Madame Satã

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Crítica Cineweb

23/01/2003

Por seu enfoque absolutamente centrado no fascínio ambíguo mas inegável de seu protagonista - bandido, amante, rebelde, homossexual, pai adotivo, marginal - o filme Madame Satã sucumbe completamente ao seu encanto, ainda mais impregnado como está da interpretação dilacerante de Lázaro Ramos. O ator baiano, de 24 anos, transfigura-se no papel de João Francisco dos Santos, mostrando-o no processo de transformação no futuro Madame Satã, envelhecendo sem o artifício da maquiagem, tornando-se sombrio, perigoso e sedutor ao sabor de sua vontade.

Este que é o grande trunfo do filme - seu ator - oferece também a sua principal fragilidade, porque o elenco não sintoniza todo nesta mesma voltagem, nem inclui personagem que lhe faça sombra. Fica visível, assim, um desequilíbrio que um diretor mais experiente que o talentoso mas iniciante Karim Aïnouz poderia ter atenuado, em proveito de uma maior consistência dramática e narrativa.

Quanto ao escândalo diante das cenas de sexo registrado no Festival de Cannes 2002, com diversos espectadores abandonando as salas onde a obra foi mostrada, na seção Un Certain Regard, cabe o espanto. É difícil imaginar o que terá chocado tanto essa parcela de platéias experimentadas, como a dos jornalistas credenciados no maior festival do mundo, a esmagadora maioria dos quais com idade suficiente para ter assistido a filmes muito mais diretos sobre a homossexualidade como Querelle, de Rainer Werner Fassbinder, que já completou vinte anos, ou O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, lançado 30 anos atrás. As cenas de sexo entre Satã e Renatinho (Felipe Marques) são completamente necessárias à história que se conta, apaixonadas, envolventes e muito bem-filmadas. Não há o menor vestígio da procura de criar um escândalo que venda o filme e sim uma entrega completa dos atores à história de seus personagens - nos quais a corporalidade é fator essencial para expressar toda a sua complexidade.

Essa reação diante do sexo talvez seja o sinal inequívoco de que o movimento conservador que consagra nas urnas o crescimento da direita e da extrema-direita na Europa está fazendo seus estragos também na maturidade e no gosto artístico mesmo de espectadores experientes. Se confirmada esta hipótese, Madame Satã terá cumprido, afinal, uma das vocações mais saudáveis do cinema, a de incomodar o que já estava adormecido, cutucar o que já estava acomodado, abrindo janelas para contemplar a diversidade do mundo.

O escândalo, em todo caso, parece ter sido benéfico à comercialização internacional de Madame Satã. Ainda durante o festival de Cannes, o filme tinha firmado contratos de distribuição na França, Espanha, Suíça, Portugal, Alemanha e Israel.

Uma polêmica menor, mas não menos interessante, pode ser aberta visto que Aïnouz - co-roteirista de Abril Despedaçado, de Walter Salles - não só nega qualquer correspondência de intenções de seu filme com o conhecido Rainha Diaba (74), de Antonio Carlos Fontoura, como nega a este último o que é tido como uma verdade absoluta sobre ele - ou seja, que Rainha Diaba se trataria de uma biografia disfarçada do personagem Madame Satã. Segundo Aïnouz, em entrevista em Cannes, o próprio Fontoura lhe disse que seu protagonista (interpretado pelo esplêndido Milton Gonçalves) na verdade se inspirou em diversos personagens, entre eles, um marginal lendário na Baixada Santista.

Um dos aspectos mais fluentes do enérgico e visceral filme de Aïnouz é a linguagem, que sai da boca dos personagens com uma verossimilhança impressionante. Melhor ainda é que essa pesquisa não serviu de camisa-de-força aos diálogos, poucos dos quais foram escritos. A maioria deles foi encontrada e moldada de acordo com a necessidade dramática, num intenso processo de depuração nos ensaios. Nesse eixo,
sexo-linguagem, reside a força maior do filme, ainda que imperfeito.

Cineweb-8/11/2002

Neusa Barbosa


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