Sylvia - Paixão Além das Palavras

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 0 votos

Vote aqui


País


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

06/04/2004

A poetisa e escritora norte-americana Sylvia Plath (1932-1963) teve uma vida curta e deixou um pequeno legado - quase todo publicado postumamente - mas que se tornou uma das obras mais importantes do século XX. Porém, em sua breve existência, viveu um intenso relacionamento com o também poeta inglês Ted Hughes, que também entrou para história, como um dos mais famosos 'corações partidos da literatura'. Mais do que amor, o que os consumiu foi uma paixão incendiária que acabou tragicamente com o suicídio de Plath. É claro que mais cedo ou mais tarde Hollywood iria levar a história de Sylvia e Ted para as telas.

 

Gwyneth Paltrow está no papel-título da escritora que, desde a perda do pai aos dez anos, embarca na depressão e diversas tentativas de suicídio que vão a consumindo aos poucos. O seu processo de autodestruição é acelerado quando ganha uma bolsa de estudos e vai para a Universidade de Cambridge, onde conhece o também estudante Ted Hughes (Daniel Craig, de Estrada Para Perdição). Logo no primeiro encontro numa festa há faíscas entre os dois, e uma vida em comum se torna inevitável.

 

É como se duas almas perdidas finalmente encontrassem a outra metade. É Sylvia quem ajuda Ted, ainda quando são estudantes, a publicar seus primeiros poemas e ganhar prêmios. Como por trás de todo grande homem, há uma grande mulher, a futura poetisa sacrifica tanto sua vida pessoal quanto profissional em prol do marido, que está ficando famoso. Ela abandona seus sonhos de escrever e começa a dar aulas.

 

Isso, porém, faz com que ela passe a viver à sombra do marido, sofrendo com suas traições e sempre diminuída, por ele ser, como ela mesma diz, "o poeta da casa". Mesmo isolados numa casa de campo, Sylvia não consegue fazer que Ted seja um homem fiel, e esse amor doentio os vai consumindo aos poucos, até o trágico desfecho.

 

A diretora Christine Jeff (do ainda inédito no Brasil Chuvas de Verão) sabia que tinha nas mãos um material difícil mas fascinante. Não é fácil fazer o retrato da vida de um escritor, mas ela encontrou o tom certo, principalmente por causa dos atores. Gwyneth dá tudo de si em uma das melhores performances de sua carreira, e o ótimo Craig responde à altura, encorporando um Hughes apaixonado, mulherengo e erudito.

 

Gwyneth e Craig foram a escolha mais acertada, não só por serem fisicamente parecidos com os poetas, mas também porque parecem ter entendido a relação que existia entre eles. Logo em uma das primeiras cenas, quando estão com amigos no apartamento de Hughes, o casal começa a declamar poemas, e a sensação que se tem não é de que são dois atores, mas um par de poetas, que realmente sabem do que estão falando.

 

No entanto, o roteiro tem algumas falhas que se não chegam a comprometer o resultado, deixa perguntas no ar que atrapalham o desenrolar da história. Uma delas é o motivo pelo qual Hughes traía Sylvia constantemente, apesar de estar visivelmente apaixonado. A sensação que fica é de que ele era um mulherengo inveterado, que mais do que amor, buscava uma satisfação que nenhuma mulher conseguia lhe dar. Mas isto é apenas especulação.

 

Quando Sylvia estava sendo produzido, a filha de Ted e Sylvia, a escritora Frieda Hughes, publicou um protesto numa revista britânica e proibiu que fossem utilizados poemas de seus pais no filme. Certamente isso afetou a obra, pois enquanto em diversos momentos se diz que a poesia deles é forte, contundente e ótima, não se tem nenhuma chance de ouvi-la declamada pelos escritores. Uma pena, pois isso certamente daria mais força ao roteiro. Afinal, a obra de Sylvia está estritamente ligada à sua existência. Por exemplo, em seu único romance, A Redoma de Vidro (publicado postumamente em 1963), Plath já desiludida escreve: "Eu me interessava por um homem que, de longe, parecia maravilhoso, mas assim que ele se aproximava, via que não valia a pena". Fica clara a visão que ela tinha dos homens depois que Ted passou por sua vida.

 

Na década de 90, poucos anos antes de morrer, Ted, que editara e publicara toda a obra de Plath, escreveu um livro chamado Cartas de Aniversário, e esta foi a única vez em que se manifestou sobre a poetisa. Durante anos ele foi condenado pelo suicídio da mulher e se manteve calado. Nesse ponto, o filme é esclarecedor, pois antes de mais nada é um delicado e preciso retrato de uma pessoa que sofreu dos males da depressão durante toda vida e que, mais cedo ou mais tarde, iria sucumbir, como sua própria mãe, Aurélia Plath (Blythe Danner, mãe de Gwyneth), uma vez confidenciou ao genro.

Alysson Oliveira


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança