Provocação

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Sinopse

Ted Cole (Jeff Bridges) é um autor de livros infantis cujo casamento está se dissolvendo após a morte dos filhos adolescentes. Tiveram uma filha para tentar manter o relacionamento, mas não deu certo. Assim, ele e sua mulher, Marion (Kim Basinger), moram em casa separadas. Num verão, quando ele contrata um jovem aspirante a escritor para ser o seu assistente, a vida do casal irá mudar ainda mais radicalmente.


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Crítica Cineweb

27/07/2005

São raros os casos em que diretores e roteiristas são corajosos o bastante para adulterar uma obra literária ao adaptá-la para o cinema – ainda mais quando essa obra é baseada num escritor consagrado e talentoso como John Irving. Mas a verdade é que Provocação (baseado na primeira parte de Viúva por um Ano) é a melhor adaptação de Irving para o cinema – mesmo se comparada a Regras da Vida que tem roteiro do próprio escritor e levou um Oscar.

Provocação tem sua espinha dorsal na preocupação central da obra de Irving. O embate entre mundos diferentes – muitas vezes de forma sutil – ligado à estranheza da vida, tudo isso carregado por um lado de sentimentalismo, por outro da crueza com a qual as pessoas têm que lidar. Ao mesmo tempo, como o livro, é povoado de pessoas normais passando por momentos atípicos em suas vidas. E embora o roteirista e diretor Tod Williams tenha feito concessões, seu texto segue à risca aquilo que se encontra nos livros de Irving. Tudo isso fica bem melhor com duas performances que beiram a perfeição, com Jeff Bridges e Kim Basinger nos papéis centrais.

Bridges é Ted Cole, um escritor de livros infantis casado com Marion (Kim) e pai de Ruth (Elle Fanning, irmã de Dakota e tão talentosa quanto). Mas o casamento dos Colle não anda bem. Cada um vive em uma casa, se distanciaram ao longo dos anos após a perda de dois filhos adolescentes em um acidente de carro. A pequena Ruth, de quatro anos, foi uma fracassada tentativa de reconciliação.

Durante o verão retratado no filme, Ted contrata um jovem aspirante a escritor para ser seu assistente. Eddie O’Hare (Jon Foster) espera aprender algo com seu novo chefe, afinal, ele é um renomado escritor e ilustrador de livros infantis. Certamente o rapaz vai aprender muito – mas não necessariamente com Ted. Em pouco tempo, ele se decepciona aos descobrir que seu ídolo é um mulherengo sádico que vive bêbado - e não é tão bom escritor como imaginava.

Essa perda da inocência moral de Eddie é acompanhada da perda de sua inocência física, quando ele se apaixona por Marion e ela se torna a primeira mulher de sua vida. Enquanto isso, Ted continua fazer desenhos da Sra. Vaughn (Mimi Rogers) nua – uma desculpa para manter mais um de seus casos.

Tomando uma certa distância dos fatos, o diretor/roteirista Williams não traz à tela julgamentos. Ele vai, aos poucos, montando uma crônica do fim de um casamento e de um relacionamento estranho, o de Marion e Eddie. Sem dar muita importância ao lado físico da relação, ele se atém ao desmantelamento emocional de seus personagens, que vão sendo tragados para o fundo de um poço. E, mesmo assim, ainda encontram brechas por onde respirar.

Chega um momento em que a situação se torna mais difícil e chega a um limite. É a hora da escolha. Marion, que sempre foi considerada ‘uma mulher difícil’, mais uma vez é quem desencadeia as ações – embora possa parecer uma personagem mais passiva. Raramente, Kim Basinger conseguiu dar uma performance tão cheia de nuances, como a mãe ensimesmada que abre mão da vida e da filha. Ela mesma diz que prefere ser uma mãe ausente a ser uma mãe ruim. Não é qualquer atriz que dá credibilidade a uma fala destas – mas Kim transforma o que poderia ser um monstro egoísta num ser humano de verdade, cheia de medos e, principalmente, frustrações com as quais não consegue lidar.

Bridges também tem uma das performances mais complexas e acertadas que um ator norte-americano deu nos últimos anos. Ainda é uma charada o fato dele não ter sido indicado ao Oscar. Sua presença domina a tela, num personagem que luta entre a culpa e a leveza.

O diretor/roteirista segue a linha proposta por Irving, mas é menos rígido em traduzir o livro em imagens, mais preocupado em contar uma história. Esse segmento de Viúva por um ano, por exemplo, se passa no final dos anos 50. O filme, por sua vez, parece se passar nos tempos atuais, mas acaba sendo atemporal – embora uma ou outra fala o situe no presente. Por outro lado, algumas das imagens mais marcantes do livro estão lá. Como o corredor de uma das casas dos Cole cheia de fotos dos filhos que morreram, como se fosse habitada por fantasmas.

Num todo, Williams construiu em seu roteiro um painel de cheio de variedades, mostrando vidas confinadas a seus anseios. Desde os personagens centrais, até mesmo os menores, como Sra. Vaughn, ou o seu jardineiro (Louis Arcella), ou até mesmo a dona de uma loja de molduras (Donna Murphy), todos parecem ter vida própria. Olhando de longe, são personagens que povoam o mundo. Olhando mais de perto, são seres humanos, cheios de medos, ansiedade e algumas alegrias.

Alysson Oliveira


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