Domicílio Conjugal

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Crítica Cineweb

25/05/2001

"Gostaria de voltar a ver este casalzinho nos primeiros meses da vida conjugal." O pedido foi feito ao diretor François Truffaut por Henri Langlois, fundador e diretor da Cinemateca Francesa, ao sair de uma sessão de Beijos Proibidos (1968). Assim nasceu Domicílio Conjugal, que traz de volta as aventuras do alter-ego do cineasta francês, Antoine Doinel.

Depois da infância em Os Incompreendidos (1958) e da adolescência em Amor aos 20 Anos (1962), Jean- Pierre Leáud encarna mais uma vez Antoine, que vive com a esposa Christine Darbon (Claude Jade). Ela dá aulas de violino e ele tinge flores no pátio do prédio onde moram e por onde passam os cliente de um bistrô bem ao lado.

Sem conseguir alcançar o vermelho intenso em suas flores, Antoine muda de profissão e consegue emprego em uma hidráulica americana, sendo incubido de manobrar pequenos navios em uma maquete da empresa. Christine espera o primeiro filho do casal, Alphonse, mas Antoine conhece a bela e jovem Kyoto (a ex-top model da Gardin, Hiroko Berghauer) com quem tem um caso amoroso. Christine descobre tudo e inicia uma crise conjugal.

O filme atesta o que Truffaut costumava chamar de "verificação pela vida", ou seja, dissimular o caráter biográfico através de pequenos detalhes reais e de narrativas colhidas nas pesquisas realizadas pelos roteiristas Claude Givray e Bernard Revon. Além de Doinel, outros personagens da trama são inspirados em algo da vida do diretor. Quando criança, Truffaut observava em sua rua a existência de um tingidor de flores, profissão há tempos esquecida mas que imprime um certo ar nostálgico à fita. Christine tem algo da tia do diretor, Monique Monferrand, que, assim como a personagem, ensinava violino. Até mesmo o homem misterioso conhecido como o estrangulador, que depois se revela humorista na TV, foi inspirado no amigo de infância e comediante Claude Vega (Claude Thibaudat).

Em Domicílio Conjugal, Truffaut opta por um tom burlesco, já conhecido mas mais aprofundado nesta parte da vida de Antoine, que parece não se decidir entre a adolescência e a vida adulta. Salvo alguns comentários sobre a condição econômica da época, o jovem não tem a menor inclinação política. O diretor afirma: "Ele não é um sujeito empenhado em mudar a sociedade; desconfia dela, protege-se dela, mas é cheio de vontade e desejos, parece-me, de ser aceito".

Adulto sensibilizado com a infância marginalizada, o diretor carregava consigo uma irresistível atração pelos excluídos. No filme, ele brinca com a frase "gosto dos pais quando não são os meus". Filho rejeitado de mãe solteira e prisioneiro aos 16 anos, depois de denunciado pelo próprio padrasto, Truffaut exorcizou no cinema os traumas que povoaram suas primeiras duas décadas de vida.

Perfeito e extremamente sutil, Domicílio Conjugal levou 220 mil parisienses ao cinema e, assim, consagrou Truffaut como diretor. Os franceses tinham razão, já que o filme parece feito artesanalmente e emana uma incomparável delicadeza para retratar a profundidade da condição humana.

Luara Oliveira


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