnaval, com a atriz Shirley Cruz interpretando uma mulher tentando dispensar seu boy (Victor Albuquerque) que recebe a iinusitada visita de uma anja (Bianca Joy Porte), uma diaba (Bruna Lenzmeyer) e ninguém menos do que o próprio Deus (Elisa Lucinda, numa participação inspiradoramente anárquica). 
O segundo curta foi a animação Carne, de Camila Kater, uma sofisticada composição, em termos de forma e conteúdo, em torno das fases de vida das mulheres, tomando como base cinco depoimentos reais - a ativista Raquel Patrício, Larissa Larrau, Raquel Virgínia, Valquíria Rosa e a atriz Helena Ignez. Este curta, aliás, está participando do IDFA, festival internacional de documentários de Amsterdã. 

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